O baterista Gilson Naspolini explica por que tocar Rush não é trabalho, é devoção; como a Rush Fest transforma um sentimento individual em uma celebração coletiva que só faz sentido vivendo de perto
O que acontece na Rush Fest não começa no palco. Começa muito antes, lá atrás, na relação que cada um foi criando com o Rush ao longo da vida. Aquela coisa silenciosa mesmo, pessoal, que vai ficando. Não é só gostar de música. É companhia, é referência, é algo que vai atravessando os anos com você.
E aí, de repente, aquilo que era tão individual ganha corpo. Vira encontro. Vira gente de todo canto reunida pelo mesmo sentimento. E quando você chega na Rush Fest, você percebe rápido que não é só um festival. É outra coisa. É como se todo mundo ali já se conhecesse de alguma forma, mesmo sem nunca ter se visto, e é nesse ambiente que figuras como Gilson Naspolini ajudam a dar forma ao que está acontecendo.
Gilson é baterista, tem trabalhos autorais, é um dos músicos mais respeitados do Brasil. Mas, ao mesmo tempo, está ali como integrante da Karol & Snow Dogs, uma das principais bandas tributo ao Rush no país. E mais do que isso, é a banda da casa da Rush Fest. Aquela que ajuda a dar o tom do evento, que sustenta a identidade do que acontece ali, inclusive agora, na edição de 2026.
Mesmo com toda essa trajetória, ele ainda se surpreende com o que vê. “Cara, é muito louco mesmo. Não dá nem pra imaginar, por exemplo, um Guns N’ Roses Fest. Parece que não faz sentido. Agora, com o Rush, simplesmente faz. Eu não sei explicar direito… é uma loucura”, lembra Gilson.
É interessante ouvir isso de alguém que vive música todos os dias. Porque, pra ele, quando entra o Rush na história, muda tudo. “Quando se trata de fazer esse tributo, é como se transcendesse. Deixa de ser só tocar cover, deixa de ser profissão. Não é um trabalho.”
Dá pra entender. O que acontece ali não tem muito a ver com lógica de mercado, agenda ou cachê. Tem mais a ver com entrega. Com algo que vem de dentro. “Vários fatores que acabam dando certo. A gente faz por prazer e por amor”, cita outro produtor, Marcos Milanese.
Quando se fala que “é como se o palco fosse um altar… e a gente estivesse ali se revezando pra levar aquela palavra adiante”, não soa exagerado. Pelo contrário. Faz sentido quando você olha em volta. O público não está ali só assistindo. Está junto. Cantando, reagindo, vivendo cada música como se fosse parte da própria história.
Não existe uma divisão clara entre quem está no palco e quem está embaixo. Existe troca o tempo todo, uma energia que vai e volta. Quem toca sente. Quem está ali sente também. E isso sustenta tudo. Estar na Rush Fest, a cada dois anos, é um momento singular, daqueles que o fã planeja durante dois anos, quem já foi, sabe.
Talvez seja por isso que o Rush permita algo que parece improvável. Transformar algo tão pessoal em algo tão grande sem perder o sentido. Crescer sem virar artificial. Ficar maior sem ficar distante, parece que tudo gira em torno disso: estar juntos, curtir as amizades, as músicas, o cenário, o clima.
No fim, a Rush Fest mostra que o legado não ficou parado no tempo. Ele continua vivo, sendo passado adiante, sendo sentido de novo, cada vez que alguém sobe no palco ou aperta o play.
Tem coisa que não se explica. Só faz sentido quando você está ali, vivendo. Por isso que a Rush Fest se mantém viva, feito o próprio Rush. Um doce milagre.