Antes do primeiro disco, o Rush já tinha um líder: John Rutsey; na nova edição da revista Prog, uma das mais importantes do mundo, os bastidores do documentário Beyond The Lighted Stage
Em uma reportagem especial da prestigiada revista britânica Prog, os cineastas Sam Dunn e Scot McFadyen, responsáveis pelo documentário Rush: Beyond The Lighted Stage, voltam à origem da mais emblemática banda canadense de rock progressivo para resgatar um nome essencial e muitas vezes esquecido: John Rutsey.

Mais do que um baterista que tocou “apenas” no primeiro disco, Rutsey foi a engrenagem inicial de um projeto que ainda nem tinha a grandiosidade em vista, mas já contava com paixão, esforço e identidade. E o documentário, assim como a matéria publicada pela Prog, faz justiça à sua importância no nascimento do Rush. O RushBrasil.com já fez um material especial sobre John Rutsey e a formação do Rush.
A Prog, lançada em março de 2009 como um spin-off da Classic Rock, tornou-se uma das publicações mais respeitadas do mundo quando o assunto é rock progressivo, seja no lado clássica ou nas propostas mais contemporâneas. A entrevista com os diretores canadenses revela bastidores do documentário e, sobretudo, lança luz sobre os anos iniciais da banda, aqueles que antecederam o disco de estreia, quando Rutsey era mais que o baterista, era considerado o líder.

“As pessoas se concentram no fato de que ele só tocou no primeiro disco. Mas houve seis anos antes disso em que ele foi o líder da banda”, afirma Sam Dunn à Prog. “Ele era, de fato, o gestor informal do grupo, agendava shows, empurrava a banda pra frente. Em essência, o Rush começou sob sua liderança.”
Mais do que um nome nas notas do álbum de estreia da banda, a história de Rutsey remete a antes mesmo da fundação oficial do Rush, quando ele era apenas mais um adolescente da vizinhança de Toronto, onde morava um certo Alex Lifeson. Foi nessa paisagem suburbana, no fim da década de 1960, que nasceu uma amizade movida a discos, pedais e peles de bateria.
Como o próprio Lifeson descreve no livro Rush: Através das Décadas, de Martin Popoff, eles se conheceram quando eram “apenas garotos, unidos pela paixão por música e esportes”.
“Costumávamos nos divertir muito, nos apaixonamos por música na mesma época, e ele meio que vivia grudado na bateria, assim como eu não desgrudava da guitarra”, relembra Alex.
A formação do Rush viria em 1968, ainda como uma ideia embrionária, reunindo Rutsey, Lifeson Jeff Jones, o primeiro baixista. Geddy Lee só se juntaria oficialmente à banda em 1969. Mas foi Rutsey quem deu o tom dos primeiros anos, marcados por shows em escolas, clubes de bairro e salões comunitários. Era ele quem ditava os ensaios, cobrava disciplina e ajudava a formatar o som inicial, ainda com forte influência do blues britânico e do hard rock.
Os diretores contam que, durante a produção do documentário, foram até a casa de Geddy Lee em busca de imagens e arquivos da juventude da banda. Na primeira visita, muito do material já havia sido visto. Mas na segunda, Geddy trouxe do sótão uma caixa esquecida, com fotos inéditas dos tempos de escola e memorabilia dos primeiros shows com Rutsey.
Foi ali que a narrativa se completou. “Agora temos o material”, pensou Dunn na hora. “Aquelas fotos com Rutsey tocando em ginásios escolares eram a peça que faltava para contarmos a história com justiça.”
Lado humano- A reportagem da revista reforça ainda a abordagem humana do filme. Não se trata apenas de exaltar a musicalidade e os feitos grandiosos da banda, mas de mostrar suas origens, dores, laços e perdas, trell como a saída precoce de Rutsey, por problemas de saúde, e sua morte em 2008. Assim como os traumas vividos por Neil Peart, esses momentos são retratados com respeito e sensibilidade.

“Queríamos mostrar os caras como pessoas, não apenas como megaestrelas do rock”, diz Dunn. “O Rush é feito de três músicos extraordinários, mas também de três amigos humildes, trabalhadores e com forte ética de equipe.”
Segundo Scot McFadyen, o segredo da longevidade do grupo está justamente na forma como sempre dividiram espaço e méritos. “A amizade deles é palpável. Eles se apoiam no palco e fora dele. Muitos grupos acabam por causa de ego. O Rush funcionou porque três indivíduos se respeitavam. Isso vale para o Neil, claro, mas começa com John.”
Rush: Beyond The Lighted Stage estreou em 2010 no Festival de Tribeca e ganhou o prêmio de melhor filme pelo voto popular. O reconhecimento veio não só da base fiel de fãs, mas de um público mais amplo que descobriu no trio canadense uma história de resistência, evolução e irmandade.
Ao recuperar o papel de Rutsey com destaque, a matéria da Prog e o documentário ressignificam um capítulo que muitos relegavam a rodapé. John não foi um coadjuvante. Ele foi a centelha.
E como toda boa centelha, ajudou a acender um fogo que nunca mais se apagou.