Alex Lifeson: “Nunca fomos do tipo ‘I love you, baby’”

Numa entrevista empolgante, Alex revisitou a carreira e falou do futuro; “Toda vez que a gente tocava, repetia as mesmas músicas várias vezes. Mas era empolgante simplesmente estar numa sala com uma guitarra e um amplificador vagabundo.”

Para quem respira Rush, qualquer palavra dita por um dos integrantes da banda vira acontecimento. E foi exatamente isso que aconteceu na recente participação de Alex Lifeson no podcast Q with Tom Power. Em uma conversa leve, nostálgica e cheia de memória afetiva, o guitarrista canadense relembrou os primeiros passos da carreira, refletiu sobre o fim da banda, revelou bastidores emocionantes e explicou por que o Rush nunca foi uma banda “para ouvintes casuais”.

Logo no início da entrevista, Lifeson tocou num ponto que todo fã veterano reconhece: a relação de devoção absoluta entre o Rush e seu público. Segundo ele, nos anos 1970 não era comum ver bandas com uma base de fãs tão engajada. “Naquela época, não era comum haver fãs tão intensos. O Grateful Dead talvez tivesse gente que os seguia, o Yes tinha seus fiéis, mas isso ainda era exceção. E o curioso sobre o Rush é que quase não havia ouvintes casuais. Quem gostava, gostava de verdade”, contou, com uma mistura de orgulho e surpresa.

Alex bateu um papo muito legal com Tom Power durante o programa

Para Lifeson, esse tipo de vínculo tem relação direta com o tipo de música que a banda fazia. “A gente nunca foi uma banda do tipo ‘I love you, baby’. Nosso som era mais complexo, mais denso. Isso atraiu um público diferente — não necessariamente intelectual, mas que buscava mais substância na experiência musical.”

Com franqueza, ele explica que o trio sempre teve uma postura muito clara sobre o próprio processo criativo: “Sempre escrevemos para nós mesmos primeiro. E isso, de certa forma, atraiu pessoas que queriam mais do que apenas entretenimento. Criamos esse vínculo logo cedo. E com álbuns como 2112 e Moving Pictures, a coisa ficou ainda mais forte.”

Início- Durante o papo, Alex também revisitou os primórdios de sua paixão por música. A lembrança é viva: ele tinha apenas 13 ou 14 anos quando decidiu que queria ser guitarrista. “Amava música, e amava a ideia de ser guitarrista. Isso me parecia tão legal, como a maioria dos garotos dessa idade que querem estar em uma banda.” Foi com essa motivação que surgiram as primeiras formações, os ensaios em porões e as pequenas apresentações para amigos e familiares.

Ele conta que uma de suas primeiras bandas chamava-se The Projection, formada por ele, John Rutsey e mais alguns colegas. “Nossos shows se limitavam a quem estivesse dando uma festa no porão. A gente conhecia, sei lá, meia dúzia de músicas — covers de Yardbirds, House of the Rising Sun, esse tipo de coisa. Toda vez que a gente tocava, repetia as mesmas músicas várias vezes. Mas era empolgante simplesmente estar numa sala com uma guitarra e um amplificador vagabundo.” A música, para Alex, sempre foi mais do que uma ambição — era uma alegria genuína.

Com o tempo, a vontade de criar algo mais sério cresceu. “John e eu já tínhamos feito muitas coisas juntos, e eu disse: ‘Vamos começar essa banda.’” Assim surgia a semente do Rush. A primeira formação ainda não contava com Geddy Lee, mas sim com o baixista Jeff Jones. “Estávamos fazendo uns jams casuais e conseguimos um show num centro de convivência da Igreja Anglicana St. Theodore, em Willowdale, chamado The Coffin. Tocamos umas doze músicas e repetimos várias vezes. O público gostou tanto que pediram pra gente voltar.” Mas logo depois, Jeff não pôde participar de um show, e o destino tratou de rearranjar tudo.

“Liguei pro Ged. A gente estudava junto, fazíamos jam… Eu sempre pedia pra ele me emprestar o amplificador dele, mas dessa vez pedi pra emprestar ele mesmo pro show. E ele foi.” Geddy Lee entrou em cena — e ali começou a formação clássica do Rush. A banda tocou músicas de Hendrix, Cream e ganhou 10 dólares. Depois do show, comemoraram no Panzer’s, com batata frita e refrigerante. E foi ali, entre mordidas e risadas, que os planos para dominar o mundo começaram a se formar. “A gente dizia: ‘Em que posição será que estamos na hierarquia das bandas do mundo? Será que somos a 10.987ª melhor banda do mundo?’”

Fim do Rush- O assunto então caminhou para um dos momentos mais delicados da trajetória do Rush: o fim da banda, marcado pela decisão de Neil Peart de se afastar após a última turnê. “Quando acabou (a turnê), o Neil foi categórico: ele estava fora”, revelou Alex. “Houve um momento em que ele pensou que talvez pudéssemos esticar um pouco mais, mas aí ele teve um problema nos pés — e decidiu parar. O Geddy e eu ficamos desapontados. Sentíamos que ainda tínhamos muita energia no tanque.”

Lifeson destacou o caráter especial da turnê final, que teve um forte componente de retrospectiva. “Foi ótimo porque teve esse aspecto de viagem no tempo, do final da carreira até o começo, quando os amplificadores ficavam sobre dois banquinhos no palco de um ginásio. Poderíamos ter feito aquela turnê por mais 20 ou 30 shows, pelo menos.

Queríamos muito ir à Europa. Tínhamos muitos fãs lá, especialmente no Reino Unido, e nunca conseguimos ir. Para ser honesto, ficamos talvez até um pouco amargurados por ter terminado daquela forma. Mas o que poderíamos fazer? O Neil fez isso por 40 anos. Ele, sem dúvida, tinha o trabalho mais pesado da banda, e sentia que, se não pudesse tocar com 100% de sua capacidade, então era hora de parar.”

Vida pessoal- Perguntado sobre a vida fora da estrada, Lifeson revelou uma adaptação mais serena do que muitos imaginariam. “Naquele momento da minha vida, não foi difícil estar em casa. Eu tinha dois netos. Isso significava que eu podia passar mais tempo com eles, e eles estavam crescendo. Foi quase como uma forma de compensar o tempo que não tive com meus filhos, já que estávamos sempre viajando.”

Mas a perda de Neil Peart, em 2020, teve um impacto profundo e duradouro. “Quando o Neil perdeu a filha em 1997, eu fiquei um ano inteiro sem tocar guitarra. Eu estava completamente sem vontade de aproveitar a beleza e o amor pela música. E quando ele faleceu, aconteceu a mesma coisa. Eu não queria tocar, não era mais a mesma coisa.” Ele compartilhou que tem uma forma pessoal de lidar com a dor: “Tenho uma coisa comigo: eu luto com o luto por um ano e tento seguir em frente depois disso, me reorganizar. Foi isso que fiz com o Envy of None depois que ele partiu.”

Assista aqui ao programa completo

Entre lembranças, risadas e reflexões, a entrevista de Alex Lifeson reafirma algo que os fãs do Rush sempre souberam: o vínculo entre banda e público é tão poderoso quanto a música. A devoção dos fãs não surgiu por acaso — foi construída com autenticidade, criatividade, e um respeito mútuo raro no mundo do rock. E mesmo com novos projetos, Lifeson continua a alimentar essa chama que mantém viva a história do Rush; uma história que, mesmo após o fim da banda, segue ressoando nas mentes e corações de milhões ao redor do mundo.

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