Rush: a grande entrevista

Geddy Lee e Alex Lifeson abriram o coração em uma conversa rara com Rick Beato. Em quase uma hora de entrevista, falaram da nova turnê, de Anika Nilles, de Neil Peart, de clássicos como “2112”, “Xanadu”, “Tom Sawyer” e “Moving Pictures”, e da emoção de redescobrir as próprias músicas. Não por acaso, muitos fãs já tratam o vídeo como uma das conversas mais importantes sobre o Rush nos últimos anos. “Começamos a nos apaixonar de novo pelas nossas músicas”.

A volta do Rush aos palcos já seria, por si só, uma notícia capaz de bagunçar o coração de qualquer fã. Mas a entrevista publicada no canal do YouTube Everything Music Rick Beato foi além da curiosidade sobre repertório, além da escolha de Anika Nilles e além daquela pergunta inevitável sobre como a banda vai soar agora. Em quase uma hora de conversa, Geddy Lee e Alex Lifeson abriram uma fresta rara para dentro desse momento delicado, falando dos ensaios, das músicas que voltaram para a mesa, das memórias de estúdio e, principalmente, de como seguir tocando Rush sem transformar a ausência de Neil Peart em algo menor.

Geddy e seu baixo, uma história de amor

Para quem ama Rush, o ponto mais importante da entrevista não foi a revelação de que eles trabalharam uma lista enorme de músicas, nem as histórias deliciosas sobre “2112”, “Xanadu”, “Tom Sawyer” ou “Moving Pictures”. O momento que realmente segura a conversa pelo coração é quando Geddy fala sobre Anika sentar no lugar mais difícil do rock progressivo e deixa claro que essa volta não existe para substituir Neil. “Nada do que está acontecendo diminui a grandeza de Neil em um único milímetro”, disse Geddy.

Geddy não tenta vender uma fantasia confortável. Ele sabe que existe dor, sabe que existe resistência e sabe que uma parte dos fãs talvez nunca aceite completamente a ideia de ver Rush no palco com outra pessoa na bateria. “Algumas pessoas nunca vão nos perdoar por seguir em frente com outra pessoa”, afirmou o músico. A frase é forte justamente porque coloca em voz alta aquilo que muita gente sente, mas nem sempre consegue dizer sem brigar com a própria saudade.

Ao falar de Anika, Lee faz questão de deixar claro que ela aceitou esse lugar com coragem, confiança e respeito. “Quando você a ouve falar sobre Neil, ela realmente entende e aprecia a grandeza dele”, disse Geddy. A nova formação, pelo modo como ele apresenta a história, não nasce de arrogância, nem de pressa, nem de uma tentativa de fingir que está tudo normal. Nasce de reverência, trabalho e de uma vontade real de tocar aquelas músicas sem apagar a presença de quem ajudou a criá-las.

O eixo emocional da entrevista está justamente aí. Anika não aparece como uma substituta, porque isso seria impossível e, para qualquer fã de Rush, soaria errado desde o começo. Ela aparece como alguém que entrou em uma história enorme com plena consciência do peso daquela cadeira. Geddy descreve a baterista como “um talento incrível” e também como “uma grande pessoa”, mas talvez o elogio que mais pese seja outro. “Ela tem a atitude certa”, afirmou o baixista.

Memórias- Quando Rick pergunta se, depois de mais de dez anos sem tocar essas músicas, tudo volta por memória muscular, Geddy corta qualquer romantização. “Você precisa reaprender”, disse o músico. Ele explica que até uma música mais direta, como “Working Man”, exige que os dedos voltem ao lugar, porque lembrar os acordes não significa tocar com a mesma fluidez de antes. Para uma banda como o Rush, a música nunca foi só lembrança. Sempre foi corpo, mão, precisão e entrega.

Na prática, esse momento aproxima Geddy do leitor de um jeito muito humano. Estamos falando de uma das figuras mais importantes da história do baixo no rock, mas ele não fala como um mito intocável. Fala como um músico que precisa estudar, reconstruir caminhos físicos e respeitar o próprio repertório. “Quero que meus dedos se sintam felizes”, disse, explicando que primeiro precisa recuperar a segurança nas mãos para só depois acrescentar as partes vocais.

Também há humor nessa sinceridade. Ele lembra que, se um músico fica anos sem tocar uma canção, até consegue lembrar os acordes, mas pode se complicar quando chega em uma seção mais solta. “Se os seus dedos não estiverem soltos, você vai tocar feito um idiota”, disse o músico. A frase arranca sorriso, mas revela algo importante. O retorno não está sendo tratado como nostalgia automática. Está sendo tratado como trabalho.

