Há 11 anos, o Rush subia ao palco em Tulsa para iniciar a R40. Na hora, parecia festa. Hoje, sabemos que era o começo da despedida mais emocionante da história da banda.
No calendário dos fãs do Rush, 8 de maio nunca mais foi uma data qualquer. Há 11 anos, em 2015, Geddy Lee, Alex Lifeson e Neil Peart subiam ao palco do BOK Center, em Tulsa, Oklahoma, nos Estados Unidos, para iniciar a R40 Live Tour. Naquela noite, o público via nascer uma celebração grandiosa dos 40 anos da formação clássica da banda. Só que o tempo, com a dureza que às vezes ele tem, transformou aquele começo em outra coisa. Hoje, a gente olha para Tulsa e entende que ali se abria a última grande estrada do Rush com Neil Peart.
Ninguém queria chamar aquela turnê de despedida. Nem a banda, nem os fãs, nem quem acompanhava cada notícia, cada foto e cada vídeo tremido que começava a aparecer na internet depois do show. A R40 parecia, antes de tudo, uma festa. Era o Rush olhando para a própria história com orgulho, humor e uma inteligência cênica rara. Mas havia ali uma emoção escondida, dessas que só ficam claras quando a vida passa e muda o sentido das imagens antigas.
A grande sacada da turnê era simples e genial. Em vez de contar a história da banda do começo para o fim, Geddy, Alex e Neil fizeram o caminho inverso. O show começava no Rush mais recente, com o universo de Clockwork Angels, e ia voltando no tempo, como se alguém estivesse girando a fita ao contrário. Cada bloco abria uma porta para uma fase anterior. O público passava pelos anos 2000, pelos anos 90, pelos sintetizadores dos anos 80, pelo rock progressivo grandioso dos anos 70 e, no fim, chegava ao som cru do primeiro álbum, quando tudo ainda tinha cheiro de garagem, amplificador no limite e juventude correndo solta.
A R40 não era uma simples coletânea de sucessos. Era uma autobiografia tocada de trás para frente. Uma máquina do tempo feita com riffs, luzes, lembranças e pequenas brincadeiras de palco. O Rush nunca foi uma banda de olhar para o passado de qualquer maneira. Mesmo quando resolveu revisitar a própria história, fez isso com conceito, inteligência e cuidado. A turnê parecia dizer aos fãs que aquela trajetória tinha sido longa, improvável e cheia de beleza, mas também tinha um ponto de chegada.
A cenografia ajudava a contar essa viagem. Primeiro, o palco aparecia carregado de referências ao mundo steampunk de Clockwork Angels, com máquinas, engrenagens e aquela sensação de um futuro imaginado por alguém do passado. Depois, enquanto o repertório recuava, o cenário também ia mudando diante da plateia. Roadies entravam em cena, equipamentos eram trocados, estruturas desapareciam e símbolos antigos voltavam. O ambiente moderno dava lugar a amplificadores Marshall, biombos clássicos e elementos que pareciam saídos de outra década.
No bis, a mágica se completava. Depois de atravessar 40 anos em pouco mais de duas horas, o Rush parecia caber de novo num ginásio de escola. Amplificadores em cima de cadeiras, um globo espelhado simples no teto e aquela sensação de volta ao começo. Era como se Geddy, Alex e Neil estivessem dizendo, sem precisar explicar, que antes de tudo aquilo havia apenas três caras tentando fazer rock do jeito mais honesto possível.
A primeira noite em Tulsa trouxe também aquele tipo de surpresa que faz fã perder o ar. Jacob’s Ladder voltou ao repertório depois de décadas fora dos palcos. Xanadu apareceu com as guitarras de braço duplo, ressuscitando uma imagem clássica da banda diante do público. Mais tarde, ao longo da turnê, Losing It finalmente ganharia sua estreia ao vivo, depois de mais de 30 anos guardada no imaginário dos fãs. Cada escolha parecia ter um motivo. Nada estava ali apenas para preencher espaço. A R40 foi pensada para quem conhecia cada dobra daquela história.
O que torna essa lembrança ainda mais forte é saber o que havia por trás daquela turnê. Geddy e Alex ainda tinham vontade de seguir. Neil, porém, já sentia no corpo o preço de uma vida inteira na estrada. As dores, a tendinite, o cansaço e o desejo de estar mais perto da família falavam cada vez mais alto. Ele nunca foi um músico comum. Para Neil, tocar bateria no Rush sempre foi uma entrega quase absoluta, física, mental e emocional. Quando o corpo começou a cobrar essa conta, a estrada deixou de ser apenas aventura e passou a ser também sacrifício.
