O Rush está voltando, mas a história por trás desse retorno é maior do que uma turnê. Em uma entrevista reveladora para a revista Guitar World, Geddy Lee e Alex Lifeson contam como a música voltou a chamar, como a ausência de Neil Peart continua presente e como Anika Nilles entrou no lugar mais delicado do palco com respeito, talento e coragem.
Havia uma entrevista a caminho da edição de julho da revista Guitar World, mas o segredo não conseguiu ficar preso ao papel. O site Cygnus X-1 teve acesso ao conteúdo e disponibilizou a conversa, revelando algo que nenhum comunicado oficial conseguiria mostrar com a mesma força. A volta do Rush não começou em uma reunião de empresários, nem em uma planilha de turnê, nem em uma frase pensada para causar impacto nas redes sociais. Começou de um jeito mais íntimo e mais perigoso para quem ama essa banda. Começou quando Geddy Lee e Alex Lifeson, dois amigos atravessados pela perda, pela idade, pela memória e por uma vida inteira de música, voltaram a tocar juntos sem saber direito se aquilo era apenas saudade ou se já era o primeiro passo de uma nova história.

A entrevista, conduzida por Joe Bosso, tem esse valor raro. Ela não vende uma volta como se fosse um produto brilhando na vitrine. Ela mostra a costura por dentro. Mostra o riso, a hesitação, o medo, a saúde cobrando seu preço, os dedos tentando lembrar caminhos antigos, a sombra amorosa de Neil Peart sobre cada decisão e a pergunta que ninguém poderia tratar com leviandade. Como seguir tocando Rush quando o homem que ocupava o centro rítmico, poético e espiritual daquela engrenagem não está mais ali?
Geddy Lee não foge dessa pergunta. Pelo contrário, ele a coloca no meio da sala, do jeito mais direto possível. “Como você pede a alguém para substituir um cara que é insubstituível?”, disse ele. A frase carrega o peso de tudo. Neil Peart não era apenas o baterista do Rush. Era uma das três colunas de uma construção que, por mais de quatro décadas, pareceu impossível de separar. Seu jeito de tocar, suas letras, sua disciplina e sua postura diante da vida criaram uma espécie de pacto silencioso com os fãs. Por isso, qualquer volta do Rush depois de Neil teria de nascer com cuidado. Não poderia parecer pressa. Não poderia parecer oportunismo. Não poderia parecer esquecimento.
E talvez seja justamente por isso que a história contada por Geddy e Alex emocione. Porque ela não começa com ambição. Começa quase sem querer. Geddy terminou seu terceiro livro, olhou para os baixos espalhados pelo estúdio e sentiu que aqueles instrumentos estavam cobrando alguma coisa dele. “Eles estavam me fazendo sentir muito, muito culpado”, contou. A frase tem humor, mas também tem confissão. Depois de anos escrevendo, olhando para trás e reorganizando a própria vida, a música voltou a chamar pelo corpo. Não era uma ideia grandiosa. Era o dedo na corda, a mão tentando recuperar firmeza, a memória muscular acordando depois de um longo silêncio.
Alex entrou nessa história do jeito que amigos antigos entram nas coisas importantes. Sem cerimônia. Ele e Geddy já se encontravam para jantar, conversar, tomar café, manter viva uma amizade que nunca precisou de palco para existir. Um dia, começaram a tocar. Primeiro, jams soltas. Depois, pedaços de músicas do Rush. E, quando perceberam, estavam rindo dos próprios tropeços, tentando lembrar passagens difíceis, se desafiando como dois garotos que conhecem bem demais o tamanho do brinquedo que têm nas mãos. “Não existem as mais fáceis”, brincou Geddy, quando o assunto foi escolher uma música simples do Rush para recomeçar.
Esse detalhe diz muito. Porque o Rush nunca foi uma banda de caminhos simples. Mesmo quando parecia direto, havia ali uma arquitetura cheia de curvas, viradas, pausas, tensões e pequenos sustos. Tocar Rush exige mais do que lembrar notas. Exige entrar outra vez no mecanismo vivo da banda, onde baixo, guitarra e bateria sempre conversaram como três inteligências em movimento. Por isso, quando Geddy e Alex começaram a sair dessas sessões com um sorriso meio envergonhado, a pergunta ficou pairando. Eles estavam apenas se divertindo ou estavam, sem admitir, se empurrando de volta para a estrada?
