Um novo vídeo raro apareceu entre fãs do Rush e mostra o Professor falando com alegria sobre motociclismo, turnês, estradas brasileiras e a busca por uma vida mais livre fora dos palcos.
Há vídeos raros que valem menos pela imagem e mais pelo que deixam escapar. E um novo vídeo raro de Neil Peart apareceu entre os fãs do Rush justamente com esse sabor de pequena descoberta. Não é sempre que nosso filósofo preferido surge falando com leveza, quase com prazer juvenil, sobre algo que não seja diretamente a música. E é exatamente isso que torna esse registro tão especial. Compartilhado em um grupo de fãs por Márcio Vasques, criador da comunidade @rushtributebands no Instagram, o material foi postado no perfil Rush Fans Flix e mostra o baterista falando sobre motociclismo, viagens, turnês e aquela necessidade muito dele de encontrar vida real no meio da engrenagem gigantesca do Rush.
Não é um registro sobre bateria. Não é uma aula sobre técnica. Também não é o Professor explicando como construiu uma virada impossível ou como pensou uma letra cheia de camadas filosóficas. O encanto está em outro lugar. Peart fala da estrada, das motos, dos dias livres entre um show e outro, das cidades pequenas, dos caminhos secundários e da alegria quase secreta de poder circular pelo mundo como um homem comum.
Para quem acompanha a história do Rush, a cena tem um sabor ainda mais especial porque mostra o ídolo em uma fase em que a motocicleta já não era apenas um hobby para preencher folgas. Era uma forma de liberdade. Uma maneira de respirar fora da rotina pesada das turnês. E, depois de tudo que ele enfrentou na vida pessoal, também um modo de continuar em movimento.
No vídeo, o Neil conta que, nos anos 90, começou a se interessar cada vez mais por motocicletas. Fez viagens de aventura pelo Ártico canadense, desceu até o México e, em algum momento, começou a se perguntar se aquilo também poderia funcionar dentro da vida profissional. “Comecei a pensar: será que isso funcionaria também nas viagens de trabalho?”, lembra.
A ideia era simples, mas tinha tudo a ver com sua personalidade prática, inquieta e disciplinada. Ele poderia ter um ônibus, dormir nele, levar as motos em um reboque e, nos dias de folga entre uma apresentação e outra, sair pilotando até a próxima cidade. Depois, bastava aparecer para o show. Para muita gente, isso pareceria cansativo demais. Para o Professor, era exatamente o contrário. Era a chance de transformar o tempo morto da estrada em experiência, descoberta e vida real. Como ele mesmo explica, “se eu tivesse um ônibus, poderia dormir nele, deixar as motos no reboque e sair para pilotar nos dias de folga entre os shows. Depois, era só aparecer para o próximo show”.
A rotina começou a ser testada ainda nos anos 90, especialmente no período da turnê de Test for Echo, em 1996 e 1997. Mas ganhou outra camada de sentido na volta do Rush com Vapor Trails, em 2002, depois do período mais doloroso da vida do músico canadense e do hiato que deixou o futuro da banda em suspenso. A moto, nesse contexto, não era apenas lazer. Era também retomada. Era movimento. Era uma forma de reencontrar o mundo sem precisar se entregar completamente ao peso da máquina de uma grande turnê.
O próprio Peart resume essa descoberta com entusiasmo ao dizer que eles testaram o esquema naquela turnê e que não apenas funcionou, “como foi maravilhoso pela liberdade de explorar” que ele passou a ter de repente. A palavra liberdade talvez seja a chave de tudo. O letrista do Rush nunca pareceu muito confortável com a ideia de celebridade. Amava tocar, estudava obsessivamente, se dedicava com um rigor quase absurdo à banda, mas não parecia desejar a parte mais barulhenta da fama. A motocicleta oferecia outra coisa. Oferecia anonimato, risco, vento, estrada, improviso e a possibilidade de sair do roteiro.
Aparece, então, um trecho especialmente precioso para os fãs brasileiros. O autor de Ghost Rider lembra que, no sul do Brasil, ele e seu parceiro de viagem se perderam completamente. A frase aparece como quem conta uma aventura, não um problema. “No sul do Brasil, nós nos perdemos completamente”, diz, antes de completar que “ninguém falava inglês por centenas de quilômetros”.
Para qualquer outro artista em turnê, isso poderia soar como desespero. Para o mestre, parecia fazer parte do encanto. O Rush veio ao Brasil pela primeira vez em novembro de 2002, durante a Vapor Trails Tour, com shows em Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro. Enquanto os fãs brasileiros viviam aquele momento histórico diante do palco, o baterista também experimentava outro Brasil, longe das arenas, longe da estrutura do show, longe da multidão.
