Neil Peart no Japão durante a turnê de Grace Under Pressure, em 1984

Neil Peart no Japão e a noite em que se recusou a olhar para o outro lado

Em 1984, durante a turnê de Grace Under Pressure, Neil Peart confrontou um homem que agredia uma mulher em um hotel de Osaka.

“Ei, pessoal! Neil está discutindo com um cara!”

O aviso pegou todos de surpresa. Poucos minutos antes, durante a primeira passagem de Neil Peart no Japão, o baterista estava no bar do hotel com Geddy Lee, Alex Lifeson e outros membros da equipe do Rush. O clima era leve, as bebidas estavam na mesa e a banda aproveitava uma noite de folga em Osaka. Neil saiu para ir ao banheiro, demorou a voltar e, de repente, alguém apareceu dizendo que ele havia se metido em uma briga no saguão.

Neil Peart no Japão durante a turnê de Grace Under Pressure, em 1984
Ingresso do show no Japão, em 1984: Grace Under Pressure Tour

Geddy, Alex e os outros correram para ver o que estava acontecendo. Encontraram Neil discutindo com um homem baixo, forte e de cara fechada. Ao lado dele, havia uma mulher. Não se tratava apenas de uma discussão entre o casal, com troca de gritos e acusações. O homem estava batendo nela.

O caso aconteceu em 1984, durante a primeira passagem do Rush pelo Japão, na turnê de Grace Under Pressure. A banda faria apenas quatro shows no país: Nagoya, Fukuoka, Osaka e Tóquio, onde a viagem terminaria no famoso Budokan. Para os músicos, quase tudo era novidade. Eles não falavam japonês, dependiam de tradutores e ainda tentavam se acostumar com os costumes locais.

Neil Peart no Japão e a confusão no hotel de Osaka

Antes do show em Osaka, o grupo ganhou um dia de folga. O produtor local, conhecido como Sr. Udo, levou os músicos e parte da equipe a um sentō, uma tradicional casa de banhos japonesa. No começo, a experiência pareceu estranha, mas logo virou motivo de brincadeira. De volta ao hotel, todos foram para o bar e continuaram a noite entre conversas e alguns drinques.

Foi nesse clima que Neil saiu por alguns minutos e acabou encontrando a mulher sendo agredida. O que mais o revoltou foi perceber que funcionários da recepção e seguranças passavam pelo local sem fazer nada. O homem batia nela na frente de todos, mas ninguém parecia disposto a pará-lo.

Neil também poderia ter seguido em frente. Estava longe de casa, não falava a língua e não sabia quem era aquele homem. Seria fácil pensar que o problema não era dele. Só que fingir que não tinha visto não parecia uma opção. Ele foi até o agressor e mandou que parasse.

O homem respondeu aos gritos em japonês. Neil não entendeu as palavras, mas, pelo tom, ficou claro que estava sendo mandado embora e que deveria cuidar da própria vida. Mesmo assim, não recuou. A discussão esquentou, e os dois começaram a empurrar um ao outro.

Quando Alex chegou e percebeu o que estava acontecendo, entrou no meio da confusão e ficou ao lado do amigo. O guitarrista também começou a gritar para que o homem deixasse a mulher em paz. Geddy e os membros da equipe se juntaram aos dois. A reação que começou com Neil logo virou um protesto de todo o grupo.

A atitude dos funcionários deixou os músicos ainda mais irritados. Em vez de afastarem o homem da mulher, eles começaram a empurrar os integrantes do Rush para fora do saguão. Pelo pouco que a banda conseguiu entender, a explicação era que aquilo seria um problema entre marido e mulher. Em outras palavras, ninguém deveria se meter.

Para Neil e os outros, isso não fazia o menor sentido. Uma mulher estava apanhando na frente de várias pessoas. A relação entre ela e o agressor não tornava a violência menos grave, muito menos aceitável.

Mesmo enquanto eram levados até o elevador, os músicos continuaram gritando para que o homem parasse. Foi nesse momento que a cena ficou ainda pior. Enquanto as portas começavam a se fechar, eles viram o agressor dar um soco no estômago da mulher. Ela caiu no chão, e o elevador levou o grupo para os andares de cima, sem que conseguissem fazer mais nada.