Para Alex Lifeson, essa pergunta era ainda mais delicada. Ele já havia dito que a vida de turnê tinha ficado para trás. Também enfrentava problemas de saúde. Depois de uma cirurgia para corrigir uma hérnia de hiato, passou a lidar com gastroparesia, uma condição que afeta o funcionamento do estômago e obrigou o guitarrista a mudar hábitos de forma radical. Álcool, cigarro, glúten, lactose e comida ruim ficaram fora da vida dele. Antes de pensar em palco, era preciso recuperar energia. Antes de encarar o mundo, era preciso voltar a confiar no próprio corpo.
Por isso, quando Alex diz que precisou ser convencido, a frase não soa como pose. Soa como verdade. Ele não estava apenas decidindo se queria tocar de novo. Estava medindo se conseguiria atravessar uma turnê desse tamanho com dignidade, saúde e alegria. Aos poucos, porém, algo mudou. As músicas começaram a voltar. Os dedos encontraram seus lugares. A velha conversa musical com Geddy reapareceu. “Foi naquele momento que percebi que, sim, isso seria uma coisa boa”, afirmou.
Mas ainda faltava o ponto mais sensível. A bateria. O lugar de Neil. O trono, como Geddy chama, não poderia ser ocupado por alguém escolhido ao acaso. Também não poderia ser entregue a alguém disposto apenas a imitar. Era preciso encontrar uma pessoa capaz de respeitar aquelas partes sem virar cópia, capaz de entender a alma das músicas sem tentar vestir a pele de outro músico. Foi nesse espaço quase impossível que surgiu Anika Nilles.
Baterista alemã, compositora, produtora, educadora musical e instrumentista de alto nível, Anika não entrou na história como personagem decorativo de uma nova fase. Entrou como desafio e possibilidade. Ela conhecia o peso do Rush, conhecia “Tom Sawyer”, sabia quem era Neil Peart, mas não era uma fã íntima da banda. Esse detalhe, que poderia parecer um obstáculo, talvez tenha ajudado. Anika não chegou carregando uma devoção paralisante. Chegou com respeito, técnica, curiosidade e trabalho.
Geddy e Alex pediram que ela aprendesse algumas músicas clássicas e viesse tocar. Não chamaram aquilo de audição. Preferiram tratar como encontro. Durante quatro dias, tocaram, observaram, ajustaram, sentiram. A técnica estava lá. As viradas estavam lá. Mas faltava saber se havia algo além da execução. Geddy foi preciso ao explicar o que estava em jogo. “Há muito mais em tocar uma música do Rush do que as viradas. É o sentimento. São as nuances.”
Emoções- Essa é uma das frases mais importantes da entrevista. Porque resume o que separa o Rush de uma simples demonstração de virtuosismo. A banda sempre foi técnica, claro. Mas sua grandeza nunca esteve apenas na dificuldade. Esteve no modo como a dificuldade virava linguagem. No modo como uma mudança de compasso podia carregar drama. No modo como uma linha de baixo podia empurrar uma ideia. No modo como uma virada de bateria podia parecer pensamento em estado físico. Anika precisava alcançar esse território.
No quinto dia, segundo Geddy, ela alcançou. Não como quem encerra uma busca para sempre, mas como quem abre uma porta. “Ela processou tudo e entregou”, disse ele. Foi ali que Geddy e Alex perceberam que tinham um novo problema. Antes, a dúvida era saber se existia alguém capaz de sentar naquele lugar com respeito. Agora, a dúvida era aceitar que essa pessoa havia aparecido. E, se ela havia aparecido, o retorno deixava de ser fantasia. Virava compromisso.
