Dois amigos, porões e muito rock. John Rutsey e sua bateria ajudaram a fundar uma das maiores bandas da história
A história do Rush é quase um épico musical repleto de reviravoltas, e nenhum capítulo é tão intrigante quanto o breve período de John Rutsey atrás da bateria. Ele foi o dono das baquetas no álbum de estreia, aquele que ajudou a moldar o som inicial da banda, mas que desapareceu dos holofotes tão rapidamente quanto surgiu. Mas quem era John Rutsey?
Mais do que um nome nas notas do álbum de estreia do Rush, a história dele remete antes mesmo da criação da banda, quando John era mais um adolescente da mesma vizinhança onde morava um tal Alex. Ali, no final da década de 1960, o loirinho foi um companheiro de aventuras musicais na vida de Rutsey. Como o próprio Alex Lifeson descreve no livro “Rush: Através das Décadas”, eles se conheceram quando eram “apenas garotos, unidos pela paixão por música e esportes”. E explica: “Costumávamos nos divertir muito, nos apaixonamos por música na mesma época, e ele meio que vivia grudado na bateria assim como eu não desgrudava da guitarra”, lembra Lifeson.
Juntos, eles formaram a banda The Projection, tocando covers de Yardbirds em festas no porão de casas de amigos. Eram tempos de descobertas, de aprendizado, de pura diversão musical. “Tínhamos amplificadores pequenos e basicamente zero equipamento”, conta Alex, “mas tocávamos essas sete ou oito músicas sem parar. Era muito, muito legal e ainda consigo me lembrar daquilo…”

Após essa primeira experiência, Alex e John formaram um trio com um vocalista e baixista chamado Jeff Jones. Curiosamente, foi o irmão mais velho de John quem sugeriu o nome Rush para essa banda, um detalhe interessante que revela a importância da família Rutsey na história do grupo. Pouco tempo depois, Geddy Lee entraria para a banda, que passou um tempo com os quatro integrantes. Mas logo depois Geddy substituiu Jones, e o Rush como conhecemos começaria a tomar forma.
No entanto, o destino tinha outros planos para John. Geddy Lee, em sua autobiografia, descreve um John Rutsey dividido entre a empolgação de uma turnê pelos EUA e uma crescente apatia. As diferenças musicais entre ele e seus companheiros de banda, tornavam-se cada vez mais evidentes. Enquanto Geddy e Alex se aventuravam pelas complexas melodias do rock progressivo, inspirados por bandas como o King Crimson, Rutsey mantinha os pés firmes no rock n’ roll direto e cru, com Simon Kirke, do Free, como um de seus bateristas favoritos.
Essa divergência musical se manifestava de diversas formas. Geddy Lee conta um episódio revelador que ocorreu durante as gravações do primeiro álbum do Rush. Enquanto a banda aguardava John trazer as letras definitivas das músicas, Geddy improvisava palavras para que os ensaios pudessem prosseguir. “Na segunda noite no estúdio”, lembra, “ninguém sabia onde John estava. Depois, recebemos uma mensagem dele. ‘Não fiquei satisfeito com as letras, então rasguei tudo’. Fiquei atordoado.” Esse episódio ilustra a complexidade da personalidade de John Rutsey e as dificuldades que ele enfrentava para se expressar e lidar com as pressões da vida de músico.
“Era um cara temperamental”, descreve Geddy. “Muito inteligente e tinha ótimo senso de humor, mas também era cínico. Podia iluminar uma sala com um comentário sagaz da mesma forma com que poderia te destruir só com um olhar.” Essa dualidade de John, capaz de oscilar entre momentos de alegria e fúria, criava um ambiente tenso e imprevisível para a banda. Rutsey era visto como o líder da banda, era ele quem falava sobre o trio e o responsável em apresentar os caras nos shows.