Voltando ao som, uma das partes mais interessantes da conversa aparece quando “God” Lee comenta a importância da mão direita. Para ele, o timbre vem muito mais do músico do que do instrumento. O baixista lembra que, na última turnê, tocou 27 baixos diferentes e ainda assim continuou soando como ele mesmo. “Acho que o timbre de um músico vem dos dedos”, afirmou Geddy.

Amizade é a palavra que dá o tom emocional

Os primeiros anos- A entrevista ganha um sabor especial quando o músico volta aos primeiros anos e conta a história do seu primeiro amplificador Traynor. Ainda adolescente, ele comprou o equipamento com dinheiro adiantado pela mãe, depois de trabalhar na loja dela, e precisou levá-lo para casa com Alex, de metrô, ônibus e muito gelo em Toronto. “Como diabos vamos levar isso para casa?”, lembrou Geddy, reproduzindo a reação dos dois ao perceberem que não tinham pensado no detalhe mais prático da compra.

A cena tem algo de origem da própria banda. Antes das arenas, dos discos clássicos e da mitologia progressiva, havia dois garotos congelando e empurrando um amplificador pesado pelas ruas. O baixista ainda lembra do momento em que ligou o equipamento no quarto e sentiu o cheiro das válvulas esquentando. “Não consegui dormir a noite inteira”, contou, ao falar da empolgação de ver a luz do amplificador acesa.

No campo do repertório, o bate-papo entrega uma informação que deve deixar muito fã fazendo contas. Geddy conta que a lista inicial tinha cerca de 45 músicas e que, ao longo de quatro shows, a banda deve tocar 38. Mas o mais bonito não é o número. O mais bonito é a maneira como ele descreve o processo de voltar a essas canções. “Alex e eu começamos a nos apaixonar de novo pelas nossas músicas”, disse Geddy.

A frase talvez diga mais sobre a nova fase do que qualquer anúncio oficial. Não parece que Geddy e Alex estão voltando apenas porque existe demanda, nem porque o catálogo é forte o bastante para sustentar uma turnê. Eles parecem ter reencontrado prazer no processo. Quando Geddy fala dos ensaios com Anika e descreve os momentos em que tudo começa a se encaixar, o tom muda. “Isso vai ser tão divertido”, afirmou o músico.

A alegria não apaga a saudade e chega o ponto mais maduro da conversa. Geddy Lee fala de jovens fãs que se tornaram músicos depois do último show do Rush e que nunca tiveram a chance de ouvir essas músicas ao vivo. Ele reconhece a ausência que estará em cada apresentação. “Eles não são afortunados o bastante para ouvir Neil tocar essas músicas, mas vamos fazer o nosso melhor para deixá-los felizes”.

Agora, a preparação é completamente diferente de qualquer turnê anterior. Antes, quando o Rush saía em turnê, o foco era principalmente o material novo, porque as músicas antigas já estavam no corpo dos três. Agora, segundo ele, tudo começa praticamente do zero. “Estamos ensinando a uma baterista incrivelmente talentosa e empolgante como entender 40 músicas dessa banda estranha e idiossincrática”, afirmou.

Um detalhe raro muda completamente a leitura da escolha. Geddy diz que não houve uma grande seleção pública ou uma disputa de nomes para ocupar a bateria. “Ela foi a única baterista que nós consideramos”, disse o músico. A frase mostra que não se tratava de encontrar alguém famoso o bastante para suportar a comparação com Neil, mas de encontrar alguém com energia, respeito, personalidade e química.

No meio da conversa sobre ensaios, o vocalista mais icônico do rock conta uma cena ótima. Quando a banda acrescentou mais uma música ao repertório, Anika reagiu com humor ao tamanho da tarefa. “Meu disco rígido está cheio”, lembrou Geddy, reproduzindo a fala da baterista. A brincadeira funciona porque todo fã de Rush entende o tamanho dessa carga. Não é apenas aprender músicas. É entrar em uma linguagem cheia de acentos, viradas, climas, pedais, camadas e decisões que nasceram ao longo de décadas.

Alex chega de surpresa

E lá vem a surpresa…- A chegada de Alex Lifeson em cena muda imediatamente o clima. Ele aparece de forma inesperada, brinca com Geddy e a conversa ganha aquela energia de dois amigos que se conhecem há uma vida inteira. Esse lado afetivo importa muito, porque a volta do Rush não pode ser entendida apenas como uma decisão musical. Ver Geddy e Alex rindo, se provocando e completando um ao outro mostra que a amizade continua sendo parte central dessa história.

Lifeson fala sobre tênis, golfe, improviso e sobre seu jeito de tocar. Ele se descreve como alguém muito mais espontâneo, especialmente quando grava solos. “Não consigo passar de talvez cinco takes fazendo solos no estúdio”, disse. Segundo ele, depois disso a energia começa a ir embora, e é aí que a parceria com Geddy sempre fez diferença.

