O primeiro baixista do Rush

Foi Jeff Jones quem moldou os primeiros passos do Rush ; sua carreira continua e ele é reconhecido mundialmente como grande músico

A história do Rush é rica em detalhes e reviravoltas, e começa muito antes de Geddy Lee se tornar um ícone. Um capítulo fundamental, e muitas vezes negligenciado, é a história de seu primeiro baixista: Jeff Jones. Sua trajetória, embora breve, moldou os primeiros passos da banda e merece ser contada.

Jeff Jones não era canadense de nascimento, um detalhe que o distinguia dos futuros membros do Rush. “Meu pai era músico de jazz”, contou Jones numa entrevista para a revista britânica Classic Rock. O pai dele era o pianista de jazz Claude Jones. “A música sempre esteve próximo desde muito cedo. Comecei com a flauta e depois o piano. O baixo veio depois”, relembrou. “Lembro de que Oscar Peterson (pianista canadense, um dos grandes nomes do jazz) costumava vir jantar em nossa casa aos domingos, quando morávamos em Chicago. E fomos parar em Toronto porque meu pai trabalhava muito com Oscar e vivam viajando para se apresentar no Canadá”.

Em Toronto, o destino uniu Jeff a Alex Lifeson, naquela época um guitarrista promissor com ambições musicais que se alinhavam as dele. “Jeff Jones era uma cara que eu conhecia. Era baixista e depois foi tocar com a (banda) Red Rider. Eu toquei com ele algumas vezes porque tínhamos amigos em comum”, lembrou Alex Lifeson, num depoimento para o jornalista Martin Popoff.

“É engraçado porque o baixo não estava no meu radar inicialmente”, explica Jones. “É claro, meu pai conhecia muitas pessoas que tocavam baixo, e eles estavam por perto, então eu estava ali, sempre acompanhando tudo”, relatou. A parceria entre Jones e Lifeson cresceu, e o baixista lembra as primeiras vezes que se juntou a Alex. “Acho que a primeira vez que tocamos juntos como algo mais do que apenas brincar foi na sala da casa de Alex”, disse Jones. “Alex já tinha estado em algumas bandas locais antes, então ele não era estranho a jams”.

Jeff Jones num registro dos anos 70

Muitos colegas se juntavam nesses encontros, com os mais diferentes instrumentos. “Um deles tinha uma pandeirola e Alex disse que sabia tocar um pouco de guitarra e que eu sabia tocar um pouco de baixo”, contou. O cara com a pandeirola era mais um dos colegas de Alex: John Rutse. Ele já se conheciam John de outra banda e foi assim que os três se juntaram pela primeira vez.

“Lembro que naquele dia tocamos “You’ve Got to Hide Your Love Away” , dos Beatles. E depois disso, mantivemos contato. Não tenho certeza de quem pediu para John se juntar – provavelmente Alex – e não consigo lembrar quem batizou a banda de Rush”. A história do Rush relata que foi o irmão mais velho de Rutsey quem batizou a banda. “Éramos tão jovens, e isso significava que tudo era feito de improviso e fluido.”

Geddy também lembra dessa época. “Alex e seu amigo John Rutsey fizeram parte primeiro de uma banda chamada The Projection e, depois, formaram um trio com um vocalista e baixista chamado Jeff Jones”, descreveu em seu livros.

Foi assim que o Rush deu seus primeiros passos.

“Tocamos muito Cream e velhos clássicos de blues. Lá estávamos, nos apresentando em festas de ensino médio no fim de semana. Éramos um contraste gritante com a outra banda principal da nossa escola, que era uma banda de R&B, mas sentimos que ser um trio como o Cream era o caminho a seguir. A coisa mais engraçada que me lembro é de sermos expulsos de uma competição de batalha de bandas chamada Canadian National Exhibition. Quebramos a única regra: tocamos acima do volume permitido. Se não tivéssemos sido expulsos, teríamos vencido aquela competição”, confessou.

Mas essa formação original do Rush, como bem sabemos, não iria adiante. No verão de 1968, Jones começou a enfrentar dificuldades para conciliar seus compromissos pessoais com a agenda do trio. “É muito engraçado quando vejo histórias sobre Alex e eu não nos dando bem”, brocou Jones. “Nunca tivemos um problema. Nós éramos crianças, tocávamos em festas e ensaiávamos todos os sábados no porão da mãe de Alex. Ela era como a mãe original da banda, era fantástica.

