Último show de Neil Peart com o Rush no Forum em 2015

Finding My Way e o recomeço simbólico do Rush

A volta de Geddy Lee e Alex Lifeson ao palco no Juno Awards não foi apenas uma apresentação surpresa. Ao escolher a música que abriu o primeiro álbum da banda, o Rush voltou ao ponto zero da própria história para começar uma nova travessia.

Quando o Rush apareceu de surpresa no Juno Awards 2026, em Hamilton, no Canadá, muita gente deve ter sentido aquele impacto imediato de ver Geddy Lee e Alex Lifeson novamente no palco. Depois de tantos anos, depois da morte de Neil Peart, depois de tantas entrevistas em que a possibilidade de uma volta parecia distante, havia ali um peso emocional enorme. Mas, passada a surpresa inicial, um detalhe começou a falar mais alto. A banda não escolheu “Tom Sawyer”, “Limelight”, “The Spirit of Radio”, “Subdivisions” ou qualquer outro clássico capaz de provocar uma explosão automática na plateia. O Rush voltou com “Finding My Way”, e essa escolha ajuda a entender o tamanho simbólico desse recomeço.

“Finding My Way” não é apenas uma música do primeiro álbum. É a primeira faixa do primeiro disco, lançado em 1974, quando o Rush ainda era uma banda jovem de Toronto, com muito volume, muita energia e aquela fome de quem ainda estava tentando descobrir o próprio lugar no mundo. Era um Rush anterior à chegada de Neil Peart, ainda com John Rutsey na bateria, muito mais próximo do hard rock direto, da guitarra aberta, do baixo pulsando forte e de uma certa urgência juvenil que fazia a banda soar como quem estava batendo na porta da própria história.

Na autobiografia My Effin’ Life, lançada no Brasil como Geddy Lee: A autobiografia, Geddy lembra o impacto de ouvir “Finding My Way” tocar no rádio pela primeira vez. Para ele, não era apenas uma música sendo executada. Era o sinal de que aquele disco feito por eles tinha atravessado uma fronteira emocional. “Me lembro de escutar ‘Finding My Way’ no rádio pela primeira vez, e foi muito, muito, mas muito emocionante”, lembra.

“Foi quase uma experiência transcendental ouvir o disco que você mesmo fez de repente sair dos mesmos alto-falantes de onde todos os discos de verdade saíam; e não só dos seus alto-falantes, mas de outras pessoas em todo lugar!”, revela Geddy.

Essa lembrança ajuda a explicar por que a escolha da música, tantos anos depois, carrega tanta força. “Finding My Way” não representa apenas o início cronológico da discografia. Representa o instante em que o Rush começou a se perceber como banda de verdade, ocupando o mesmo espaço sonoro dos artistas que eles admiravam. Quando Geddy ouviu aquela faixa no rádio, o sonho deixou de ser apenas ensaio, barulho de garagem e desejo de juventude. Virou mundo. Virou alcance. Virou Rush.

Por isso, a escolha foi tão simbólica. Geddy e Alex poderiam ter voltado pelo caminho mais óbvio. Poderiam ter escolhido uma música consagrada pelo grande público, uma daquelas que atravessaram o rádio, a televisão, os videogames, os filmes e a memória coletiva do rock. Mas preferiram outra rota. Voltaram pelo começo, pela garagem, pela primeira página, pelo lugar onde tudo ainda era promessa.

Esse detalhe tem uma força bonita, porque o Rush não recomeçou tentando provar que ainda consegue tocar as músicas mais complexas do catálogo. Também não voltou tentando encarar, logo de saída, o território mais sagrado da era Neil Peart. A banda fez um movimento mais delicado e, talvez por isso mesmo, mais inteligente. Geddy Lee e Alex Lifeson pareceram dizer ao público que qualquer novo capítulo só poderia nascer de uma volta à origem.

Não era uma tentativa de apagar a ausência de Neil. Isso seria impossível. Também não era uma tentativa de fingir que nada mudou. Mudou tudo. O Rush que sobe ao palco agora não é o mesmo trio que encerrou a história em 2015. É outra formação, outro momento, outra dor, outra responsabilidade. Mas, ao tocar “Finding My Way”, a banda encontrou uma maneira de começar essa conversa sem forçar a barra, sem teatralizar demais e sem transformar a apresentação num teste impossível para Anika Nilles.

A presença de Anika, aliás, torna a escolha ainda mais interessante. Como “Finding My Way” foi gravada originalmente com John Rutsey, ela não carrega aquele peso imediato de comparação com uma parte de bateria escrita e eternizada por Neil. Claro que qualquer música do Rush, tocada hoje por outra baterista, vai passar por esse filtro emocional. O fã escuta e lembra. Não tem como fugir disso. Mas começar por uma canção anterior à entrada de Neil foi uma forma de abrir espaço para Anika respirar. Ela entrou na história sem ser jogada, logo no primeiro minuto, no centro da comparação mais cruel, e esse cuidado diz muito sobre a maneira como Geddy e Alex parecem estar conduzindo essa nova fase.

Anika Nilles não chega ao Rush para substituir Neil Peart. Essa frase precisa ser repetida sempre que o assunto aparece, porque a tentação de comparar é grande. Neil não era apenas o baterista. Era letrista, pensador, viajante, cronista, arquiteto de um universo inteiro. Não existe substituição possível para alguém assim. O que existe é outra coisa. Existe a tentativa de permitir que a música continue viva no palco, sem negar a falta, sem transformar a saudade em prisão e sem tratar a obra como peça de museu.