Era o Brasil das estradas secundárias, dos postos de gasolina, das pequenas cidades, da barreira do idioma e da sensação de estar, de alguma forma, fora do mapa. E isso combinava profundamente com ele. Afinal, como o próprio viajante explica, quando pegava a estrada, escolhia “as estradas menores possíveis”.
Essa frase diz muito. O Professor não queria apenas se deslocar de uma cidade para outra. Queria atravessar o caminho. Queria ver o que existia entre um compromisso e outro. Queria escapar da versão mais óbvia da viagem. Para ele, a estrada principal parecia menos interessante do que a pequena rota perdida no interior, onde nada estava garantido e tudo podia acontecer.
Em seguida, o ídolo solta uma observação com aquele humor seco, meio discreto, que os fãs conhecem bem. Ele diz que músicos até podem posar com motocicletas, mas não conhece mais ninguém que faça turnê daquele jeito. A diferença está aí. A moto, para Peart, não era pose. Não era cenário para foto. Não era fantasia de rockstar. Era método. Era disciplina. Era um jeito de viver a turnê sem ser engolido por ela.
Enquanto muitos músicos atravessavam o mundo entre camarins, hotéis e aeroportos, o baterista tentava encontrar uma fresta de vida entre uma data e outra. Ele mesmo conta que escolhia “as estradas menores, as cidadezinhas menores” e tentava ficar nesses lugares pequenos. As grandes cidades, segundo ele, eram basicamente para tocar.
A ideia poderia estar em um de seus livros. Ela mostra o Peart observador, escritor e viajante, interessado no detalhe que quase ninguém vê. O palco estava nas grandes cidades. Mas a vida, muitas vezes, estava antes da chegada. Estava no caminho. Estava naquele restaurante simples, naquela conversa rápida, naquele posto de beira de estrada, naquela paisagem que não fazia parte do roteiro oficial.
O músico também sabia que esse tipo de liberdade cobrava seu preço. Para viajar dessa maneira, era preciso aceitar o imprevisto. Chuva, frio, calor, problemas mecânicos, trânsito, atrasos, cansaço, idioma. Nada disso era detalhe. Tudo fazia parte da experiência. “Para ser um bom viajante, você precisa estar pronto para se adaptar a qualquer coisa”, explica, citando clima, pane mecânica, horário apertado e trânsito. E completa que o trânsito, por exemplo, já mudou seus planos muitas vezes.
Legal é que ele não fala disso como quem reclama. Fala como quem entende que viajar de verdade envolve perder o controle de vez em quando. A estrada, para nosso filósofo preferido, não era uma bolha protegida. Era justamente o contrário. Era o lugar onde o inesperado ainda podia entrar.
Passando desapercebido- Outro momento muito revelador aparece quando Peart fala sobre não ser reconhecido. Ele conta que muitas vezes estava em algum lugar e via alguém usando uma camiseta do Rush. A pessoa simplesmente não percebia que o baterista da banda estava ali, ao lado. “As pessoas não esperam me ver”, comenta. Para ele, era natural que alguém não o notasse, porque naquele instante ele era apenas “um cara num posto de gasolina” ou “um cara sentado numa lanchonete”.
Para muitos artistas, isso poderia parecer frustrante. Para o Professor, era uma conquista. Ele gostava dessa invisibilidade. Gostava de ser tratado como uma pessoa comum. Gostava de conversar sem que o outro ficasse paralisado diante do mito. Em vez de desejar reconhecimento o tempo inteiro, parecia proteger com carinho esses pequenos momentos em que podia desaparecer.
Talvez seja uma das partes mais bonitas do vídeo. Peart afirma que adorava esses momentos porque percebia que tinha alcançado essa independência e podia ser apenas “aquele cara”. Pense nisso. Estamos falando do baterista que mudou a vida de gerações, do letrista que colocou literatura, filosofia, ficção científica, ética, liberdade e solidão dentro do rock. No fim das contas, em muitos momentos, ele queria apenas isso. Ser aquele cara.

Um viajante. Um sujeito numa moto. Alguém parado num posto. Um homem lendo, observando, seguindo caminho. Ele gostava de conversar com as pessoas no dia a dia e não queria que olhassem para ele como se fosse “um ser de outro planeta”.
Essa busca por normalidade ajuda a entender por que a motocicleta foi tão importante em sua vida. Ela dava ao músico um território próprio. No palco, ele era parte de uma estrutura enorme, com luzes, técnicos, fãs, pressão e expectativa. Na estrada, voltava a ser indivíduo. Podia escolher a rota, parar, errar, se perder e existir sem o peso da reverência.