Nessa conversa, Jeff desmente também uma versão de um suposto sumiço e de ter deixado os caras na mão. “Sei da história: eu não apareci em um show (de batalha de bandas) porque eu queria ir a uma festa e fui expulso da banda por Alex Lifeson. Tenho certeza que todos já ouviram isso, e é praticamente assim que sou lembrado na história do Rush. Mas não é verdade”, relatou.

“A verdade é que tocamos na batalha das bandas e eu estava lá. Tocamos alguns shows no Community Center, um monte de shows em porões e tocamos em cafés locais. Eu sempre estive lá”.

Por incrível que pareça, foi a distância para os ensaios que teria provocado a saída dele do Rush. De acordo com Jeff Jones, em um determinada época, tinha que pegar um longo ônibus para chegar à casa de Alex, o que levava horas de ida e volta.

“Eu apenas disse: ‘Ei, esse cara Geddy que você está saindo toca baixo e ele mora bem perto. Por que você não pede para ele se juntar?’ E eu acho que Alex entendeu esse fato como um pedido de saída, e foi assim. De repente, no show seguinte, Geddy já estava no Rush. Nunca houve nenhuma conversa formal além disso; nós apenas nos afastamos.”
Já Alex relata o que poderia ter acontecido. “Ele não era nosso amigo, era mais um conhecido que fazia jams com a gente. Jeff disse: ‘Olha, eu tenho outra banda e não posso tocar com vocês’.” Alex conta que tudo isso aconteceu em setembro de 1968.

Passados mais de cinquenta anos, Jeff Jones relembra com carinho e bom humor seus primeiros passos na música e seu papel na formação do Rush. “Éramos tão jovens. E se eu tivesse ficado, não teríamos soado como o Rush soava com Geddy”, admite. É uma pena que não existe um registro de imagem deles juntos.

Assim que saiu do Rush, Jeff Jones entrou para outra banda, a Ocean. “Aos 17 anos, fiz uma turnê mundial e tive um grande sucesso com ‘Put Your Hand in the Hand’. Mas aprendi desde cedo como as gravadoras podem te ferrar. Aos 21 anos, me senti acabado”, relatou. A Ocean chegou a ganhar disco de platina por conta dessa música.

Assista a uma apresentação da Ocean, com Jeff Jones no baixo e dividindo os vocais em ‘Put Your Hand in the Hand’

Logo depois dessa turnê, o baixista entrou para outra banda. “Fui para o Red Rider, e as coisas estavam indo bem para mim de novo. As pessoas me perguntam se Alex e eu continuamos amigos, e não, não continuamos”, admite Jones. “Mas não houve problemas maiores, eu apenas saí da cidade”, explicou. “Eu estava em turnê e fazendo shows enquanto eles ainda estavam tocando no ensino médio, e nós perdemos contato. Honestamente, eu não vi Alex novamente até por volta de 1983, depois que eu estava voltando com o Red Rider, e o Rush já era enorme”, descreveu.

Jeff lembra que foi Neil quem pediu para eles abrirem um show do Rush. “Neil Peart nos pediu para abrir para eles porque eles estavam fazendo uma série de shows em Toronto, Quebec e Buffalo, e Neil achou que seria legal nos ter lá. Durante 12 shows, eu finalmente tive a chance de ver o Alex de novo e de conhecê-lo novamente. E mais interessante ainda, finalmente tive a chance de conhecer o Geddy e o Neil. Porque o Rush era uma banda diferente do que era 15 anos antes, quando éramos crianças, foi um momento de círculo completo, e não havia constrangimento. Nunca houve.”

Jeff depois de um show em Dartmouth, Canadá, em 2023

Após sua saída do Rush, Jeff Jones trilhou um caminho próprio e bem-sucedido na música. O primeiro baixista do Rush pode não ter permanecido na banda que o projetou para o estrelato, mas sua história merece ser contada e celebrada como parte fundamental do rico mosaico do rock canadense. Desde 2003, Jeff faz turnês regularmente com Tom Cochrane e Red Rider (com quem ganhou discos de outro e platina nos anos 70), Burton Cummings. Além disso toca regularmente com suas bandas Carpet Frogs e Jones-Finn.

Assista aqui um pouco do trabalho solo de Jeff Jones

Sua história é um testemunho de que o sucesso pode tomar diversas formas. Se pensarmos bem, foi ele quem ajudou a dar o primeiro passo na longa e vitoriosa jornada de uma das maiores bandas de rock de todos os tempos.

*N.do E.: A foto em destaque nessa matéria é da Roar PR.

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