Os atores da abertura viral do Rush revelaram como foi participar de uma produção secreta, cheia de humor, próteses e homenagens a Neil Peart.
Antes de Geddy Lee, Alex Lifeson e Anika Nilles aparecerem no palco do Kia Forum, em Los Angeles, no dia 7 de junho de 2026, a abertura viral do Rush já tinha colocado os fãs dentro de outra viagem. Ainda não era o show, mas aquele filme inicial vinha carregado daquele tipo de detalhe que faz qualquer fã da banda parar tudo, voltar o vídeo e tentar entender o que acabou de ver. Era uma peça sombria, meio gótica, cheia de piadas internas, objetos escondidos, referências antigas e pequenos acenos para a história do grupo.
Em poucos minutos, a internet começou a tratar aquilo como um quebra-cabeça. E, quando o assunto é Rush, todo mundo sabe que um quadro no canto da tela pode virar teoria, memória e discussão por dias.
Agora, parte dessa história começou a aparecer. Em entrevista concedida à revista digital Metal Talk, em texto assinado pelo jornalista Paul Hutchings, os atores David Spence, Kate Hargrave Murray e Taylor S. Gokyilmaz revelaram como foi entrar nessa produção cercada de segredo. O mais curioso é que, no começo, nem eles sabiam exatamente onde estavam se metendo.
O trabalho apareceu com o nome falso de Project X, sem Rush, sem Geddy, sem Alex e sem qualquer explicação clara. O que eles sabiam era pouco, mas suficiente para desconfiar de que havia algo grande por trás. Seria uma grande banda canadense, o material seria exibido para uma plateia enorme e tudo deveria permanecer em sigilo absoluto.
Abertura viral do Rush nasceu sob segredo
David Spence tinha começado a atuar havia pouco tempo quando recebeu o teste. Segundo ele, a agência avisou apenas que se tratava de uma função muito secreta. “Chamava Project X. Era um papel muito secreto. Minha agência me disse que não podia contar muita coisa, mas seria uma grande banda, uma banda canadense, e seria ao vivo diante de um público de 50 mil pessoas”, contou. Naturalmente, ele quis entrar. “Eu estava muito empolgado para participar”, disse, lembrando que Jules, da Jules Casting, e Dale, o diretor, gostaram de sua fita de audição e o colocaram no projeto. Só depois ele começou a entender o tamanho daquilo.

O choque maior veio quando David encontrou Alex Lifeson pessoalmente. A reação dele diz muito sobre o peso emocional que o Rush ainda tem para quem cresceu em Toronto, onde a banda não é apenas famosa, mas quase parte da paisagem afetiva da cidade. “Eu precisei me apoiar na parede”, contou David, rindo, “para não cair quando apertei a mão de Alex.” A frase tem cara de exagero, mas soa perfeitamente verdadeira para qualquer fã que imagine estar diante de um dos músicos que ajudaram a moldar sua vida inteira.
Kate Hargrave Murray também entrou no processo sem saber direito para quem estava trabalhando. Ela chegou a achar que tinha perdido a chance porque não poderia comparecer a uma nova chamada presencial. “Eu fiquei arrasada”, lembrou. “Pensei, ‘Ah, não vou conseguir esse papel porque não vou poder ir ao callback.’” A surpresa veio depois, quando descobriu que o papel já era dela. Mesmo assim, o segredo continuou até a prova de figurino.
“Eu não soube para quem era até a prova de figurino”, contou Kate. Quando entrou na sala, viu que algumas pessoas já estavam se preparando. Então veio a apresentação mais surreal possível. “Eles disseram, ‘só para vocês saberem, este é Alex, este é Geddy.’ E nós ficamos ali tipo, ‘Oi.’”
Taylor S. Gokyilmaz teve a transformação mais radical do trio. Recém-formado pela Toronto Film School, sem agente, ele se inscreveu por conta própria pelo Casting Workbook. A descrição do papel pedia algo como “o sósia gordinho de Willy Wonka”, e ele resolveu abraçar a brincadeira. “Eu pensei, ei, eu sou gordinho, eu consigo, certo?”, contou.
