A escolha de “Xanadu” para abrir a nova turnê nos levou a recuperar uma reportagem escrita por Malcolm Dome para a revista Metal Hammer, publicada originalmente em fevereiro de 2013. A partir desse material, o RushBrasil.com revisita o papel do trio canadense na formação de uma linguagem que, anos depois, seria desenvolvida por bandas como Dream Theater, Tool, Meshuggah e tantas outras.
Quando Geddy Lee e Alex Lifeson retornaram aos palcos, poderiam ter iniciado o novo espetáculo com um de seus sucessos mais reconhecidos. “Tom Sawyer”, “The Spirit Of Radio”, “Limelight” ou “Subdivisions” provocariam uma reação imediata do público. A escolha, porém, foi “Xanadu”, clássico de A Farewell To Kings, lançado em 1977. A composição extensa, atmosférica e repleta de mudanças abriu um novo capítulo na trajetória dos músicos e recolocou em evidência a relação entre o Rush e o metal progressivo. Até que ponto o trio canadense ajudou a criar aquilo que hoje conhecemos por esse nome?
A pergunta está no centro da reportagem escrita pelo jornalista britânico Malcolm Dome para a Metal Hammer. Publicado originalmente na edição 241 da revista, em fevereiro de 2013, o texto recuperava a trajetória do grupo a partir de uma conversa com Geddy Lee. Mais de uma década depois, o RushBrasil.com retoma esse material porque a decisão de abrir a nova turnê com “Xanadu” recoloca em evidência justamente o período em que a banda ajudou a aproximar o peso do hard rock da ambição do rock progressivo.
Rush e o metal progressivo antes do gênero ter nome
A tese apresentada por Dome era bastante clara. Muito antes de Dream Theater, Tool, Meshuggah, Cynic ou Tesseract levarem essa combinação por diferentes caminhos, o Rush já produzia músicas longas, intrincadas e conceitualmente ambiciosas. Eram composições que reuniam riffs pesados, virtuosismo instrumental, mudanças de andamento e letras influenciadas por literatura, filosofia, fantasia e ficção científica.
O trio talvez não tenha inventado sozinho o metal progressivo, até porque estilos musicais não costumam nascer da criação isolada de uma única banda, mas pode ser visto como uma das pontes mais importantes entre dois mundos que ainda estavam se aproximando.
No começo, nada indicava com tanta clareza o caminho que o Rush seguiria. O primeiro álbum, lançado em 1974, apresentava uma banda muito ligada ao blues e ao hard rock britânico. O próprio Geddy Lee recordaria mais tarde que, na cabeça dos integrantes, eles eram uma espécie de Led Zeppelin canadense. Na prática, ainda eram músicos jovens tocando em bares, bailes escolares e pequenos espaços, enquanto tentavam encontrar uma identidade própria.
A transformação decisiva começou naquele mesmo ano, quando Neil Peart assumiu a bateria no lugar de John Rutsey. Além de trazer uma técnica diferente para o instrumento, Peart passou a escrever a maior parte das letras.
Com ele, entraram no universo do Rush as grandes narrativas, os mundos imaginários e as discussões sobre liberdade individual, tecnologia e controle social. As canções deixaram de depender apenas dos temas tradicionais do rock e passaram a apresentar personagens, conflitos e ideias que se desenvolviam ao longo de vários minutos.
O impacto dessa mudança já podia ser percebido em Fly By Night, de 1975. “By-Tor And The Snow Dog” afastava-se do formato convencional de uma canção de rock ao apresentar diferentes partes, personagens fantásticos e longas passagens instrumentais.
Ainda naquele ano, Caress Of Steel levou a experiência mais adiante com “The Necromancer” e “The Fountain Of Lamneth”. O Rush não queria apenas escrever sequências de versos, refrões e solos. A banda começava a tratar cada composição como uma jornada.
Caress Of Steel, crise e resistência
Hoje, essas músicas podem ser entendidas como etapas importantes na formação da identidade do trio. Na época, porém, o resultado comercial foi desastroso. A turnê de Caress Of Steel teve vendas ruins e recebeu o nada animador apelido de Down The Tubes Tour, algo próximo de uma excursão que estava indo pelo ralo.
Geddy Lee contou a Malcolm Dome que, em alguns lugares, quase não havia divulgação. Em outros, os responsáveis pelas casas de espetáculo pareciam nem saber que a banda chegaria. A gravadora queria que o grupo abandonasse as experiências e voltasse ao blues rock mais simples do disco de estreia.
