Da abertura corajosa com “Xanadu” às homenagens arrepiantes a Neil Peart, passando pela estreia segura de Anika Nilles, pela volta de raridades ao repertório e pela participação de Aimee Mann em “Time Stand Still”, o show marcou muito mais do que o início da turnê “Fifty Something”. Foi uma celebração da memória, da música e da permanência de uma das bandas mais reverenciadas do rock. Nossa matéria reúne relatos, vídeos, depoimentos e comentários publicados por diversos sites especializados em música, especialmente páginas e comunidades dedicadas ao universo do Rush, para reconstruir a noite histórica de 7 de junho de 2026 no Kia Forum, em Los Angeles.
Durante anos, parecia uma daquelas certezas tristes que os fãs de rock aprendem a aceitar à força: o Rush havia terminado sua história nos palcos. Depois da turnê R40, em 2015, da aposentadoria silenciosa e depois da morte de Neil Peart, em 2020, a ideia de ver Geddy Lee e Alex Lifeson juntos novamente em uma grande turnê parecia mais memória do que possibilidade. Era como se o último capítulo já tivesse sido escrito.
Mas na noite de domingo, 7 de junho de 2026, no Kia Forum, em Inglewood, na região de Los Angeles, o impossível aconteceu. O Rush voltou. E voltou com uma força impressionante.
A abertura da turnê “Fifty Something” foi muito mais do que o início de uma nova série de shows. Foi um reencontro carregado de emoção, respeito e celebração. Ao lado de Geddy e Lifeson, a banda apresentou sua nova formação ao vivo, com Anika Nilles na bateria e Loren Gold nos teclados. A missão era enorme. Revisitar uma obra sagrada para milhões de fãs sem a presença física de Neil Peart, mas mantendo viva a alma que ele ajudou a construir (veja o set list completo no final deste artigo).
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E o primeiro gesto da noite já disse muito. O Rush abriu o show com “Xanadu”, escolha grandiosa, cinematográfica e simbólica. Não foi uma entrada qualquer. Foi como se a banda dissesse, logo nos primeiros minutos, que não estava ali para apenas cumprir calendário ou matar saudade: estava ali para celebrar sua própria mitologia.
Na sequência, veio “Limelight”, outro momento de impacto. A música voltou ao repertório depois de muitos anos fora dos palcos do Rush, arrancando uma reação forte do público. Era o tipo de canção que, naquele contexto, parecia ganhar outro peso: uma banda lendária encarando novamente os refletores, depois de tanto tempo longe deles.
As homenagens a Neil Peart deram o tom emocional da apresentação. “Bravado” foi dedicada ao baterista, acompanhada por imagens e lembranças no telão. Foi um dos momentos em que a noite deixou de ser apenas show e virou tributo. Sem transformar a ausência de Neil em espetáculo, o Rush fez o que parecia mais adequado: colocou a música no centro da homenagem.
Outro ponto alto veio com “Time Stand Still”, que contou com a participação especial de Aimee Mann, repetindo ao vivo a conexão histórica da faixa lançada originalmente em 1987. Antes da canção, outra homenagem a Peart reforçou o clima de memória e despedida, mas também de continuidade. A música, que sempre falou sobre passagem do tempo, ganhou ali um significado ainda mais profundo.
O repertório trouxe outros resgates importantes. “Freewill”, “La Villa Strangiato”, “Vital Signs”, “Dreamline”, “Red Sector A” e “The Garden” ajudaram a construir uma noite que percorreu diferentes fases da carreira do Rush. Não foi apenas uma sequência de hits, foi uma viagem pela história da banda.
A presença de Anika Nilles naturalmente concentrou atenção. Assumir a bateria do Rush é uma das tarefas mais delicadas do rock, e ainda mais em uma turnê marcada pela memória de Neil Peart. Mas os relatos da noite apontam para uma recepção calorosa do público, especialmente em momentos de alta exigência como “YYZ” e “Tom Sawyer”. A banda não tentou apagar a sombra de Neil; encontrou uma forma de seguir tocando sob ela, com respeito.
No bis, o Rush ainda guardou mais uma surpresa. “By-Tor & The Snow Dog”, que reapareceu depois de um longo hiato, levando os fãs mais antigos ao delírio. E para fechar, nada mais direto, simbólico e poderoso do que “Working Man”, clássico do primeiro álbum e uma espécie de retorno às origens.
Depois de 11 anos, o Rush voltou aos palcos em uma noite de catarse. Voltou com saudade, com reverência, com peso histórico e com energia de banda grande. A ausência de Neil Peart esteve presente em cada silêncio, cada imagem e cada homenagem. Mas a música também falou alto — e mostrou que, mesmo depois de tanto tempo, ainda havia vida, força e emoção suficientes para fazer o Rush renascer diante de uma plateia que talvez já tivesse desistido de esperar por esse momento.