Neil, Alex, Geddy e os outros voltaram aos quartos com raiva, assustados e sem entender por que a segurança havia agido daquela forma. O agressor continuou livre para atacar a mulher, enquanto aqueles que tentavam ajudá-la foram tratados como o problema.

Até aquela noite, a viagem ao Japão vinha sendo marcada pela curiosidade. A banda estava conhecendo um lugar muito diferente, com novos costumes, comidas, cidades e plateias. Tudo parecia interessante e até divertido. A cena no hotel acabou com esse clima.

Não foi apenas o ataque que deixou os músicos abalados. O silêncio das pessoas ao redor também pesou. Funcionários e seguranças haviam visto o que estava acontecendo, mas ninguém tomou uma atitude. Para o Rush, era difícil aceitar que uma agressão tão clara pudesse ser tratada como um assunto particular.

O encanto acabou ali

No dia seguinte, o tradutor da banda ofereceu uma possível explicação. Segundo ele, as muitas tatuagens do homem poderiam indicar, naquele contexto e especialmente em Osaka, uma ligação com a Yakuza. Caso realmente fizesse parte da organização criminosa, quase ninguém teria coragem de enfrentá-lo.

Rush no Japão durante a turnê de Grace Under Pressure, em 1984
Imagem da Grace Under Pressure Tour, 1984

A informação ajudava a explicar o medo dos funcionários, mas não fazia a raiva passar. O Rush ainda tentou cobrar uma resposta do hotel. Os músicos queriam saber por que ninguém havia protegido a mulher e por que a segurança preferiu tirar a banda do local. Não receberam uma explicação clara. O assunto causava desconforto, e as perguntas foram recebidas com silêncio.

Ao contar essa história em sua autobiografia, Geddy Lee reconhece que eles eram estrangeiros em uma visita curta ao Japão. Não conheciam bem o país, suas regras ou o peso que certas pessoas tinham naquele ambiente. Mesmo assim, havia algo naquela cena que não precisava de tradução.

“Não havia justificativa para o que presenciamos.”

A frase resume o sentimento da banda. A possibilidade de uma ligação com a Yakuza podia ajudar a explicar o medo dos funcionários, mas não tornava a agressão aceitável. Dizer que aquilo era um problema de casal também não servia como desculpa. Uma mulher havia sido espancada na frente de todos, e quase ninguém tentou ajudá-la.

A atitude de Neil naquela noite mostra um lado importante de sua personalidade. Ele era conhecido por ser reservado, fugir da fama e proteger ao máximo a vida pessoal. Mas ser discreto nunca significou não se importar com os outros. Diante de uma injustiça bem na sua frente, sua reação foi imediata.

Neil não sabia que o homem poderia ter alguma ligação com a Yakuza. Não sabia como a segurança reagiria nem se alguém apareceria para ajudá-lo. Pelo relato, também não parecia estar tentando bancar o herói ou criar uma boa história para contar no futuro. Sua reação foi muito mais simples. Ele viu uma mulher sendo atacada e não conseguiu passar direto.

Alex também teve um papel importante. Quando a situação já havia virado uma troca de empurrões, o guitarrista entrou na briga e ficou ao lado do amigo. Geddy e os outros membros da equipe reforçaram os protestos. Mesmo assim, foi Neil quem viu primeiro o que estava acontecendo, foi até o agressor e tentou parar aquilo.

Segundo o relato de Geddy, também foi Neil quem mais sentiu o peso daquela noite. A imagem da mulher caindo no chão ficou marcada em sua memória, assim como a frustração de não ter conseguido impedir o ataque. Ele estava em outro país, não falava japonês e poderia ter seguido o caminho, como quase todos ao redor pareciam fazer.

Mas escolheu não olhar para o outro lado.

A turnê continuou. O Rush tocou em Osaka e depois encerrou a viagem no Budokan, em Tóquio. Para Neil, porém, o Japão já não seria lembrado apenas pelos shows, pelos passeios ou pelas descobertas daquela primeira visita.

“Para nós, pelo menos, o encanto acabou ali”, contou Geddy.

Segundo Geddy, Neil ficou tão abalado com o que viu que jurou nunca mais voltar ao Japão.

E nunca voltou.

 

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Respostas de 4

  1. Máfia diz ter honra, mas nunca praticam com mulheres. Japão e outros países conservadores sempre agem dessa forma esdrúxula e injustificada.

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