Bem no início, antes do Rush se tornar lenda, havia uma banda jovem, inquieta e corajosa, tentando descobrir até onde seu som podia chegar. Na conversa com Rick Beato, Terry Brown abre a porta do estúdio e revela os primeiros anos em que fitas, ecos, pressão e rock progressivo na veia começaram a formar a linguagem única de Geddy, Alex e Neil.
Antes de o Rush virar monumento, antes de os fãs aprenderem cada virada de Neil Peart como quem decora um mapa secreto, havia uma banda correndo contra o tempo, gravando no limite do orçamento e tentando descobrir até onde poderia ir sem trair a própria alma. Esse retrato dos primeiros anos foi um dos momentos mais marcantes da entrevista que o produtor Terry Brown deu a Rick Beato, dentro de uma série de conversas em que Beato mergulhou no universo do Rush e de sua “família musical”. Entre fitas analógicas, ecos na guitarra de Alex Lifeson, o baixo cortante de Geddy Lee e a chegada decisiva de Neil, Brown ajudou a revelar o instante em que o Rush ainda estava sendo inventado, mas já trazia rock progressivo correndo na veia.

O mais saboroso é perceber que nada começou com pose de grandeza. Terry Brown não entrou na história do Rush como o produtor contratado para lapidar uma banda já consagrada. Ele aparece primeiro como “o inglês” do Toronto Sound, aquele sujeito que alguém da SRO Management achava capaz de resolver um problema. A banda tinha gravado boa parte do primeiro álbum no turno da madrugada, em oito canais, no Eastern Sound, mas ainda precisava completar o repertório e transformar aquele material em disco. Em dois dias, Brown gravou “Finding My Way”, registrou mais uma faixa e mixou o álbum inteiro. Hoje isso soa quase absurdo, mas havia ali uma urgência que também fazia parte do encanto. “Foi uma experiência mágica trabalhar com aqueles caras”, falou Terry.
Essa palavra diz muita coisa. Mágica, no caso do Rush, nunca significou facilidade. Significava reconhecer que havia algo vivo acontecendo na sala, mesmo quando as condições eram apertadas, os recursos eram limitados e ninguém ainda sabia direito até onde aquela banda poderia chegar. Brown parecia entender que Geddy, Alex e Neil não precisavam ser domesticados para caber no mercado. Precisavam ser registrados com força, com clareza e com espaço para crescer. Por isso, sua relação com o grupo foi ficando mais profunda a cada disco, não apenas pela competência técnica, mas pela confiança de quem sabia ouvir sem tentar diminuir a ambição dos três.
Quando “Fly by Night” entrou em cena, o Rush já era outro organismo. A chegada de Neil Peart mudou tudo, e Terry Brown percebeu isso logo de cara. Ele lembra que Neil já chegava com as partes de bateria bem definidas, o que tornava a gravação empolgante e desafiadora ao mesmo tempo. A maioria dos bateristas da época aparecia com kits menores, mais simples, e o equipamento de Neil exigia outra cabeça, outro cuidado, outra arquitetura de captação. Aquele som não podia ser tratado como mais uma bateria qualquer. Era preciso entender o tamanho do músico, o tamanho do kit e o tamanho da virada que ele provocava na banda.
O método ajudava a preservar essa energia. O Rush gravava a base ao vivo, principalmente a seção rítmica, e depois refazia baixo, guitarras e outros elementos. A bateria, porém, permanecia como coluna vertebral. Brown gostava desse caminho porque sentia que havia detalhes demais na execução para serem desperdiçados. O som precisava nascer com vida, mas também precisava ser lapidado. Para ele, aquele era o caminho certo, especialmente porque o baixo de Geddy Lee exigia atenção especial. Não era apenas um instrumento marcando a harmonia. Era uma voz dentro da banda.
A lembrança de Brown sobre Geddy é uma das partes mais reveladoras da entrevista. Em uma época em que muita gente ainda implicava com a voz aguda do cantor, Terry ouviu aquilo com outros ouvidos. “Quando Geddy começou a cantar, pensei que adorava aquela voz”, contou o produtor. Ele mesmo reconhece que talvez fosse uma das poucas pessoas a pensar assim naquele momento, mas esse detalhe é precioso porque mostra como ele enxergava o Rush por dentro. Aquilo que alguns tratavam como problema era, na verdade, parte da identidade. O timbre cortante, a voz no alto, o baixo cheio de médios, tudo isso ajudava a construir uma assinatura que ninguém mais tinha.
Com “Caress of Steel”, essa assinatura começou a ficar perigosa demais para o gosto da indústria. O álbum de 1975 levou a banda para um território mais longo, mais narrativo, mais progressivo, mais estranho e menos interessado em agradar de primeira. O resultado comercial foi difícil, a gravadora não recebeu bem o disco e a turnê seguinte ganhou a fama amarga de “Down the Tubes Tour”. Terry Brown recorda que havia críticas à banda, à voz de Geddy e ao caminho que eles pareciam tomar. Para muita gente, o Rush estava se perdendo. Para a banda, talvez fosse justamente o contrário. Eles estavam se encontrando, mesmo que o caminho ainda parecesse cheio de pedras.