A coragem de abrir com “Xanadu”
Se havia alguma dúvida sobre o tamanho da aposta que o Rush estava disposto a fazer nessa volta, ela caiu por terra logo na primeira música. Abrir uma turnê aguardada por 11 anos com “Xanadu” não é apenas escolher um clássico: é começar pelo alto da montanha.
A faixa, lançada em A Farewell to Kings, é uma das grandes catedrais do rock progressivo da banda. Longa, cheia de climas, mudanças de dinâmica, passagens instrumentais, precisão rítmica e aquela arquitetura sonora que exige mais do que técnica — exige personalidade. Para qualquer baterista, tocar Rush já é atravessar um território sagrado. Abrir a primeira noite sem Neil Peart justamente com uma peça desse porte foi um gesto de coragem coletiva.
E foi também o primeiro grande recado de Anika Nilles.
Ela não entrou pela porta dos fundos. Não foi apresentada ao público com uma música simples, segura, de aquecimento. Foi colocada imediatamente diante de uma das composições mais representativas da mitologia do Rush. A escolha de “Xanadu” funcionou quase como um batismo de fogo: se a nova fase da banda precisava provar alguma coisa, a prova começou ali.
Anika mostrou que estava pronta. Não no sentido impossível de substituir Neil Peart, algo que nem Geddy Lee nem Alex Lifeson tentaram vender ao público, mas no sentido de ocupar aquele espaço com respeito, segurança e identidade. A própria banda já havia tratado Peart como insubstituível, e Geddy reconheceu que não bastava encontrar alguém capaz de reproduzir viradas: era preciso encontrar alguém que entendesse o sentimento das músicas do Rush.
Nesse ponto, a bagagem de Anika ajuda a explicar a escolha. Sua trajetória passa por linguagem instrumental, técnica apurada, educação musical, composições próprias e uma passagem pela banda de Jeff Beck, além de uma reputação construída entre bateristas por sua precisão e musicalidade. É possível imaginar que esse vocabulário mais próximo do fusion, do jazz moderno e da música instrumental tenha pesado, sim. O Rush sempre exigiu esse tipo de músico: alguém capaz de contar compassos difíceis sem soar preso a eles; alguém que entenda complexidade, mas também respiração.
Por isso, “Xanadu” abrindo a noite teve tanta força simbólica. Era um clássico progressivo, difícil, ambicioso e reverenciado. Era a memória de Neil pairando sobre cada compasso. Era o público inteiro medindo, mesmo sem querer, o que viria dali em diante. E era Anika, logo no primeiro minuto da nova história, dizendo com as baquetas: eu sei onde estou, eu sei o que isso significa; e estou pronta para atravessar essa montanha com vocês.
Set list do show
Where’s Rush?
Vídeo de abertura
Set 1
- Xanadu
Primeira vez como abertura de show - Limelight
Primeira vez desde 2013 - Far Cry
Com apresentação da banda de apoio da turnê - Subdivisions
- Freewill
Primeira vez desde 2011
Neil Peart Tribute Collage 1
Vídeo
- Bravado
Primeira vez desde 2013, dedicada a Neil Peart - Caravan
Primeira vez desde 2013 - La Villa Strangiato
Primeira vez desde 2011 - Vital Signs
Primeira vez desde 2011 - The Spirit Of Radio
Set 2
Countdown
Vídeo
- 2112 Part I, Overture
- 2112 Part II, The Temples Of Syrinx
- 2112 Part VII, Grand Finale
- Distant Early Warning
- Red Barchetta
- Dreamline
Primeira vez desde 2013
Bird-dy Lee Sketch
Vídeo
- Natural Science
Neil Peart Tribute Collage 2
Vídeo
- Time Stand Still
Com Aimee Mann, primeira vez desde 2011 - Red Sector A
Primeira vez desde 2013 - YYZ
- The Garden
Primeira vez desde 2013
“South Park” Intro
Vídeo
- Tom Sawyer
Bis
- By-Tor & The Snow Dog
Primeira vez desde 2004 - Working Man
Neil Peart Tribute
Vídeo final
Respostas de 9
Opa João,
Obrigado por seu relato e imagens. Eu como vc somos apaixonados pelo Rush e isso é muito forte pra todos nós.
Valeu e até 2027 em Brasília
Abs
Com certeza! Unidos! Rush on!
Como sempre, obrigado, João, por tamanha dedicação e sensibilidade. Que show!! Se ontem já chorei, em sp, vou ter que levar um caixa de lenços…kkk RUSH ON!!
Mestre! Obrigado por ter lido!
Verei hoje, como presente de aniversário (que foi ontem). Obrigado ao Rush por esse presente 😁
E obrigado a você pelo material tão bem apanhado!!
Eita !!! Parabéns, meu ídolo! Tudo de bom!
Brigado, meu lindo! Um xero
Excelente texto, meu nobre! Obrigado! 🤘🤘🤘
Obrigado por ter lido, mestre!