Quase quatro décadas depois de gravar Time Stand Still, a cantora finalmente dividiu o palco com Geddy Lee, Alex Lifeson e Anika Nilles, superou o receio de ser vaiada e transformou quatro noites em Los Angeles em um reencontro histórico.
Muita gente ouviu Time Stand Still a vida inteira sem talvez lembrar de imediato que aquela voz feminina que atravessa a canção ao lado de Geddy Lee pertence a Aimee Mann. A história de Aimee Mann com o Rush começou quando a cantora, então conhecida pelo trabalho com o Til’ Tuesday, foi convidada a participar de Hold Your Fire, lançado em 1987, e acabou deixando sua marca em uma das faixas mais emocionais do álbum. O detalhe é que, durante quase quatro décadas, ela nunca havia interpretado a música ao vivo com a banda.
Essa espera terminou nos quatro primeiros shows da turnê de 50 anos do Rush, realizados no Kia Forum, em Los Angeles. Geddy Lee, Alex Lifeson e Anika Nilles receberam Aimee no palco nas quatro noites para cantar Time Stand Still, transformando uma participação originalmente pensada para apenas um concerto em um dos momentos mais simbólicos do início da excursão.
A cena tinha todos os ingredientes para provocar arrepios. Uma artista ligada a um capítulo importante da história do grupo reencontrava Geddy e Alex em uma turnê cercada de memória, expectativa e reinvenção. Ao mesmo tempo, a presença de Anika representava a continuidade possível de uma banda que jamais poderia voltar a ser exatamente a mesma depois da morte de Neil Peart.
Por trás daquele momento aparentemente perfeito, no entanto, havia uma história muito menos simples. Em entrevista à Vulture Music, revista on line especializada em música e artes, de Nova Iorque, Aimee revelou que quase recusou o convite porque enfrentava uma fase emocional difícil. Quando o e-mail de Geddy chegou, ela estava deprimida, insegura e não conseguia se imaginar diante de uma arena cheia de fãs do Rush.
“Eu estava deprimida pra caralho”, contou, sem tentar disfarçar o peso do período. Segundo ela, o estado do mundo também não ajudava, enquanto tantas outras questões pessoais já consumiam sua energia. A cantora entrou em uma espécie de paralisia e nem sequer conseguiu responder ao convite de imediato.
A mensagem ficou sem resposta enquanto ela lutava contra a vontade de se esconder. Todos os dias, Aimee pensava que precisava dar algum retorno, principalmente porque Geddy havia sido gentil o suficiente para procurá-la depois de tantos anos. Mesmo assim, demorou cerca de um mês para responder.
“Todos os dias eu pensava: você precisa responder a esse cara. Não pode ignorá-lo”, recordou. A dificuldade não estava apenas em dizer sim ou não, mas em encontrar uma maneira de explicar o que sentia sem transformar o e-mail em um relato doloroso sobre sua vida.
Quando finalmente conseguiu escrever, a reação de Geddy ajudou a aliviar boa parte da tensão. Ele respondeu com carinho, disse compreender a situação e reconheceu que aquele era um período estranho para muita gente. Para Aimee, a atitude confirmou algo que ela já sabia desde o primeiro encontro com o Rush, nos anos 80.
“Ele e Alex competem com o Weird Al Yankovic no posto de pessoas mais legais do show business”, brincou. Em seguida, acrescentou que os dois talvez levassem vantagem nessa disputa por serem, além de gentis e decentes, canadenses.
O convite inicial era para apenas uma das apresentações em Los Angeles, o que tornou a decisão um pouco menos assustadora. Aimee admitiu que provavelmente teria recusado caso Geddy tivesse pedido, logo de saída, que estivesse presente nas quatro noites. O tamanho do Kia Forum e a dimensão do retorno do Rush pareciam grandes demais para alguém que nunca se viu como uma artista de arenas.
Ela também carregava um receio ainda mais incômodo. Embora sua voz faça parte da gravação original de Time Stand Still, Aimee não sabia como seria recebida por milhares de pessoas que aguardavam a volta da banda. Na pior versão que sua mente conseguia produzir, ela subiria ao palco e seria vaiada por um público interessado somente em Geddy e Alex.
A cantora imaginava os fãs gritando que não se importavam com sua presença e que tinham ido ao local para ver o Rush. O cenário criado pela ansiedade, porém, não sobreviveu aos primeiros segundos diante da plateia. Em vez de hostilidade, ela encontrou acolhimento, entusiasmo e uma reação que a fez se sentir parte daquele acontecimento.
