Naquela noite de agosto de 1974, um jovem baterista subiu ao palco sem imaginar que mudaria para sempre o Rush e a história do rock; como a estreia de Neil Peart em Pittsburgh transformou um trio canadense em lenda
Naquela noite abafada de verão em Pittsburgh, ninguém imaginava que o show de abertura para o Uriah Heep e o Manfred Mann’s Earth Band ficaria marcado na história do rock. Mas foi ali, na imponente Civic Arena, diante de 11.000 pessoas, que um jovem baterista canadense, magro e determinado, subiu ao palco para sua primeira apresentação com o Rush. O nome dele era Neil Peart — e, a partir daquele instante, nada seria como antes.
A história começou poucas semanas antes, com uma urgência que beirava o desespero. O baterista original, John Rutsey, havia deixado a banda em julho de 1974, e o Rush tinha uma turnê marcada nos Estados Unidos para começar em 14 de agosto. Como lembra Geddy Lee em sua autobiografia My Effin’ Life.
“Bem, quando John saiu, agendamos um show grande nos Estados Unidos como banda de abertura do Uriah Heep, na Pittsburgh Civic Arena… Mas espera um momento. Como na famosa fala de um dos filmes mais exibidos de todos os tempos no ônibus do Rush, Alta Ansiedade: ‘Ei, Norton… Não tá faltando nada?’; John saiu da banda em julho, e aqui estávamos nós falando em começar uma turnê pelos EUA em 14 de agosto? Precisávamos de um baterista!”.

Foi então que, em 28 de julho de 1974, Neil Peart fez a audição que mudaria para sempre a vida dos três integrantes — e, de quebra, a de milhões de fãs pelo mundo. No dia seguinte, 29 de julho, aniversário de 21 anos de Geddy, chegou a resposta: Peart era o escolhido. “A emoção e a agitação repentinas foram avassaladoras”, lembraria ele anos depois.
Como descreve Geddy, “em questão de poucas semanas, tendo escolhido a bateria que queria, era um homem totalmente armado e perigoso, aquecendo para nosso show com Uriah Heep e Manfred Mann’s Earth Band na Civic Arena, em Pittsburgh. Que reviravolta”.
O Rush ainda promovia seu álbum de estreia, e o repertório daquela noite era curto, direto e pesado: “Finding My Way”, “In the Mood”, “Bad Boy” (cover de Larry Williams) e “Working Man”, esta última estendida para incluir um solo de bateria de Peart, uma amostra inicial da explosão de técnica e criatividade que se tornaria um dos pontos altos dos shows do trio.
“Começamos a turnê em agosto de 1974, e fomos para o estúdio naquele inverno para gravarmos nosso primeiro álbum juntos, Fly By Night. Com o coprodutor Terry Brown, tínhamos dez dias para compor as canções (trazendo algumas ideias embrionárias que trabalhamos na estrada), gravá-las e mixá-las. Era louco”, lembrou Neil, num artigo escrito para a revista Drum! em dezembro de 2015.

Jogado aos leões– A estreia não foi apenas um teste de fogo para o novo integrante. Foi o ponto de partida para uma transformação musical e conceitual: com Peart assumindo também as letras, o Rush deixaria o hard rock mais cru do primeiro disco para mergulhar em composições ambiciosas, com influências de literatura, filosofia e ficção científica.
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Apesar de existirem gravações em áudio dessa noite, a qualidade é a de um típico bootleg dos anos 70. A confusão histórica com o show de 26 de agosto, no Agora Ballroom, em Cleveland — este sim transmitido pela rádio e com som cristalino — fez com que muitos pensassem que aquela havia sido a estreia de Peart. Mas foi em Pittsburgh, no dia 14, que nasceu a formação clássica.
Naquela noite, um garoto tímido, mas com braços e ideias incendiários, encontrou seu lugar ao lado de Geddy Lee e Alex Lifeson. E juntos, dali em diante, redefiniriam o que três músicos podiam fazer no palco, mudando para sempre a história deles e de milhões de fãs espalhados pelo mundo.