Há 22 anos, Neil Peart apertou a mão de um ídolo: só depois percebeu que era Charlie Watts; um encontro lendário nos bastidores do rock, marcado por surpresa, reverência e bom humor
No dia 30 de julho de 2003, há exatos 22 anos, o destino armou uma das cenas mais curiosas e emocionantes dos bastidores do rock. Foi nessa data que Neil Peart, lendário baterista do Rush, conheceu pessoalmente um de seus maiores ídolos — e, num daqueles momentos que só o universo da música pode proporcionar, simplesmente… não o reconheceu.
O encontro aconteceu no Molson Canadian Rocks for Toronto, festival beneficente que reuniu mais de 400 mil pessoas para levantar o astral e a economia da cidade após o surto de SARS. No line-up, pesos pesados como AC/DC, Guess Who, os próprios Rolling Stones e, claro, o Rush.
Minutos antes de subir ao palco, Peart estava concentrado, fones nos ouvidos, imerso em sua tradicional preparação ritualística. Foi então que um senhor baixinho se aproximou, estendendo a mão e dizendo algo inaudível. Sem perceber de quem se tratava, Neil tirou o monitor de ouvido e respondeu, com toda a educação canadense possível.

“Desculpa, não ouvi o que você disse.”
Veio a resposta, com um sorriso tranquilo:
“Olá, sou Charlie Watts.”
Sim, ele mesmo. O discreto e elegante baterista dos Rolling Stones. Neil ficou atônito. “Oh!”, disse, num misto de susto e reverência, apertando a mão do ídolo que acabara de se materializar diante dele. E o inglês, com aquele charme de lorde britânico e um brilho nos olhos, completou:
“Vou assistir vocês!”
Peart, que sempre buscava o mais alto nível de concentração antes de qualquer apresentação, admitiu depois que poderia ter surtado com aquele comentário — afinal, era Charlie Watts ali, ao lado do palco, pronto para vê-los tocar. Mas como ele mesmo contou em seu livro Traveling Music, já estava no “nível máximo de intensidade”. Não havia espaço para pânico adicional.
A apresentação do Rush naquela noite foi marcada por problemas técnicos, mas nada que apagasse o brilho do encontro. Durante o show, ao tocar uma versão instrumental de “Paint it Black”, Neil lançou um olhar para o lado do palco. Mas Charlie já tinha partido. Tinha visto e ouvido o suficiente — e, ao que tudo indica, aprovado.
Veja como foi o show do Rush no Sarstock, em Toronto.
Dias depois, em um e-mail carinhoso, Geddy Lee relembrou o episódio com bom humor. “Aliás, nunca vou esquecer aquele momento antes de entrarmos no palco, quando Charlie Watts veio apertar sua mão (no pior momento possível!), e ver seu rosto passando por todas as expressões possíveis… a. quem é esse velhinho? b. o que ele quer? c. ah, pelo amor de Deus, é o Charlie Watts!”
É dessas histórias que o rock é feito, encontros improváveis, ídolos se tornando reais, e até mesmo lendas como Neil Peart sendo pegos de surpresa — como qualquer fã mortal. Hoje, duas décadas e dois anos depois, a lembrança continua viva, como um aperto de mão que cruzou gerações, batidas e corações.
SARSTOCK 2003– Toronto ainda se recuperava da epidemia mortal de SARS, que havia impactado severamente a economia local. Assim que a Organização Mundial da Saúde declarou o surto global contido e suspendeu os alertas de viagem para a maior cidade do Canadá, começaram imediatamente os esforços para trazer as pessoas de volta a Toronto — e um dos maiores eventos musicais do país nasceu.

No dia 30 de julho de 2003, Toronto viveu um daqueles momentos que entram para a história não apenas pela grandiosidade, mas pela força simbólica. Entre 450 mil e 500 mil pessoas ocuparam o Downsview Park para um espetáculo que uniu música, solidariedade e esperança. Oficialmente chamado de Molson Canadian Rocks for Toronto, o evento entrou para a memória coletiva como SARSstock, ou simplesmente SARSfest, e se consagrou como o maior show já realizado em solo canadense.
A cidade ainda se recuperava do impacto do surto de SARS, e o festival veio como um abraço coletivo. Mais que entretenimento, era um gesto de apoio aos trabalhadores da saúde e ao setor de hospitalidade, tão afetados pela crise. E que forma de fazer isso: com um line-up de peso.
A festa teve o toque especial do anfitrião Dan Aykroyd, ao lado de Jim Belushi e Catherine O’Hara, garantindo ainda mais carisma ao palco. Os Rolling Stones, donos da noite, dividiram o palco com nomes como AC/DC, Justin Timberlake, The Guess Who, a talentosa Kathleen Edwards, o clássico Blue Rodeo e, claro, o orgulho canadense: Rush.
Os portões se abriram às 8 da manhã e, dali em diante, Toronto vibrou sem parar até o amanhecer. Gente de todas as idades encarou o calor e a maratona musical como quem sabia estar vivendo um capítulo especial da história. E para quem não pôde estar lá, o evento foi transmitido ao vivo para todo o país, levando a energia do parque a milhões de lares.
Mais que um festival, o SARSstock foi um recomeço. Um gesto coletivo que misturou rock, suor, emoção e resiliência — e que, mais de duas décadas depois, ainda ecoa como o dia em que a música ajudou uma cidade inteira a se reerguer.