Há exatos 80 anos, Hiroshima foi dizimada; quarenta anos depois, o Rush transformou esse horror em arte com “Manhattan Project”, uma canção que não apenas relembra; a obra interroga, provoca e nos obriga a pensar no preço da destruição
O Japão parou às 8h15 desta quarta-feira, 6 de agosto, para um minuto de silêncio. A cerimônia marcou os 80 anos do lançamento da bomba atômica em Hiroshima, quando o avião americano Enola Gay lançou a devastadora Little Boy sobre a cidade, em 1945. Quarenta anos depois daquele ataque — e agora também há exatas quatro décadas, o Rush lançou o álbum Power Windows, de 1985, onde transformou esse episódio sombrio em arte crítica e atemporal. A música “Manhattan Project”, terceira faixa do disco, é mais que uma lembrança: é uma reflexão lírica e poderosa sobre o nascimento da era nuclear. Uma obra que ainda hoje soa atual e essencial.

A canção nasceu da inquietação do baterista e letrista Neil Peart, fascinado por dilemas éticos, mundos pós-apocalípticos e os rumos da civilização. Em vez de apresentar uma narrativa linear sobre o Projeto Manhattan, ele optou por fragmentos líricos que sugerem imagens e tensões: o piloto do Enola Gay, o cientista insones, o pavor do desconhecido. “Imagine a man / When it all began / The pilot of ‘Enola’ made history in the sky”, escreve ele, numa síntese poderosa da banalização do ato de matar em escala industrial.
Mas não bastava escrever. Peart queria precisão cirúrgica na interpretação. “Eu queria que a interpretação fosse como pontuação, e o refrão precisava ser mais apaixonado e mais ritmicamente ativo”, contou ao jornalista Bruce Pollock.
“Foi difícil expressar exatamente como eu queria. Na primeira vez em que trabalhamos na música, eles cantaram a letra de uma maneira muito lenta, e eu tive que protestar.” A estrutura da canção era meticulosamente pensada: “A frase tinha duas linhas curtas, depois uma longa, duas curtas e outra longa”, explicou.
“Havia rimas internas e relações internas entre as palavras e dentro da própria entonação que precisavam ser mantidas para que tudo fizesse sentido. Era algo tão cuidadosamente construído que não podia ser interpretado de qualquer jeito.”
Enquanto Peart buscava o tom ideal, Geddy Lee e Alex Lifeson construíam a paisagem sonora da canção. O Rush vivia seu momento mais experimental com sintetizadores, e “Manhattan Project” tornou-se um campo de testes para novos timbres. O tecladista convidado Andy Richards criou uma linha de baixo com som de fretless num Roland JP-8, posteriormente amostrada por Lee para apresentações ao vivo.

Mas a tecnologia ainda não era capaz de reproduzir a nuance de um instrumento real. “A amostragem não é perfeita o suficiente para que o som seja completamente realista — você ainda não consegue captar a sensação”, disse Lee à Guitar Player em 1986.
“Uso ao vivo e até que soa bem, mas cada slide tem exatamente o mesmo valor, o que você nunca quer. Quando você toca um baixo fretless, desliza por algumas notas e passa por outras em velocidades diferentes. Você não consegue fazer isso com um som armazenado, a menos que tenha uma amostragem complexa em que cada nota seja gravada separadamente.”
O resultado foi uma canção que se recusa a envelhecer. Lançada em plena Guerra Fria, quando o medo de uma catástrofe nuclear ainda rondava o cotidiano, “Manhattan Project” é uma meditação sobre o poder, a ciência e a ética — e, sobretudo, sobre o impacto das escolhas humanas. Em vez de romantizar o feito, a música carrega um senso de responsabilidade: é a consciência posterior à explosão.
Triste história do mundo– Em julho de 1945, a Alemanha já havia sido derrotada na Europa, mas o Japão se recusava a se render no front do Pacífico. Diante da perspectiva de uma invasão militar em solo japonês, que poderia resultar em centenas de milhares de mortes entre soldados e civis, o governo dos Estados Unidos optou por outro caminho: o uso da recém-desenvolvida bomba atômica.
Assista aqui ao filme sobre esse dia trágico
O projeto Manhattan havia testado com sucesso sua primeira bomba em 16 de julho, no deserto do Novo México. Poucas semanas depois, o presidente Harry Truman aprovou o uso da arma nuclear em combate.
Na manhã de 6 de agosto de 1945, um bombardeiro B-29 modificado, batizado de Enola Gay — em homenagem à mãe do piloto, Paul Tibbets, lançou a bomba de urânio sobre a cidade de Hiroshima. A arma, chamada Little Boy, explodiu a cerca de 600 metros do solo, liberando uma energia equivalente a 15 mil toneladas de TNT.
A explosão devastou tudo em um raio de aproximadamente 8 quilômetros, destruindo 70% das edificações da cidade. Cerca de 80 mil pessoas morreram instantaneamente. Nos meses seguintes, outras 60 mil sucumbiram aos efeitos da radiação, queimaduras e ferimentos graves. Muitos morreram de leucemia, câncer e outras complicações causadas pela exposição prolongada.
Três dias depois, uma segunda bomba, Fat Man, foi lançada sobre Nagasaki. Em 15 de agosto, o Japão anunciou sua rendição, encerrando oficialmente a Segunda Guerra Mundial.
O ataque nuclear a Hiroshima permanece como um dos episódios mais trágicos e controversos da história moderna , uma lembrança permanente do poder destrutivo da tecnologia humana e da urgência da paz.
Neste 6 de agosto de 2025, enquanto o Japão presta homenagem às vítimas de Hiroshima e o mundo debate o risco crescente de novos conflitos armados, a voz de Neil Peart continua a soar como uma advertência artística e moral. A música do Rush não apenas lembra, ela pergunta. Convida. Provoca. Desestabiliza.
Porque, como nos ensinou Peart, recordar não é apenas revisitar o passado. É impedir, com arte e lucidez, que ele se repita.
Respostas de 2
Muito boa a lembrança desse disco e consequente história da Segunda Guerra Mundial. A arte ameniza, mais a brutalidade da guerra é e foi terrível.
Triste e brutal momento da história do mundo. Ainda que temos livros e artistas para lembrar e mostrar o quão é importante a luta pela paz.