“Os fãs deles foram incríveis, e eu me senti muito apoiada”, afirmou. O medo que havia crescido durante os meses anteriores começou a desaparecer, e o primeiro concerto se transformou em uma experiência muito mais bonita do que ela conseguia imaginar.
Aimee descreveu aquela noite como mágica, não apenas por finalmente cantar a música com o Rush, mas também pelo significado de tudo o que acontecia ao redor. A banda estava retomando sua trajetória, preservando a memória de Neil Peart e, ao mesmo tempo, recebendo Anika Nilles em uma posição cercada de responsabilidade e emoção.
“Eles estão homenageando o baterista deles enquanto também homenageiam a nova baterista, o que é muito emocionante”, observou. Na visão de Aimee, havia um clima de gentileza que começava nos integrantes, passava pela equipe e chegava ao público.
Depois da primeira apresentação, alguém ligado à produção perguntou se ela voltaria para os demais concertos. A cantora respondeu que não havia sido convidada para os outros shows, mas ouviu como resposta que, naturalmente, a banda gostaria de recebê-la novamente. A essa altura, ela também já queria repetir a experiência.
Assim, uma aparição planejada para uma única noite acabou se estendendo pelos quatro primeiros shows da turnê. Ao final da sequência no Kia Forum, Aimee havia interpretado Time Stand Still diante de quase 70 mil pessoas.
“Egoisticamente, eu adoraria fazer mais shows com eles, porque entrar para cantar uma música é exatamente o meu nível de resistência”, disse, rindo. A observação também serviu para destacar a energia do Rush, que continuava atravessando um repertório extenso depois que ela deixava o palco.
“Eu fico exausta depois de uma música, e eles seguem em frente”, comentou. Para Aimee, a força dos músicos permanece impressionante, ainda mais em uma excursão que apresenta repertórios diferentes e resgata composições de alto grau de dificuldade.
O primeiro encontro com o Rush em 1987– A participação em Los Angeles também a fez revisitar o primeiro convite do grupo, ocorrido por volta de 1987. Na época, ela conhecia o nome Rush, mas não dominava sua discografia. Seu universo estava muito mais próximo do folk rock e do pop pós-new wave do Til’ Tuesday do que das estruturas intrincadas do rock progressivo.
Até hoje, a cantora não sabe exatamente por que foi escolhida. Seu palpite é que os integrantes tenham assistido ao videoclipe de Voices Carry, grande sucesso de sua banda, e imaginado que aquela voz funcionaria na nova composição. A parte feminina já existia na gravação de demonstração e tinha um caráter agudo e etéreo.
Aimee, curiosamente, achava que o próprio Geddy poderia cantar o trecho. “Eu achava que ele soava como um anjinho e deveria ter cantado aquilo sozinho”, lembrou. Mesmo assim, aceitou a proposta e viajou para Toronto sem saber ao certo o que encontraria.
A colaboração chamava atenção porque o Rush raramente abria espaço para participações externas. Além disso, os estilos pareciam vir de lugares diferentes. Ainda assim, Aimee enxergou no convite uma oportunidade interessante e divertida, além da chance de conhecer de perto músicos que já carregavam uma reputação considerável.
Em Toronto, qualquer possível tensão desapareceu rapidamente. Geddy, Alex e Neil foram acolhedores, engraçados e cuidadosos durante a gravação. Naquele período, Aimee atravessava uma fase de grande entusiasmo pelo beisebol, assunto que rendeu longas conversas com os integrantes.
O encontro produziu também uma lembrança improvável. Ela pediu que Geddy autografasse sua luva de beisebol, o que provocou a curiosidade dos músicos sobre o motivo de carregar aquele objeto durante a viagem. A história permaneceu como uma memória afetuosa de uma sessão que transcorreu de maneira leve.
Ao ouvir sua participação no álbum, Aimee ficou surpresa com o resultado e considerou que havia cantado muito bem. Meses depois, o Rush voltou a procurá-la para o videoclipe de Time Stand Still, gravado em Nova York. Ela aceitou novamente e apareceu ao lado dos músicos naquelas imagens que hoje carregam todo o charme e o exagero visual dos anos 80.
Depois disso, o contato praticamente desapareceu. A banda seguiu em turnê, Aimee continuou sua carreira e a distância ajudou a empurrar aquele encontro para o passado. Embora tivesse gostado muito dos integrantes, ela nunca mais os viu até receber o novo e-mail de Geddy.