O mais interessante é que Brown não fala de “Caress of Steel” como quem pede desculpas por um erro. Ao contrário, ele ainda percebe potência naquele disco. Diz que gostaria de remixá-lo, porque acredita que há mais ali dentro do que muita gente conseguiu ouvir na época. “A mágica está lá, mas alguns detalhes poderiam ser melhores”, afirmou Brown. Essa frase ajuda a recolocar o álbum em seu devido lugar. “Caress of Steel” não foi um beco sem saída. Foi uma travessia difícil, daquelas que quase derrubam uma banda, mas também revelam sua coragem.
Então veio “2112”, e o Rush transformou risco em destino. Brown conta que houve uma reunião com a administração, na qual ficou claro que a banda precisava de algo diferente depois da recepção complicada de “Caress of Steel”. Só que a resposta do Rush não foi abandonar o épico, cortar as asas ou fingir que queria ser outra coisa. A estrutura de “2112” continuava ousada, com uma peça longa ocupando um lado do disco e faixas menores no outro. A diferença estava na concentração da força. O que antes parecia disperso, agora surgia como manifesto.
Essa é uma chave fundamental para entender os primeiros anos. O Rush não venceu porque recuou. Venceu porque conseguiu dar forma mais precisa à própria teimosia. O progressivo não entrou como adorno, nem como fantasia intelectual colocada por cima de uma banda de rock. Ele vinha da necessidade interna de expandir a música, de contar histórias, de criar climas, de fazer a guitarra soar como paisagem, de transformar bateria em dramaturgia e de deixar o baixo ocupar um lugar quase narrativo. Terry Brown ajudou a capturar isso com os recursos da época, usando fita, placas de reverb, delays e muito ouvido.
A fala dele sobre os ecos de Alex Lifeson é quase uma pequena janela para esse mundo. Em “2112”, o delay não era apenas efeito. Era parte da história. Quando a música pedia uma atmosfera mais teatral, Brown pensava no espaço sonoro como cenário. A guitarra precisava soar como descoberta, como caverna, como instrumento antigo encontrado em um mundo proibido. Essa preocupação mostra por que aqueles discos ainda respiram. Eles não foram apenas gravados. Foram imaginados.
A virada seguinte veio com “A Farewell to Kings”, quando a banda decidiu mudar de estúdio e ir para a Inglaterra. Brown lembra que a mudança foi consciente. O material era diferente, a instrumentação começava a se ampliar e os teclados ganhavam mais presença, sem que o trio perdesse sua força central. Para Rick Beato, aquele é o primeiro grande disco progressivo do Rush, e “Xanadu” surge na conversa como uma espécie de ápice dessa fase. Não uma música montada artificialmente, mas uma peça que precisava ser tocada, sentida e sustentada por músicos de verdade.
Terry Brown conta que, em “Xanadu”, Neil chegou a tocar na sala de eco, com fones e microfones levados até lá. O detalhe parece pequeno, mas diz muito sobre a busca sonora daquele período. A banda queria clima, distância, profundidade, mistério. A entrada do riff em sete, surgindo quase do nada, provavelmente foi feita com fade manual na mixagem. Nada de atalhos digitais. Era mão no controle, ouvido atento e tentativa até o ponto exato. O progressivo do Rush tinha cérebro, claro, mas tinha também suor de estúdio.
O mais impressionante é que a banda ainda precisava levar tudo aquilo para o palco. Brown não parecia preocupado, porque sabia que eles dariam um jeito. E deram. Geddy cantava, tocava baixo, acionava pedais e teclados. Alex sustentava guitarras, texturas e climas. Neil comandava bateria, sinos, percussões e toda uma máquina rítmica que parecia grande demais para um único ser humano. O Rush dos primeiros anos era uma banda que criava problemas quase impossíveis para si mesma e depois encontrava uma maneira de resolvê-los diante do público.
Ao revisitar esses discos com Rick Beato, Terry Brown acaba oferecendo mais do que memórias de produção. Ele mostra o Rush no momento em que a banda ainda não era mito, mas já carregava todos os sinais daquilo que se tornaria. Havia pressa, pressão, orçamento curto, fita acabando, poucos canais e uma indústria querendo singles. Do outro lado, havia três músicos querendo atravessar a parede. Entre esses dois mundos, Brown foi o produtor que ajudou a manter a chama acesa, sem apagar o incêndio criativo.
Por isso, essa entrevista tem tanto valor para quem ama o Rush. Ela nos permite ouvir os primeiros anos não como rascunho, mas como nascimento. “Fly by Night”, “Caress of Steel”, “2112” e “A Farewell to Kings” aparecem como etapas de uma mesma aventura, com erros, acertos, coragem e uma vontade absurda de soar diferente. Era rock progressivo na veia, sim, mas também era juventude, intuição, amizade e trabalho duro. Antes da lenda, havia uma banda dentro de uma sala, tentando descobrir o tamanho do próprio som. E Terry Brown estava lá, girando a fita enquanto o futuro começava a fazer barulho.