Hugh Syme e o universo visual do Rush: uma entrevista exclusiva

Hugh Syme, o criador do lendário logotipo Starman e responsável por dar forma ao universo visual do Rush, conversou com exclusividade com o RushBrasil.com; ele revelou inspirações, memórias e bastidores da icônica capa de Caress of Steel — incluindo o misterioso The Necromancer, tema de nossa recente matéria

Poucos artistas tiveram um vínculo tão duradouro e profundo com o universo do Rush quanto Hugh Syme. Canadense vencedor do Juno Award e membro da Premier Artists Collection (PAC), Syme é o criador de algumas das imagens mais icônicas da história do rock — entre elas, o famoso logotipo Starman, que se tornou símbolo definitivo da banda. Desde Caress of Steel, em 1975, suas artes e conceitos visuais ajudaram a traduzir em imagens a ousadia filosófica e musical do trio canadense.

Hugh Syme: o quarto Rush

Sua base de clientes inclui algumas das maiores gravadoras do mundo, como Geffen Records, EMI Records, Mercury Records, RCA Records, Capitol Records, Sony Music, Atlantic Records, Warner Records e A&M Records. Mas foi no Rush que encontrou sua parceria mais marcante: além das capas memoráveis, Syme também contribuiu como músico, assumindo os teclados em faixas de diferentes álbuns da banda.

Em conversa exclusiva com o RushBrasil.com, Hugh Syme falou sobre suas inspirações, suas influências artísticas e a liberdade criativa que sempre encontrou trabalhando com Geddy Lee, Alex Lifeson e Neil Peart. O ponto de partida para esse diálogo foi justamente a matéria especial que publicamos recentemente sobre a figura batizada como The Necromancer, personagem central da capa de Caress of Steel. O artigo chegou ao conhecimento do artista, criando uma ponte natural para esta entrevista inédita.

E ele confirma o que provocamos no artigo: realmente a obra de Michelangelo foi inspiração para a capa!

Mais do que um designer, Hugh Syme pode ser considerado o quarto integrante visual do Rush. Aquele que, com traços e conceitos, ajudou a construir o imaginário que acompanha a música e a filosofia da banda há cinco décadas. Confira o bate-papo.

 

RushBrasil.com- Você costuma mencionar grandes mestres da arte, como Michelangelo, Vermeer, Dalí e Escher. Como essas influências se manifestaram diretamente nas capas que você criou para o Rush?

Hugh Syme– Esses artistas específicos, embora há muito tempo sejam uma inspiração e favoritos meus ao longo da vida — não ditam nem sugerem quaisquer soluções visuais diretas ou intencionais para (qualquer) arte que eu tenha criado, por assim dizer. Como compositores que desfrutaram e absorveram os estilos e influências osmóticas de seus músicos favoritos em sua própria abordagem de escrever uma canção — isso faz parte daquele reservatório do inexplicável do qual, sem querer, recorremos… assim como todos nós temos memória muscular sobre as obras de arte, imagens e músicas com as quais entramos em contato.    Vivendo no Reino Unido, e tão perto da Europa enquanto frequentava a The Bede Grammar School for Boys nos anos 60, meus pais e eu visitaríamos a França e a Itália em muitas ocasiões. Estando maravilhado como eu estava, na tenra idade de 12, depois 13, depois 14, e tão impressionado pelas obras prolíficas e profundas de Michelangelo (entre tantos outros)… simplesmente pareceu certo para este (então) jovem de 18 anos, quando contratado pelo Rush… retratar o Necromante da capa de Caress Of Steel do Rush, para que eu pudesse prestar homenagem a essas obras clássicas de minhas viagens. Não surpreendentemente — a pose e o impacto da escultura de Michelangelo Slodtz de São Bruno (1744) foram uma inspiração para a figura que vemos na capa do Rush em 1975.
O fato de eu ter desenhado essa arte de capa a lápis certamente nasceu do meu amor pelo meio e do meu respeito e conexão com as obras do consumado desenhista, M. C. Escher.

 

A ilustração da capa de Caress of Steel, feita a lápis

RushBrasil.com- A capa de Caress of Steel foi originalmente desenhada inteiramente a lápis. Como foi esse processo, e que memórias você guarda de um trabalho tão único em sua trajetória com a banda?

Hugh Syme-Isso foi bem no começo, quando a interação com os membros da banda era mínima. Nós tínhamos acabado de nos conhecer. Éramos uma aliança emergente — tanto na frente visual, quanto em como eventualmente trabalharíamos juntos na frente musical — onde tive a honra de ser convidado a contribuir com piano e teclados em alguns dos álbuns deles. (Obrigado, Terry, por esse convite).
Com o passar do tempo, foi uma evolução natural que o letrista da banda e eu colaborássemos em temas e possíveis direções… discutindo juntos a arte de capa. Dito isso — eu sempre fui grato por a banda nunca microgerenciar, nem se inserir no meu processo enquanto eu desenvolvia as artes de capa para eles. Essa liberdade foi algo que eu sempre apreciei — assim como a banda, eu me esforcei para: “Gotta deviate from the norm”.

RushBrasil.comO Rush sempre buscou conectar música, filosofia e artes visuais. Como você traduziu as letras de Neil Peart em imagens sem cair no óbvio ou no literal?