A presença de Anika também conversa com este tempo de uma maneira poderosa. Ver uma mulher assumindo a bateria ao lado de Geddy Lee e Alex Lifeson, em uma das bandas mais reverenciadas da história do rock, tem força simbólica evidente. Muitas bateristas e musicistas ao redor do mundo se verão de algum modo naquele palco. Geddy sabe disso, mas faz questão de colocar a escolha no lugar correto. “Não contratamos Anika Nilles porque ela é mulher. Nós a contratamos porque ela é uma baterista incrível”, afirmou. A frase é necessária. Celebra o significado da presença dela sem diminuir o mérito que a levou até ali.
A nova formação ainda terá Loren Gold nos teclados, e esse dado também ajuda a entender o espírito da volta. O Rush não está tentando fingir que nada mudou. Não volta como trio, não volta como reprodução de museu, não volta como se o tempo tivesse sido suspenso em 2015. Geddy deixa claro que este é outro momento. A música será tratada com respeito, mas o palco terá outra configuração, outra respiração, outra imagem. Isso talvez seja o mais honesto a fazer. O passado não volta inteiro. Mas pode ser honrado sem ser congelado.
A turnê Fifty Something, que começou como uma ideia relativamente contida, cresceu depressa. A primeira leva de shows esgotou quase imediatamente. Novas cidades foram acrescentadas, depois outras, até a jornada ganhar proporções muito maiores, passando por América do Norte, América do Sul e Europa. Alex disse que a reação foi surpreendente. Geddy reconheceu que eles sabiam do desejo dos fãs, mas não esperavam algo tão avassalador. Quem ama Rush, porém, entende essa resposta. Não é apenas vontade de ver uma banda antiga. É vontade de reencontrar uma parte da própria vida.
Rush nunca foi só repertório. Para muitos fãs, foi formação. Foi companhia na adolescência, refúgio na vida adulta, escola de instrumento, convite ao pensamento, abrigo para quem se sentia deslocado. Geddy Lee, Alex Lifeson e Neil Peart criaram uma música que tratava o ouvinte como alguém capaz de prestar atenção. O Rush falava de liberdade, medo, tecnologia, solidão, escolhas, perda, imaginação e persistência sem facilitar demais a conversa. Por isso criou uma lealdade tão profunda. Quem entrou nesse universo não entrou apenas para cantar refrão. Entrou para morar.
Está aí o motivo para que a volta mexa tanto com a gente. Ela não apaga a dor da ausência de Neil. Também não tenta resolver o impossível. O que ela faz é outra coisa. Ela permite que aquelas músicas respirem novamente diante de uma plateia que sabe exatamente o que está vendo. Haverá saudade em cada aplauso. Haverá comparação, claro. Haverá emoção, dúvida, expectativa e talvez lágrimas. Mas também haverá vida. E vida, quando se fala de uma banda que parecia definitivamente encerrada, já é muita coisa.
O que mais chama atenção na entrevista da Guitar World é que Geddy e Alex não aparecem como homens tentando fabricar uma grande narrativa heroica. Eles aparecem como dois músicos que voltaram a sentir prazer em tocar juntos. Dois amigos que riram, hesitaram, se assustaram com a própria vontade e descobriram que ainda havia fogo embaixo das cinzas. Antes de dizer ao mundo que o Rush voltaria, eles precisaram dizer isso um ao outro sem palavras. Precisaram ouvir a música responder.
No fundo, talvez essa seja a notícia verdadeira. O Rush não voltou porque encontrou uma maneira de substituir Neil Peart. Isso seria impossível e, mais do que isso, seria injusto. O Rush voltou porque Geddy Lee e Alex Lifeson descobriram que ainda podiam tocar através da ausência dele. Voltaram porque a amizade sobreviveu ao silêncio. Voltaram porque as músicas continuaram chamando. Voltaram porque, às vezes, a memória não quer ficar parada numa prateleira. Ela quer fazer barulho outra vez.
E quando uma banda como o Rush faz barulho outra vez, não é apenas uma turnê que começa. É uma conversa antiga que se reabre. Com saudade, com respeito, com medo, com coragem e com aquele tipo de emoção que só aparece quando a gente percebe que certas histórias não terminam exatamente onde pensávamos. Elas apenas esperam o momento certo para voltar a respirar.