O Rush respondeu fazendo exatamente o contrário. Em vez de reduzir suas ambições, Geddy Lee, Alex Lifeson e Neil Peart decidiram ampliá-las. O primeiro lado do álbum seguinte seria ocupado por uma composição com mais de 20 minutos, dividida em sete partes e ambientada em uma sociedade totalitária.
Dessa decisão nasceu 2112, o disco que poderia ter encerrado a carreira da banda, mas acabou garantindo sua sobrevivência.
2112 e o direito de criar
A faixa que dá nome ao álbum acompanha um homem que encontra uma guitarra em um mundo no qual a criação artística é controlada pelos Sacerdotes dos Templos de Syrinx. Ao descobrir que pode produzir música por conta própria, ele também percebe a possibilidade da liberdade individual. Quando apresenta o instrumento aos governantes, sua criação é rejeitada e destruída.
A história parecia refletir, ainda que indiretamente, o momento enfrentado pelo próprio Rush. Enquanto a indústria pedia músicas mais curtas, previsíveis e fáceis de vender, a banda respondia com uma suíte futurista sobre o direito de criar sem interferência.
Musicalmente, 2112 reunia vários elementos que mais tarde se tornariam fundamentais para o metal progressivo. A composição era dividida em movimentos, passava por mudanças de dinâmica e andamento, alternava riffs pesados com trechos acústicos e utilizava temas instrumentais recorrentes para conduzir a narrativa.
Havia técnica, mas ela não aparecia como um fim em si mesma. Cada mudança ajudava a contar a história e a conduzir o ouvinte de um ambiente para outro.
O sucesso do álbum mostrou que existia público para aquela proposta. O Rush demonstrou que uma música pesada também poderia ser complexa, conceitual e intelectualmente inquieta sem perder seu impacto. Ao recordar o período, Geddy Lee resumiu a confiança conquistada pelo trio com uma de suas brincadeiras mais conhecidas: eles não eram arrogantes o suficiente para pensar que haviam se tornado a banda mais importante do mundo; apenas sabiam que eram.
“Xanadu” e a consolidação de uma linguagem
Depois de 2112, o Rush ganhou liberdade para avançar ainda mais. A Farewell To Kings, de 1977, e Hemispheres, de 1978, ampliaram o uso de teclados, sintetizadores e texturas atmosféricas.
Geddy Lee contou a Malcolm Dome que a banda havia descoberto grupos como Yes, Van der Graaf Generator e King Crimson, que a estimularam a pensar em uma música mais complexa e desafiadora. O objetivo não era apenas reproduzir aquelas influências, mas incorporá-las sem deixar de soar como o Rush.
É nesse momento que surge “Xanadu”. A composição começa lentamente, construindo um ambiente antes da entrada do riff principal. Aos poucos, as camadas instrumentais se acumulam e a música passa por diferentes atmosferas, alternando contemplação, tensão e peso.
O baixo de Geddy Lee, a guitarra de Alex Lifeson e a bateria de Neil Peart não funcionam simplesmente como acompanhamento. Cada instrumento participa ativamente da construção da narrativa.
Com mais de 11 minutos, “Xanadu” concentra vários dos elementos que tornariam o Rush uma referência para músicos de gerações posteriores. Há extensos trechos instrumentais, mudanças de clima, sintetizadores e um cuidadoso equilíbrio entre precisão técnica e força melódica.
No palco, sua execução também se tornou uma das imagens mais reconhecíveis da banda, com Geddy e Alex utilizando instrumentos de braço duplo para reproduzir os diferentes sons presentes na gravação.
Por isso, a escolha de “Xanadu” para abrir a nova turnê não parece apenas uma tentativa de agradar aos fãs mais antigos. A música representa uma fase em que o Rush percebeu que podia criar sem pedir autorização e que seu público estava disposto a acompanhá-lo em percursos mais longos e imprevisíveis.
Ao colocá-la logo no início do espetáculo, Geddy Lee e Alex Lifeson reafirmam essa identidade desde os primeiros minutos.
Quando a complexidade passou a caber em poucos minutos
Depois de levar as grandes suítes progressivas ao limite, o Rush iniciou outra transformação. Em Permanent Waves, lançado em 1980, e Moving Pictures, de 1981, o trio começou a condensar suas ideias. As músicas ficaram mais curtas, mas não necessariamente mais simples.
Mudanças rítmicas, arranjos elaborados e letras reflexivas continuavam presentes, agora dentro de estruturas capazes de alcançar um público mais amplo.