Antes dos concertos no Kia Forum, a única vez em que havia tentado levar Time Stand Still ao palco aconteceu em uma apresentação no Canadá ao lado de Ted Leo. Como não contava com a estrutura instrumental do Rush, precisou simplificar bastante o arranjo. Aimee descreveu a experiência como uma brincadeira e admitiu não saber o quanto aquela versão realmente funcionou.
Cantar com Geddy, Alex e Anika exigiria uma preparação bem diferente. Ao voltar a escutar a faixa com atenção, Aimee percebeu que havia esquecido boa parte de sua complexidade. A familiaridade construída ao longo de décadas de audição escondia entradas incomuns, mudanças delicadas e uma construção distante dos formatos que costuma utilizar em seus próprios trabalhos.
“Eu tinha esquecido completamente que essa música é muito mais complicada do que eu pensava”, confessou. Para não se perder, a cantora desenhou uma espécie de esquema indicando cada momento em que deveria entrar, além de contar cuidadosamente as passagens do arranjo.
O Rush havia ensaiado durante uma semana no próprio Forum, e Aimee participou de uma dessas sessões antes do primeiro show. Eles repetiram a canção algumas vezes, algo que ela encarou com certo humor. Em seus próprios ensaios, costuma ficar rapidamente cansada das composições e prefere não tocá-las muitas vezes seguidas.
Todo esse cuidado fez com que a apresentação ultrapassasse o simples valor da nostalgia. Pela primeira vez, Aimee estava no palco, ocupando fisicamente o espaço que sua voz sempre teve em Time Stand Still. O encontro reunia a jovem cantora que entrou em um estúdio de Toronto e a artista que, quase 40 anos depois, precisou enfrentar a depressão e o medo para interpretar aquela música diante de uma arena.
A letra também passou a ter outro significado com o avanço dos anos. Aimee tinha 26 anos quando participou da gravação. Naquela idade, enxergava a canção como uma reflexão metafísica interessante sobre o tempo, a experiência e a perda gradual da inocência.
Hoje, já na casa dos 60, ela sente a mensagem de maneira muito mais concreta. “O momento é agora, cara. É isso. Está acontecendo”, afirmou. Para a cantora, não se trata mais de uma ideia distante, mas da necessidade urgente de estar presente enquanto a vida acontece.
Essa percepção ajuda a explicar por que o reencontro foi tão comovente. Aimee não estava apenas revisitando uma música antiga ou aparecendo como uma convidada especial. Ela voltava a encontrar duas pessoas de quem havia gostado muito e com quem perdera totalmente o contato.
Segundo ela, sempre existiu certa tristeza na maneira como todos seguiram caminhos separados depois do disco e do videoclipe. A volta ao palco ao lado de Geddy e Alex produziu a sensação de que duas épocas muito distantes haviam se tocado por alguns minutos.
“Reconectar com eles dessa forma foi como ter o tempo dobrado sobre si mesmo”, contou. A frase poderia servir como uma definição perfeita para o que ocorreu durante os quatro concertos em Los Angeles.
Aimee agora considera participar de outras apresentações ao longo da turnê. Como o Rush pretende realizar filmagens em Cleveland, ela acredita que poderá estar nos shows da cidade. Sua agenda cheia talvez dificulte novas aparições, mas a disposição mudou completamente desde aquele primeiro e-mail que permaneceu tanto tempo sem resposta.
No fim, sua presença nos concertos fala sobre muito mais do que nostalgia. É a história de uma artista que quase se escondeu, encarou o medo de ser rejeitada e acabou encontrando apoio justamente diante da plateia que mais a assustava.
Também é uma continuação quase perfeita de Time Stand Still. A canção sempre falou sobre a vontade impossível de segurar um instante antes que ele escape. Em Los Angeles, Aimee Mann e o Rush não conseguiram interromper o relógio, mas fizeram algo talvez ainda mais bonito. Permitiram que passado e presente se encontrassem no mesmo palco e transformassem uma história interrompida em um reencontro que valeu quase quatro décadas de espera.
Respostas de 5
Essa turnê do Rush vai se tornando um marco histórico não apenas pra eles, mas pra todo mundo que em algum momento viveu e vive o Rush!
O que me chamou a atenção quando a vi no palco e na sua saída, foi a simplicidade. Não tem aquela marra de muito artistas em cima do palco.
Muito parecido com Neil, sobre personalidade. Incrível. Realmente o Rush foi cirúrgico nessa escolha.
Texto maravilhoso meus parabéns. Rush, sempre.
Mestre! Vamos juntos!