Por isso, olhar hoje para 8 de maio de 2015 mexe tanto com os fãs. A gente sabe o que viria depois. Sabe que aquela seria a última turnê dos três juntos. Sabe que o último show aconteceria poucos meses depois, em Los Angeles. Sabe também que Neil, sempre tão reservado, quebraria seu velho hábito de sair discretamente e iria à frente do palco para abraçar Geddy e Alex. Uma cena rápida, quase tímida, mas que acabou dizendo mais do que qualquer discurso.
Naquela primeira noite, porém, nada parecia encerrado. A plateia via uma banda afiada, poderosa, cheia de humor e ainda capaz de tocar peças dificílimas com uma precisão impressionante. Era difícil acreditar que aquela máquina humana estivesse perto de parar. Geddy seguia equilibrando baixo, voz e teclados como quem comandava um painel de nave espacial. Alex continuava tirando da guitarra aquele misto de peso, elegância e ironia que sempre foi só dele. Neil, atrás da bateria, mantinha a postura de arquiteto do impossível, conduzindo tudo com força, cálculo e emoção contida.
Mesmo assim, havia uma sombra delicada sobre a R40. Não era tristeza aberta. Não era clima de fim anunciado. Era algo mais sutil. Uma sensação de que cada música carregava uma camada a mais de significado. The Spirit of Radio já não era apenas um hino sobre liberdade. Subdivisions parecia falar também sobre tempo, distância e pertencimento. Roll the Bones ganhava outro gosto quando lembrava que a vida distribui cartas que ninguém controla. Working Man, no encerramento, deixava de ser apenas uma canção antiga e virava quase uma volta ao primeiro suspiro da banda.
Muitos fãs acompanharam aqueles primeiros sinais de longe, por relatos, fóruns, vídeos ruins de celular e transmissões improvisadas. A imagem tremia, o som estourava, alguém cantava alto demais perto do microfone, mas nada disso importava. Para quem amava o Rush, cada fragmento tinha valor. Um pedaço de Xanadu aqui, um trecho de Jacob’s Ladder ali, uma foto do palco desmontado, um comentário emocionado de quem tinha acabado de sair da arena. Aos poucos, o mundo dos fãs entendia que aquela turnê era diferente.
Com o passar dos anos, a R40 ficou ainda maior porque encontrou uma maneira muito Rush de se despedir. Não houve sentimentalismo barato. Não houve um grande aviso dizendo que o fim estava próximo. A banda preferiu fazer o que sempre soube fazer melhor. Pensou uma ideia, construiu um conceito e transformou tudo em música. A despedida estava na ordem das canções, na desmontagem do palco, nas imagens antigas, nos instrumentos clássicos e naquela sensação de retorno às origens.
A R40 foi uma carta de amor escrita de trás para frente. Começava com a banda madura, experiente, marcada por perdas, renascimentos e reinvenções. Terminava com o Rush ainda jovem, direto, cheio de vontade e sem saber o tamanho da estrada que teria pela frente. Ao inverter a própria história, Geddy Lee, Alex Lifeson e Neil Peart fizeram mais do que revisar uma carreira. Eles deram aos fãs a chance de caminhar com eles até o começo, como se fosse possível, por uma noite, enganar o tempo.
Há 11 anos, naquela noite em Tulsa, o Rush começava a percorrer sua última estrada com Neil Peart. Na hora, o que se via era festa, potência e gratidão. Com o passar do tempo, aquela apresentação ganhou outra luz. Ficou como o primeiro capítulo de um encerramento que ninguém queria nomear. E é por isso que essa data continua mexendo tanto com quem ama a banda. Porque, às vezes, a despedida não vem em forma de adeus. Ela vem em forma de show, de música, de memória e de três amigos tocando juntos enquanto ainda podiam.
Set List- 08 de maio de 2015
Set 1
Clockwork Angels
The Anarchist
Headlong Flight
Far Cry
The Main Monkey Business
One Little Victory
Animate
Roll The Bones
Distant Early Warning
Subdivisions
Set 2
Tom Sawyer
Red Barchetta
The Spirit of Radio
Jacob’s Ladder
Cygnus X-1 Book Two: Hemispheres – Prelude
Cygnus X-1 Book One – The Voyage: Part 1
Drum Solo
Cygnus X-1 Book One – The Voyage: Part 3
Closer To The Heart
Xanadu
2112 Overture/The Temples of Syrinx/Presentation/Grand Finale
Encore
Lakeside Park
Anthem
What You’re Doing
Working Man