A entrevista também toca em outra marca profunda de sua personalidade: a inquietação. O baterista fala de tédio de um jeito muito revelador. Diz que nunca ficou entediado nem por um segundo na vida. Não porque tudo ao redor fosse sempre fácil ou emocionante, mas porque sempre encontrou uma maneira de ocupar a mente. Se precisava ir a uma consulta médica, levava um livro. Assim, a espera não virava sofrimento.
A imagem é muito Peart. O tempo vazio não precisava ser desperdiçado. Podia ser preenchido por leitura, observação, pensamento, escrita. Nos primeiros anos de turnê, quando o tempo morto pesava sobre ele, os livros se tornaram uma companhia portátil e nutritiva.
A relação com o tempo atravessa toda a obra do nosso filósofo preferido. Ele parecia ter horror não ao descanso, mas ao desperdício. Não no sentido de produzir sem parar, mas no sentido de tentar viver com atenção. Se havia uma hora livre, ela podia virar leitura. Se havia um dia livre, podia virar viagem. Se havia uma estrada entre duas cidades, ela podia virar experiência.
Por isso, quando tinha um dia disponível durante uma turnê, o músico se fazia uma pergunta que parece resumir muito bem sua maneira de viver: “Qual é a coisa mais extraordinária que eu posso fazer?”. A resposta, muitas vezes, podia ser exagerada. Longe demais. Cansativa demais. Demorada demais. Mas era justamente isso que o atraía. Ele mesmo admite que podia ser longe demais ou demorado demais, mas tentaria mesmo assim, porque era “a coisa mais extraordinária” que podia fazer.
Essa frase carrega o espírito de Peart em estado puro. O músico que não se contentava com o suficiente. O viajante que procurava a melhor rota possível, mesmo que fosse a mais difícil. O escritor que lapidava suas ideias até sentir que havia chegado ao limite honesto do próprio esforço.
No fim do vídeo, o baterista faz uma ponte entre a viagem e a escrita. Ele diz que, ao escrever, também sabia quando tinha feito o melhor que podia. Um editor poderia ajudar. Outra pessoa talvez pudesse escrever melhor. Mas havia nele um senso interno de qualidade, uma bússola particular que indicava quando o trabalho estava completo. “Eu meio que sei quando fiz o meu melhor”, afirma.
Uma fala assim ilumina não só o escritor Neil Peart, mas também o baterista, o letrista e o viajante. Em tudo, parecia existir a mesma ética. Fazer com intensidade. Fazer com atenção. Fazer até onde fosse possível fazer bem. E, depois, seguir adiante.
É impossível assistir a esse vídeo sem pensar em Ghost Rider, livro em que Peart transformou a estrada em travessia da dor depois das perdas devastadoras que sofreu no fim dos anos 90. Também é impossível não lembrar de Roadshow, publicado em 2006, em que ele narra a vida em turnê a partir desse olhar de motociclista, escritor e observador do mundo. Mas o registro tem uma força própria porque mostra o ídolo falando de tudo isso de maneira direta, quase desarmada.
Ele não está fazendo pose de aventureiro. Não está romantizando a estrada para parecer interessante. Está apenas contando como encontrou uma maneira de viver melhor dentro de uma realidade que poderia ser sufocante. Entre uma apresentação e outra, entre uma cidade e outra, entre uma obrigação e outra, o Professor encontrou uma fresta. E entrou por ela de moto.
Para os fãs brasileiros, a lembrança do sul do Brasil torna tudo ainda mais especial. Enquanto o Rush fazia história nos palcos em 2002, Peart também escrevia uma pequena história paralela nas nossas estradas. Perdido, curioso, atento, enfrentando a barreira do idioma e escolhendo justamente os caminhos menos prováveis.
Talvez por isso esse vídeo tenha tanto encanto. Ele nos devolve um artista muito humano. Não apenas o mito sentado atrás de uma das maiores baterias do rock. Não apenas o Professor. Não apenas o letrista brilhante. Mas o homem que gostava de sumir, de pilotar, de ler, de conversar com desconhecidos e de procurar, a cada brecha na agenda, a coisa mais extraordinária que ainda dava para fazer.
No palco, ele era o gigante do Rush. Na estrada, queria ser só um cara de moto. E, para alguém que passou a vida inteira buscando liberdade com disciplina, essa talvez tenha sido uma das conquistas mais preciosas.
Respostas de 2
Excelente texto irmão, só uma correção que não tira o brilho do artigo: as andanças do Professor pelo Brasil, foram em 2010 e não 2002.
Parabéns pelo site.
Valeu!!! Me confundi.