Mesmo numa música anterior à entrada dele na banda, Neil continuava presente de alguma forma. Estava nas imagens, na memória, no silêncio entre uma nota e outra, no olhar de cada fã que entendeu o tamanho daquele momento. A escolha de uma música da fase John Rutsey não tirou Neil da história. Pelo contrário. Mostrou que o Rush sabe que sua trajetória tem camadas. Antes de Neil, havia uma banda tentando encontrar o próprio caminho. Com Neil, essa banda se transformou em uma das maiores aventuras musicais e intelectuais do rock. Depois de Neil, o que resta não é repetir o passado, mas descobrir se ainda existe uma estrada possível.

Nesse sentido, o título “Finding My Way” parece até escolhido por encomenda para esta fase. Encontrando meu caminho. Poderia haver frase mais adequada para Geddy e Alex agora? Depois de perderem o amigo, depois de encerrarem uma carreira que parecia definitiva, depois de anos dizendo que talvez não houvesse mais Rush, os dois reaparecem justamente com uma música sobre caminho, movimento e procura. Mais do que uma canção de abertura, ela soa como uma pequena confissão.

O Rush sempre foi uma banda em movimento. Começou com a força crua do primeiro disco, mergulhou em viagens longas e progressivas, encarou a ficção científica, a filosofia, a tecnologia, a solidão urbana, a liberdade individual, os sintetizadores dos anos 80, o peso retomado nos anos 90 e 2000, até chegar à grandeza madura de “Clockwork Angels”. Poucas bandas mudaram tanto sem perder a própria identidade. Poucas envelheceram com tanta dignidade. Poucas conseguiram transformar técnica em emoção e complexidade em linguagem afetiva para milhões de fãs.

Uns garotos de Toronto montaram uma banda: “Finding” my Way foi a primeira música

Por isso, voltar com “Finding My Way” não parece uma escolha pequena. Parece uma chave, uma senha, um jeito simples de dizer que este novo capítulo não quer competir com a memória, mas nascer a partir dela. Há também um detalhe quase poético nessa decisão. O Rush, uma banda tantas vezes associada à precisão, à inteligência musical e à construção sofisticada, resolveu recomeçar com uma música direta, quase bruta, sem grandes labirintos progressivos. Diante de um momento tão carregado de significados, Geddy e Alex preferiram não complicar. Em vez de erguer um monumento, acenderam uma luz na velha garagem. Em vez de começar pela lenda, começaram pelo impulso inicial.

Isso conversa muito com o próprio espírito da banda. O Rush nunca foi apenas sobre virtuosismo. Foi sobre descoberta, sobre tentar ir mais longe, sobre não ficar parado, sobre buscar uma voz própria mesmo quando o mercado, a crítica ou parte do público não entendia muito bem o que aqueles três canadenses estavam fazendo. No começo, eles estavam encontrando o caminho. Em 2026, de um jeito completamente diferente, continuam fazendo a mesma coisa.

A turnê “Fifty Something” certamente vai trazer debates enormes. Vai ter discussão sobre setlist, sobre arranjos, sobre a presença de Loren Gold nos teclados, sobre como Anika vai enfrentar as músicas mais ligadas a Neil, sobre o que muda quando o Rush deixa de ser exatamente aquele trio fechado que conhecemos tão bem. E tudo isso é natural. Fã de Rush escuta com o coração, mas também escuta com lupa. A gente presta atenção no detalhe, na virada, no timbre, no andamento, na escolha de cada música.

Antes de todos esses debates, no entanto, houve “Finding My Way”. E talvez seja esse o ponto mais importante. O Rush não voltou dizendo que tudo continua igual. Não voltou pedindo ao fã que esquecesse Neil. Não voltou com pose de quem quer reescrever a própria história. Voltou com uma canção do início, anterior ao mito, anterior ao trio clássico, anterior ao peso quase religioso que a banda ganharia para tanta gente. Voltou ao lugar onde a estrada começou.

Para uma banda que perdeu uma parte insubstituível de si mesma, esse talvez fosse o gesto mais honesto. Começar de novo sem fingir que é o mesmo começo. Tocar uma música antiga com um sentido novo. Olhar para trás sem ficar preso ao passado. Seguir em frente sem desrespeitar a saudade.

No fim das contas, “Finding My Way” não foi apenas a primeira música desse retorno. Foi uma declaração de intenções. O Rush está tentando encontrar o próprio caminho outra vez. E, para quem acompanha essa banda há tanto tempo, com amor, memória e uma certa dose inevitável de emoção, talvez não houvesse recomeço mais verdadeiro do que esse.

Artigos

Respostas de 4

  1. Parabéns João.
    Vc apalavrou tudo o que pensei e senti sobre a apresentação. Eu pensei: ” É uma volta ao inicio. Uma homenagem ao alicerce. “

  2. Cara, pra mim foi a escolha perfeita. Uma carga de simbolismo por todos os lados! “Encontrando meu caminho”. E encontraram!
    Rush on!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Mais Artigos

Explore nossas análises mais recentes sobre o Rush. De interpretações profundas de letras a histórias dos bastidores, nossos artigos trazem um olhar único sobre a banda que revolucionou o rock progressivo. Mergulhe em reflexões sobre clássicos atemporais e descubra curiosidades que apenas verdadeiros fãs apreciarão.