“Então fiz a parte, improvisei pra caramba no teste e soltei um pum sem querer. Foi muito, muito engraçado. E eles gostaram muito.” A história já seria boa por si só, mas ficou ainda melhor quando, durante o processo das próteses, ele descobriu quem interpretaria. “A propósito, você vai ser o Alex Lifeson”, disseram a ele. A reação foi imediata. “Eu fiquei tipo, impossível. Que loucura.”
Próteses, improviso e humor nos bastidores
O resultado final ficou tão convincente que muitos fãs passaram a perguntar se aquela imagem do jovem Alex tinha sido criada por inteligência artificial. Taylor contou que precisou responder a vários comentários explicando que não havia truque digital substituindo seu corpo. “Não, sou eu com próteses e maquiagem. Sou um homem de 22 anos”, disse. O mais curioso é que nem ele conseguiu se reconhecer direito quando viu o vídeo pronto. “Revendo a gravação, eu não consegui me reconhecer.” Enquanto Kate e David eram mais fáceis de identificar, Taylor ficou numa posição estranha, central para o vídeo e, ao mesmo tempo, quase anônimo por baixo da maquiagem.
Esse nível de transformação mostra que a abertura não foi tratada como uma simples vinheta para aquecer a plateia. O filme foi construído como uma peça cheia de camadas, pensada para conversar diretamente com quem conhece a história do Rush em detalhes. Havia símbolos, piadas visuais, lembranças de discos clássicos e pequenos sinais espalhados pela tela. Kate contou que, nos testes, várias referências específicas tinham sido retiradas ou disfarçadas para preservar o segredo. Em uma cena, por exemplo, ela precisava reagir a uma situação estranha sem saber exatamente o que aquilo significava. “Nós não sabíamos que era a coruja do álbum Fly By Night”, explicou. “Só sabíamos, ok, reaja como se houvesse um pássaro voando na sua direção.”
Nos bastidores, o clima parece ter sido tão divertido quanto o vídeo sugere. Kate descreveu Geddy Lee e Alex Lifeson como “muito engraçados” e contou que boa parte do trabalho envolvia improviso. “Eles são caras incríveis no geral”, disse. “Acho que a parte mais difícil era que a gente estava improvisando de um lado para o outro, tinha muito improviso, e eles são muito engraçados.” O desafio era manter a cena sem rir. “Estávamos no meio de uma tomada e nós três ficávamos ali tipo, não ri, não ri.”
Taylor tinha uma vantagem involuntária, já que as próteses no rosto eram tão apertadas que dificultavam até a risada. “Meu rosto estava tão apertado que eu quase não conseguia mexer”, contou.
David lembrou de um momento envolvendo Harry and The Bag em que tentou manter a concentração enquanto via Geddy vestido com kilt e gaita de foles, com Alex por perto de pijama, segurando um hacky sack. A cena foi demais para ele. “Essa é a coisa mais engraçada que já vi na vida”, lembrou ter pensado. “Levei uns 15 minutos honestos para me recompor.”
Também houve momentos mais calmos e pessoais. Entre uma tomada e outra, David conversou com Alex sobre música, sobre o amor do pai dele pelo Rush e sobre sua própria admiração pelo Tool. Alex relembrou quando tocou Jambi com o Tool em Toronto, e David ficou impressionado com a simplicidade da conversa. “Uma lenda canadense como ele descendo à Terra para falar comigo, um mero mortal”, disse. “Foi realmente uma honra.”
A homenagem a Neil Peart no detalhe
Entre os detalhes mais comentados, um dos mais fortes é também um dos mais discretos. O copo de Macallan acompanhado de um guardanapo com o nome Neil funciona como uma homenagem silenciosa a Neil Peart. Não é uma cena que precisa de discurso, nem de explicação. Ela apenas aparece ali, pequena e pesada ao mesmo tempo, como uma lembrança íntima colocada no meio de uma produção cheia de humor. Esse equilíbrio talvez seja uma das marcas mais bonitas da abertura. O vídeo brinca com a mitologia da banda, exagera no absurdo, recupera personagens e piadas antigas, mas encontra espaço para tocar no ponto mais sensível da história recente do Rush.