Geddy confirma essa dinâmica ao descrever Alex como um criador instintivo, capaz de tocar algo brilhante e seguir adiante antes mesmo de perceber o que tinha feito. “Ele é um gênio espontâneo”, disse Geddy. O baixista contou que aprendeu cedo a manter um gravador ligado sempre que escrevia com Alex, porque o guitarrista podia tocar um riff incrível e esquecê-lo minutos depois.

A dinâmica entre os dois é uma pequena aula sobre a engrenagem interna do Rush. Alex era a faísca, Geddy era o organizador e Neil entrava com a arquitetura lírica e rítmica. Geddy conta que muitas ideias nasceram porque ele rebobinava a fita e chamava o guitarrista de volta para algo que o próprio Alex já tinha deixado escapar. “Que riff?”, lembrava Geddy, imitando a reação do amigo quando era chamado a recuperar uma ideia recém tocada.

Rick Beato pergunta sobre as partes favoritas de um no trabalho do outro e o encontro fica ainda mais revelador. Alex escolhe “Marathon” como uma das grandes linhas de baixo de Geddy e elogia a presença da parte na música. “Acho que o baixo em Marathon é excepcional”, disse Alex. Ele explica que gosta especialmente quando Geddy está mais ativo e a guitarra sustenta acordes grandes, criando uma conversa musical em que cada um ocupa um espaço diferente.

Do outro lado, Geddy escolhe “Red Sector A” como uma das grandes criações de Alex. Ele lembra que o guitarrista estava em uma fase contrária ao grande solo tradicional de rock e encontrou outro caminho para prender o ouvinte. “Ele inventou uma maneira inteira de manter você capturado”, disse Geddy. Para ele, a parte funciona como um solo feito de acordes, tensões e agrupamentos de notas, mais emocional do que exibicionista.

O primeiro contrato– A troca ajuda a explicar por que o Rush soava tão grande sendo apenas um trio. Geddy diz que seu estilo de baixo não seria o mesmo se a banda tivesse quatro ou cinco integrantes. “Quando ele entra em um solo, eu preciso ser inventivo”, afirmou o baixista. Em outra ponta, quando Geddy cantava e tocava partes complexas, Alex precisava criar inversões, arpejos e texturas para preencher o espaço sem transformar tudo em excesso.

A entrevista também revisita fases fundamentais da banda. Geddy lembra que, no primeiro contrato, o Rush precisava entregar dois discos por ano, algo que hoje parece quase absurdo. “Fly by Night foi gravado e mixado em dez dias”, disse o músico. No décimo primeiro dia, a banda já estava viajando para tocar em Winnipeg, no meio de uma tempestade congelante, abrindo para uma apresentação que ele lembra como bastante improvável.

O trecho sobre “2112” é um dos mais fortes para entender a identidade da banda. Depois da recepção complicada de “Caress of Steel”, eles sabiam que estavam em risco. “O desemprego era uma possibilidade”, disse Geddy. Mesmo assim, eles fizeram um álbum que começava com uma faixa de 20 minutos, justamente quando muita gente esperaria uma tentativa mais segura de agradar a gravadora.

A virada não foi percebida de imediato por eles. Geddy diz que a banda amava “2112”, mas achava que a gravadora provavelmente odiaria ainda mais do que havia odiado “Caress of Steel”. “Se eles odiaram Caress of Steel, eles realmente vão odiar este”, lembrou. Só que o público reagiu de outro jeito, o boca a boca cresceu e o álbum mudou o rumo da banda.

A partir dali, segundo Geddy, a gravadora talvez ainda não entendesse exatamente o que o Rush estava fazendo, mas decidiu deixar os três seguirem. O detalhe resume uma ética que acompanharia o trio por toda a carreira. O Rush não sobreviveu jogando seguro. Sobreviveu porque dobrou a aposta quando tudo poderia dar errado. “Não entendo que diabos esses caras estão fazendo, mas deixem que façam”, lembrou Geddy, reproduzindo a postura que passou a cercar a banda depois de “2112”.

Todos juntos e muito bate-papo

Mudanças- Lee também fala muito sobre mudança. Ele diz que o Rush não gostava de se repetir e que, mesmo sem saber exatamente para onde estava indo, sabia que precisava ir. “Nós tínhamos que continuar avançando”, afirmou o músico. A frase atravessa a discografia inteira, do hard rock inicial ao progressivo, dos sintetizadores às fases mais diretas e depois aos discos mais pesados.