“The Spirit Of Radio” mostrou que a banda podia dialogar com as mudanças musicais daquele período sem perder sua personalidade. “Tom Sawyer” levou uma composição pouco convencional às rádios e às grandes arenas, enquanto “YYZ” transformou uma faixa instrumental em uma das músicas mais reconhecidas da carreira do grupo.
O Rush havia descoberto que uma canção progressiva não precisava ocupar todo um lado do disco para apresentar ideias ambiciosas. A complexidade também podia ser expressa em poucos minutos, desde que cada elemento tivesse uma função.
Esse equilíbrio talvez seja uma das contribuições mais importantes do trio para o metal progressivo. O Rush não ensinou seus sucessores apenas a escrever músicas longas ou a tocar com precisão. A banda mostrou como aproximar técnica e emoção, como mudar de estilo sem abandonar a identidade e como tratar o ouvinte como alguém disposto a prestar atenção.
O virtuosismo estava presente, mas não precisava sufocar a música.
Uma influência que não depende de semelhança sonora
Quando Malcolm Dome relacionava o Rush a bandas como Dream Theater, Meshuggah, Cynic e Tesseract, não sugeria que todas elas soavam iguais ao trio canadense. A herança aparece principalmente na maneira de pensar a composição.
Está na liberdade para alterar estruturas, misturar estilos, construir álbuns conceituais e permitir que cada músico participe de forma ativa da criação. Também está na convicção de que uma música pesada pode falar de tecnologia, comportamento, filosofia, liberdade ou ficção científica sem perder sua força.
A influência do Rush também pode ser percebida na disposição de desafiar o próprio público. Ao longo da carreira, a banda nunca permaneceu por muito tempo no mesmo lugar. Depois das suítes dos anos 1970, vieram as músicas mais compactas, a aproximação com a new wave, o domínio dos sintetizadores durante parte dos anos 1980 e, posteriormente, a recuperação de uma sonoridade mais centrada nas guitarras.
Cada mudança trazia o risco de afastar uma parte dos fãs, mas o grupo continuava reconhecível porque as transformações eram incorporadas à personalidade dos três músicos.
Diante de uma volta aos palcos com tanto peso histórico e emocional, seria compreensível que Geddy Lee e Alex Lifeson escolhessem um grande sucesso radiofônico para iniciar o espetáculo. A opção por “Xanadu” sugere outra intenção.
Antes dos singles, dos videoclipes e das grandes turnês em arenas, existia uma banda interessada em descobrir até onde três músicos poderiam levar uma composição. Foi desse impulso que nasceram 2112, A Farewell To Kings e Hemispheres. Foi também nesse período que o Rush ajudou a desenhar uma linguagem que o metal progressivo desenvolveria ao longo das décadas seguintes.
Talvez não seja necessário definir o Rush como uma banda de metal progressivo em todos os momentos de sua história. O trio passou pelo hard rock, pelo rock progressivo, pela new wave, pelos sintetizadores e por diferentes formas de música pesada.
Ainda assim, quando o prog metal procura suas origens, o Rush aparece em um dos pontos mais importantes desse caminho.
Muito antes de o gênero ter nome, cena ou público próprio, Geddy Lee, Alex Lifeson e Neil Peart já reuniam peso, virtuosismo, narrativas conceituais e liberdade criativa. Outras bandas aumentariam a agressividade, a velocidade e o grau de dificuldade. O vocabulário, porém, já estava sendo escrito.
Por isso, ouvir as primeiras notas de “Xanadu” na nova turnê significa mais do que reencontrar um clássico. Significa escutar Geddy Lee e Alex Lifeson retornarem ao palco pela mesma porta que o Rush ajudou a abrir para tantas outras bandas.
Malcolm Dome e a memória do rock pesado
Malcolm Dome foi uma figura fundamental para a divulgação do hard rock e do heavy metal, especialmente no final dos anos 1970 e durante a década de 1980. Ao longo da carreira, escreveu para publicações como Record Mirror, , Kerrang!, Metal Hammer, Classic Rock e Prog.
Em uma época na qual o metal ainda buscava espaço e reconhecimento na imprensa, Dome ajudou a apresentar novas bandas, registrar o surgimento de diferentes cenas e contextualizar as transformações do gênero. Seu trabalho aproximou músicos e leitores e preservou parte importante da história do rock pesado.
Malcolm Dome faleceu em 2021, aos 66 anos.