Hugh Syme-Literal foi justamente o elemento que nós firmemente evitamos. Um bom título (onde Neil sempre prevalecia, e sempre me mimava) era o ponto de partida perfeito para buscar a aparência e a sensação certas para cada projeto. O título e suas palavras. Mas, literal? Nunca.(ok, talvez “Counterparts” tenha tocado na noção de “literal”!)

RushBrasil.comEntre todas as capas que você criou para o Rush, existe alguma que considere subestimada ou mal compreendida pelo público?

Hugh Syme– Nunca pensei muito nisso. O teto de um homem é o chão de outro. Cada um responde à arte à sua maneira. E assim deve ser. Quanto a entender (ou não) minha arte para a banda — novamente, é uma questão de interpretação. Meu estilo de imagem — sempre aspirando a alcançar certo nível de “realidade improvável” — permite uma resposta orgânica e instintiva de cada um de nós.

RushBrasil.com– Como era sua dinâmica criativa com Neil, Geddy e Alex? Havia espaço para debates intensos ou eles confiavam totalmente em sua visão artística?

Hugh Syme- Na verdade, a última opção. Mais uma vez, um bom título e o conjunto de letras manuscritas de Neil (que ainda conservo e valorizo)… era tudo o que eu precisava e queria para começar. Então eu desaparecia por semanas/meses até estar pronto para mostrar a arte da capa aos caras. A dinâmica e a aliança perfeitas.

 

O Starman foi imortalizado como símbolo do Rush

RushBrasil.com– Muitas de suas capas dialogam com movimentos artísticos de séculos passados. Qual a importância da tradição da história da arte em seu processo criativo?

Hugh Syme- Como mencionei antes… boas ideias (musicais ou visuais) nascem de uma mente aberta e livre, à medida que essas inspirações acumuladas se firmam. Sim, essas influências musicais ou da história da arte fazem parte de nossa jornada. Mas esperamos que sejam muito periféricas ao processo de criar algo novo.

RushBrasil.com- Você acredita que as capas de álbuns ainda têm o mesmo impacto cultural que tinham nos anos 70 e 80, ou a era digital mudou completamente esse papel?

Hugh Syme-A forma como você colocou a pergunta… quase responde por si só. A menos que você seja daquela era de LPs ou CDs físicos… em que o cheiro do papel e da tinta nova eram parte importante da experiência de colecionar, desembrulhar e interagir com a música… o streaming não permite isso. Agora estão reduzidas a um quadrado de 2” no iTunes. Notadamente, cada vez mais músicos estão lançando seus projetos — tanto digitalmente quanto em vinil novamente. É impossível não amar aquela tela quadrada de 12”!

Livro lançado por Hugh Syme mostra o processo de criação e esboços sobre o Rush

RushBrasil.com-Olhando para trás, qual projeto do Rush foi o mais desafiador? Seja pela complexidade conceitual, prazos apertados ou riscos criativos envolvidos?

Hugh Syme Curiosamente, Signals.
A palavra “Signals”, aparentemente simples, mas desarmantemente intimidadora, estava tão aberta a interpretações. Seguimos por uma infinidade de becos sem saída na busca pelo visual certo para esse título. Imagens de Marconi. Tesla. O letreiro da RKO. Código Morse, etc. Todos caíram na sala de edição.
Se não fosse pela música “Subdivisions” e pelo meu envolvimento (na época) com os projetos icônicos de David Lynch, Twin Peaks e Blue Velvet (com suas alusões ao lado sombrio das aparentemente benignas subdivisões e bairros)… isso me ocorreu enquanto eu caminhava pela Yorkville Avenue, em Toronto, passando pelo corpo de bombeiros dali — fui impactado pelo hidrante vermelho característico de Toronto e pelo mascote dálmata dos bombeiros que vi ali. A arte da capa acabou surgindo como uma referência bem-humorada (if glib) de como os cães deixam e encontram “sinais” deixados ou contribuídos por outros cães.

RushBrasil.com- Além do Rush, você colaborou com outros artistas e bandas importantes. Mas o que torna o universo do Rush único em termos de liberdade criativa e profundidade artística?

Hugh Syme– Uma vez acostumado (ou mimado) pela relação de confiança e autonomia que tive com o Rush… passei a esperar o mesmo nas relações que desenvolvi com outras bandas ao longo da carreira. Me deem um bom título e me deixem em paz (!)

RushBrasil.com– Hoje, revisitando toda essa trajetória, como você gostaria que sua arte fosse lembrada pelos fãs da banda e pelo público em geral?

Hugh Syme-Espero que, assim como a música que nos toca, a arte que a acompanha encontre um pequeno espaço em nossos corações coletivos, na história, ao lado da música.

RushBrasil.com- Os fãs brasileiros podem esperar que um dia você venha ao país? Talvez para participar de algum evento ou lançamento de uma de suas obras?

Hugh Syme-Infelizmente, fui convidado para o último RushFest aí — mas não pude comparecer. Mas, se vocês encontrarem uma galeria de arte brasileira interessada e descolada, disposta a desenvolver e sediar uma exposição individual comigo… eu certamente estarei aí!

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