Falando dos fãs mais curiosos, Geddy Lee faz uma defesa admirável de quem acompanha uma banda sem exigir que ela permaneça congelada no tempo. Ele conta que, quando era jovem e ouvia Genesis, Yes, Led Zeppelin, Van der Graaf Generator e Strawbs, não descartava um disco novo apenas porque ele soava estranho de primeira. “Eu sentia que precisava ser paciente e tentar entender o que eles estavam dizendo agora”, disse o baixista.

“Tom Sawyer” aparece na entrevista de um jeito quase inacreditável, justamente por envolver a música mais conhecida do Rush. Geddy conta que a gravação foi tão difícil e tão cheia de problemas que, no fim do processo, ele estava cansado da canção. “Eu estava tão enjoado daquela música que não queria colocá-la no disco”, disse o músico. Imagine isso, leitor. A canção que se tornaria uma das maiores portas de entrada para o Rush quase ficou de fora de “Moving Pictures”.

“Moving Pictures”, aliás, surge como o grande ponto de equilíbrio da colaboração com Terry Brown. Geddy diz que ali a composição da banda e a produção se encaixaram perfeitamente. “Foi o melhor momento da nossa colaboração”, afirmou o baixista. O detalhe curioso é que o disco nem deveria ter acontecido naquele momento, porque o plano inicial era fazer um álbum ao vivo.

Ao falar de “Xanadu”, a conversa toca em um dos assuntos mais interessantes para entender o Rush clássico. Geddy explica que Terry Brown ensinou a banda a olhar para a música de uma perspectiva visual, quase como se fosse cinema. “Ele falava da posição dos instrumentos como se fosse um filme”, contou Geddy. A ideia ficou com os três e ajudou a moldar a maneira como construíam atmosferas e mudanças de cena dentro das músicas.

Geddy não usa exatamente a expressão rock cinematográfico, mas é disso que ele está falando. Ao comentar “Xanadu”, ele diz que a música foi pensada com esse tipo de linguagem visual. “Quando chegamos a Xanadu, ela foi muito construída assim, de uma perspectiva cinematográfica”, disse o músico. Para uma banda que sempre pareceu criar paisagens dentro das canções, a definição é preciosa.

Talvez uma das melhores imagens da entrevista apareça quando Geddy resume a ambição daquele período. Ele diz que o Rush queria ampliar seu som sem perder a força de banda de rock. “Foi quando decidimos que queríamos ser a menor orquestra sinfônica do mundo”, afirmou o baixista. Mas ele faz questão de completar que a ênfase precisava continuar no rock, porque a complexidade, para o Rush, nunca deveria existir só para impressionar.

A definição talvez seja uma das melhores. O Rush queria ser grande como uma orquestra, visual como cinema e ainda assim pesado como rock. Geddy diz que, quando escreviam algo complexo, aquilo precisava ter propósito. “Tinha que ter um propósito visual cinematográfico ou ainda tinha que rockar”, afirmou o músico. A frase é simples, mas resolve muita discussão sobre o Rush.

“Vapor Trails” aparece em um momento mais delicado da conversa. Geddy fala do disco como um processo emocionalmente pesado, feito depois dos anos mais difíceis da vida de Neil. “Tivemos que lembrar como era ser uma banda de novo”, disse o baixista. Alex e Geddy trabalhavam na sala de controle, enquanto Neil ficava na sala principal com a bateria montada, tentando se reacostumar a tocar tanto.

A imagem que fica é de cuidado, não apenas de técnica. Geddy conta que, em certo momento, eles pensaram que talvez fosse injusto observar Neil através do vidro do estúdio. A ideia era dar a ele mais privacidade para tocar, errar, reconstruir e voltar ao corpo da banda. “Foi um projeto muito difícil por todas essas razões”, afirmou o músico, lembrando que o álbum levou cerca de um ano para ser construído.

No fim, a entrevista com Rick Beato deixa uma sensação rara. Ela não funciona apenas como aquecimento para uma turnê, nem como celebração nostálgica de uma carreira gigantesca. Funciona como um retrato de dois músicos tentando explicar ao fã, e talvez a si mesmos, como é possível voltar a tocar Rush depois de perder Neil Peart. Geddy Lee e Alex Lifeson não fingem que tudo voltou ao normal, e essa honestidade é justamente o que torna a conversa tão forte.

Para o fã, a grande pergunta que atravessa tudo não é apenas quais músicas estarão no repertório. Também não é se “YYZ” ainda está no dedo, se “Tom Sawyer” vai estar lá ou quantas fases da banda serão representadas. A pergunta maior é se ainda existe alegria em tocar Rush. Pelo jeito como Geddy fala dos ensaios, de Anika, de Alex e das músicas que eles voltaram a amar, a resposta parece ser sim. E, para quem ama essa banda, depois de tanta ausência e tanta saudade, isso já é uma notícia imensa.

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