Rush, o necromante e o monge

O site RushBrasil.com está preparando uma série especial, com quatro matérias, para marcar os 50 anos do lançamento do disco Caress of Steel, comemorados neste mês de setembro. Enquanto isso, surpreenda-se, como nós, com as conexões visuais e simbólicas reveladas nesta análise.

O Necromante, figura central do álbum, ganha aqui uma nova perspectiva. Encontramos uma semelhança impressionante entre ele e outro personagem, vindo de uma escultura barroca de Michelangelo. Coincidência ou inspiração? 

Um necromante e um monge. Um disco de rock e uma escultura religiosa. Num primeiro momento, juntar esses dois mundos pode parecer forçado. Mas basta um olhar mais atento para perceber como a arte, com sua capacidade de atravessar o tempo e cruzar culturas, tem o poder de conectar elementos que, inicialmente, parecem não ter relação. Essa é justamente a sensação ao compararmos a figura do Necromante, na capa do álbum Caress of Steel, lançado pelo Rush em 1975, com a estátua de São Bruno, esculpida por Michelangelo e hoje exibida na Basílica de São Pedro, no Vaticano. Mais do que uma coincidência visual, essa aproximação revela semelhanças instigantes e significados profundos ligados à espiritualidade.

A capa de Caress of Steel: destaque para o Necromante

A capa de Caress of Steel, criada por Hugh Syme, é o primeiro trabalho do artista com a banda. Depois dele, Syme foi o principal responsável pela identidade visual do Rush. A imagem nos transporta para um universo de fantasia e mistério, e o álbum, marcante na fase inicial da carreira de Alex Lifeson, Geddy Lee e Neil Peart, traz letras inspiradas em aventuras épicas, mitologia e batalhas simbólicas entre luz e escuridão, com destaque para a faixa “The Necromancer”.

Entre as semelhanças na obra de Syme e Michelangelo, algumas são espantosas. A posição da mão direita e a caveira na base da imagem. Como se a escultura tivesse sido fotografada e substituída apenas o rosto e as vestes. É difícil achar que não houve uma inspiração direta.

No centro da imagem no álbum, aparece uma figura envolta em um manto, com o rosto sério e uma das mãos levantada — gesto que pode sugerir tanto concentração quanto algum tipo de poder oculto. Símbolos como uma serpente enrolada e um triângulo reforçam esse clima de magia e mistério. Mesmo com os recursos gráficos limitados da época, a arte conseguiu transmitir bem a atmosfera de fantasia que inspirava a banda, especialmente nas capas de livros antigos.

O necromante, por definição, é alguém que pratica necromancia, a arte de se comunicar com os mortos. Ao longo da história, essa prática foi associada a rituais obscuros, usados para obter respostas, controlar espíritos ou mesmo manipular cadáveres. Na cultura pop dos anos 1970, alimentada por influências como o autor J. R. R.Tolkien, mitologias antigas e temas filosóficos, o necromante passou a ser retratado como um feiticeiro sombrio, capaz de comandar exércitos de mortos-vivos e lidar com forças além da vida.

Segundo artigo publicado na revista brasileira Superinteressante (editora Abril), qualquer ritual que envolva contato com os mortos, em qualquer religião, pode ser considerado uma forma de necromancia. A palavra vem do grego: nekrós (cadáver) e manteía (profecia). Um dos registros mais antigos aparece na Odisseia, de Homero. Na Antiguidade, diversas religiões pagãs da Europa praticaram esse tipo de ritual, até que foram suprimidas com a expansão do cristianismo.

No espiritismo, há uma distinção importante entre a necromancia e o mediunato. Enquanto a primeira normalmente busca fins terrenos, como obter respostas imediatas ou vantagens, o mediunato espírita se orienta por valores mais elevados, voltados ao crescimento moral e espiritual. Práticas como a cartomancia, quiromancia, uso do tabuleiro ouija ou jogo de búzios são vistas como formas de necromancia, consideradas expressões de misticismo pela doutrina espírita.

No universo de Caress of Steel, o Necromante aparece como uma força sombria e opressora, que aprisiona a luz nas “Terras Negras”. A letra escrita por Neil Peart narra uma jornada em que essa figura acaba sendo derrotada, o que representa a superação da escuridão. A música “The Necromancer” é dividida em três partes: “Into the Darkness”, “Under the Shadow” e “Return of the Prince”, e traz temas recorrentes na obra de Peart: filosofia, fantasia, ética e liberdade.

Nesse contexto, o Necromante não é só um vilão. Ele simboliza os obstáculos ao crescimento: a estagnação, a ignorância, o medo. A imagem da capa reforça esse clima de luta interna, convidando o ouvinte a refletir sobre seus próprios desafios.

Em contraste com essa figura fantástica, mas com essa coincidência visual marcante, temos a escultura de São Bruno. Esculpida por Michelangelo, no século XVIII, é uma das obras mais imponentes da Basílica de São Pedro, no Vaticano.

São Bruno de Colônia (1030–1101) foi um dos nomes mais importantes do estilo de vida dos monges cristãos. Fundador da Ordem dos Cartuxos (conhecida por seu rigor e vida de contemplação), Bruno era um respeitado professor de teologia. Abandonou a carreira acadêmica para viver de forma simples e silenciosa nos Alpes franceses, onde criou o mosteiro Grande Chartreuse, que se tornaria o coração do grupo religioso conhecido e batizado com o nome da ordem.

As obras apresentam muitas características parecidas

A escultura mostra o santo em profunda introspecção. Ele olha para baixo, mergulhado em silêncio, como se o mundo ao redor tivesse desaparecido. Uma de suas mãos está erguida, gesto que pode representar oração, renúncia ou recolhimento. As roupas simples e a expressão séria reforçam a imagem de alguém entregue à vida espiritual, dedicado a escutar o divino. Não existe uma cena teatral ali, apenas um momento de contemplação que transmite entrega total a algo que está no campo sutil espiritual.

Não dá para afirmar se Hugh Syme realmente se inspirou na imagem de São Bruno. Muitos artistas, mesmo sem perceber, absorvem referências visuais ao longo da vida e acabam usando essas imagens de forma intuitiva. É possível que essa obra clássica tenha influenciado Syme de algum modo. Afinal, o corpo humano e seus gestos sempre foram elementos recorrentes na arte, voltando a aparecer em diferentes formas e contextos.

DiscoCaress of Steel, embora não tenha sido bem recebido na época de seu lançamento, é hoje reconhecido como uma das obras mais ousadas do Rush. Foi nesse disco que a banda assumiu um caminho autoral, arriscando na forma, no conteúdo e no visual, um movimento que acabaria moldando toda a sua trajetória. Já a escultura de São Bruno, como tantas obras clássicas, tenta expressar o que não se pode falar, aquilo que escapa para a razão. Um disco de rock e uma escultura sacra podem parecer distantes, mas talvez estejam tentando o mesmo: responder sobre o mistério que habita a existência.

Talvez a semelhança entre o Necromante e São Bruno diga mais sobre nós, seres humanos, do que sobre seus criadores. Quando a arte tenta mostrar o invisível, algo espiritual, misterioso ou profundo, ela muitas vezes recorre a gestos e expressões que falam direto ao nosso inconsciente. Isso mostra que, independente da época ou do estilo, a busca por algo sagrado e também o sentido da vida — seja na magia, na religião ou na espiritualidade — é uma das experiências mais universais que temos.

Será que Hugh Syme se inspirou em São Bruno para criar o Necromante de Caress of Steel? Talvez nunca saberemos.

Mas é justamente aí que está a força da arte, nas perguntas que ela continua a nos fazer.

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