Imagino John, um jovem baterista com um talento inegável, sentindo-se cada vez mais deslocado. A música que o movia era diferente daquela que seus amigos estavam criando. É fácil pensar os ensaios da banda, com Alex e Geddy explorando novas sonoridades, complexas e desafiadoras, enquanto John se mantinha fiel ao seu estilo, talvez até frustrado por não conseguir acompanhar a evolução musical dos seus companheiros. A diabetes, sem dúvida, era um fator a ser considerado, especialmente na época, quando o tratamento era mais complicado e as longas turnês poderiam ser um desafio para sua saúde.
“O gostinho de uma vida em turnê pelos EUA tinha nos deixado, eu e Alex, muito animados, mas não para John”, relembra Geddy. “Seu comprometimento parecia cada vez mais desleixado. Sabíamos que alguma coisa teria que mudar mais cedo ou mais tarde.” A banda chegou a considerar a possibilidade de substituir John por Paul Kersey, baterista do Max Webster, mas a ideia não foi adiante. Finalmente, em uma reunião na SRO, John concordou que seria melhor para todos se ele deixasse a banda.
Mas o que John Rutsey disse sobre o assunto, na época? Ou depois? Poucas vezes o músico se pronunciou sobre o tema, uma delas foi para a biografia “Visions”, escrita por Bill Banasiewicz e lançada em junho de 1990. “Eu estava mais inclinado a um som muito parecido com o do Bad Company,” disse John.
“Na época, Alex e Geddy imaginavam a banda explorando outras áreas. Eu também simplesmente não estava mais gostando, e esse é o primeiro sinal. Não estava ansioso por isso. Eu podia sentir que estava forçando a amizade com os outros caras, é uma coisa difícil de explicar. Nunca consegui definir isso com precisão. Eu meio que me distanciava e passava mais tempo conversando com os roadies. Se você não consegue sair e se divertir, sabe que é hora de ir embora.”
Liam Birt, técnico da banda na época, relembra a conversa que teve com os membros do Rush sobre a saída de John: “Explicaram para mim e para o outro técnico na época que John estava saindo da banda, queriam saber se nós estávamos de acordo com isso. Não nos deram qualquer escolha, mas acho que foi uma cortesia da parte deles nos informar que ele estava de saída. John tinha problemas de saúde. Quando a banda decidiu que precisava mesmo fazer turnês uma atrás da outra, entenderam que ele provavelmente não tinha condições físicas para aguentar o tranco.”
O próprio Geddy Lee afirma que o principal motivo da saída de John foram as “diferenças musicais”. Ele simplesmente não estava contente tocando o que a banda queria tocar.

John & Neil– A saída de Rutsey foi um momento crucial na história do grupo. Ele abriu caminho para a entrada de Neil Peart, que se tornaria o baterista icônico e letrista do Rush. Mas o que teria acontecido se John tivesse ficado? Teria o Rush alcançado o mesmo sucesso? Teria a banda trilhado um caminho musical diferente, mais próximo do hard rock tradicional?
As respostas a essas perguntas se perdem pelo tempo e pelas lendas em torno do assunto. O que sabemos é que John Rutsey deixou sua marca no Rush, e sua contribuição para o álbum de estreia jamais será esquecida. Ele foi um pioneiro, um dos fundadores de uma das maiores bandas de rock de todos os tempos.
Após sua saída do Rush, Rutsey se manteve distante dos holofotes. Sua vida após a banda é envolta em mistério, com poucas informações disponíveis. Sabe-se que ele se dedicou ao fisiculturismo por um período, como revelado por Alex Lifeson em uma entrevista de 1989.
Infelizmente, a história do baterista John teve um final prematuro. Em 2008, a família Rutsey confirmou seu falecimento em 11 de maio, aos 55 anos, vítima de um ataque cardíaco em decorrência de complicações relacionadas ao diabetes. O Rush divulgou uma nota de pesar e homenageou seu primeiro baterista incluindo gravações ao vivo com ele em materiais extras do documentário “Beyond the Lighted Stage”, que conta a história do trio canadense. Além de vídeos recuperados nos extras do DVD do show “Time Machine 2011: Live in Cleveland”.
John Rutsey se tornou um enigma, uma figura misteriosa que deixou um legado musical marcado no primeiro e lendário disco do Rush. Mas deixou também muitas perguntas sem respostas. Talvez seja essa aura que torna a personalidade de Rutsey ainda mais enigmática.
Uma resposta
Fala João, algumas coisas dessa história eu não sabia, belo texto, abraço