Guardar segredo foi uma das partes mais difíceis para os atores. David contou que o pai é um grande fã do Rush, o que tornou o acordo de confidencialidade quase uma tortura. “Isso me matou”, disse. “Meu pai não só é um fã enorme do Rush, como de South Park, que a gente cresceu assistindo.” A vontade de contar era tão grande que ele descreveu a sensação de uma forma bem física. “Literalmente todo dia era como arrancar a própria pele, de tanta vontade de falar com ele.”
Kate viveu algo parecido no cotidiano, já que músicas do Rush tocavam com frequência no lugar onde trabalhava. Em outra ocasião, ela saiu com amigos para um fliperama e encontrou uma máquina de pinball temática da banda. Todo mundo brincava, comentava e ficava com músicas presas na cabeça, mas ela não podia dizer nada. “Eu não podia dizer nada porque ainda estávamos sob o acordo.”
Quando os atores descobriram a reação dos fãs
Quando a abertura finalmente apareceu no show, os próprios atores não tinham visto o vídeo pronto. Eles descobriram o resultado praticamente junto com os fãs, por meio de clipes gravados no Kia Forum e compartilhados online. Taylor estava trabalhando quando as primeiras imagens começaram a circular, e o grupo de mensagens dos atores explodiu. “Estamos no ar, estamos aqui”, diziam as mensagens. Ele precisou se afastar por alguns minutos para assistir. “Eu simplesmente olhei para o celular e pensei, meu Deus, preciso ver isso. Com licença por 10 minutos.”
David gostou de ter sido mantido no escuro, porque isso permitiu que ele experimentasse a surpresa junto com o público. “Eles nos mantiveram no escuro para que, quando víssemos aquilo, fosse quase como sentir junto com os fãs”, disse. Para ele, isso preservou “a autenticidade” e “a empolgação” do momento.
A entrevista também mostra como os atores foram descobrindo, aos poucos, a intensidade da comunidade de fãs do Rush. David definiu esse público como gente que “nota tudo” e às vezes “analisa demais”, mas sem tom de crítica. Pelo contrário. É porque se importa. Kate comparou a busca por pistas e easter eggs ao comportamento dos fãs de Taylor Swift. “Normalmente, quando vejo esse tipo de coisa acontecendo, é com Swifties”, disse. “É a mesma coisa, só que para outra geração.”
David completou dizendo que as pessoas querem tanto criar uma conexão que tentam associar detalhes, personagens e rostos a figuras da banda, como quando alguns passaram a ligar Kate a Anika. Kate, no entanto, viu nisso uma demonstração de carinho. “É um prazer enorme saber que a comunidade se importa desse jeito e olha tudo com tanta atenção.”
No fim, a abertura viral da turnê não serviu apenas para apresentar a nova fase do Rush com Anika Nilles. Ela também mostrou que Geddy e Alex continuam sabendo brincar com a própria história sem transformar tudo em peça de museu. O vídeo revisita personagens, espalha referências, usa humor, mexe com a memória e ainda encontra espaço para a emoção. A presença de Neil atravessa tudo sem precisar dominar a cena. Ele está no detalhe, no silêncio, no copo, no guardanapo, naquilo que cada fã reconhece de imediato sem precisar que ninguém explique.
Questionados sobre suas músicas favoritas do Rush, os três atores também deixaram suas escolhas. David respondeu “YYZ” sem hesitar. Kate escolheu “Fly By Night”, porque a música vive grudando em sua cabeça. Taylor ficou com “Limelight”. E quando veio a pergunta sobre por que seus personagens estavam procurando a banda, a resposta fechou tudo no melhor espírito Rush. “Queríamos fazer uma jam”, disse Kate. David entrou na brincadeira e completou. “Eu sei tocar em sete por oito.” Taylor ficou com a última piada. “Eu estava lá pelos lanches.”
A essa altura, os três já entraram, mesmo que por uma abertura pequena, na história do Rush. Com essa banda, quase nada fica pequeno por muito tempo. Uma cena vira assunto. Um objeto no canto do quadro vira teoria. Uma homenagem discreta vira lágrima. Uma piada vira parte da mitologia. David até encontrou um nome perfeito para isso. “Nós somos o Universo Cinematográfico do Rush.”
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