Rush no Brasil em relato sobre os shows de 2002 e 2010 e o reencontro de 2027

Rush no Brasil: o jardim que continua vivo em mim

Do Morumbi ao Maracanã, das tatuagens às bandas, Sérgio Montenegro Filho relembra como o Rush deixou de ser apenas música para se tornar parte de sua própria história. Agora, com Anika Nilles na bateria e um novo encontro marcado para janeiro de 2027, ele se prepara para voltar ao jardim que Neil Peart ajudou a cultivar.

Sérgio Montenegro Filho
Jornalista, músico e fanático pelo Rush

É isso o que é, e seja como for.

Pois é. A tradução livre desse verso lindo de “The Garden” mostra, ao menos para mim, que o Rush jamais foi “simplesmente” uma banda de prog. Os shows do Rush no Brasil fazem parte de uma história que acompanho há quase 50 anos.

Com o perdão do clichê, o trio se tornou uma espécie de trilha sonora da minha vida, o fio que costurou memórias, amizades, viagens e até as tatuagens que carrego no corpo. Cada um dos quatro shows que vivi no Brasil não foi apenas um espetáculo, como tantos outros a que assisti. Todos se tornaram capítulos de uma narrativa pessoal, quase cinematográfica, que ainda pulsa em mim.

Rush no Brasil: do Morumbi ao Maracanã

Infelizmente, não tive como ir a Porto Alegre, no primeiro show, em 20 de novembro de 2002, testemunhado por cerca de 25 mil rushmaníacos. Mas, dois dias depois, estava no Estádio do Morumbi, em São Paulo, absolutamente lotado.

Cerca de 60 mil pessoas aguardavam a turnê de Vapor Trails. Era o maior público que o Rush havia reunido até então como atração principal. E havia mais: com a respiração suspensa, aqueles milhares de fãs esperavam o retorno de Neil Peart à bateria, após duas imensas tragédias familiares que o afastaram dos palcos por quase seis anos.

Junto comigo estavam meu irmão, Bruno “Bacalhau” Montenegro — que já estudava bateria, influenciado pelo Professor —, além de dois dos meus maiores amigos-irmãos até hoje: Ricardo Novelino, uma verdadeira enciclopédia do rock, e João Carvalho, hoje um dos maiores guardiões da memória do Rush, com este fodástico RushBrasil.com.

E, para deixar a cena ali, no pé do palco, ainda mais incrível, eis que surgem ao nosso lado os quatro integrantes do Sepultura, a maior banda brasileira de metal de todos os tempos.

Nem nós nem eles conseguimos esconder o choro quando as luzes se acenderam, o filminho de abertura terminou e o trio largou o hit dos hits: “Tom Sawyer”. É, a música que muita gente no Brasil associou à abertura do antigo seriado MacGyver, ajudando a popularizar um pouco mais a banda no país durante os anos 1980.

Era o peso do metal brasileiro se curvando ao virtuosismo do prog canadense. Meu irmão ali, parecendo meio abraçado a Igor, o batera do Sepultura, ambos às lágrimas, foi uma imagem inesquecível.

Se é que essa cena existiu exatamente assim.

E sei lá!

O que lembro muitíssimo bem é que, quando os três caras surgiram, aquele estádio lotado se transformou, para mim, em uma espécie de templo — The Temples of Syrinx, talvez.

Cada batida de Neil soava como um trovão na moleira. Cada linha de baixo de Geddy era uma lapada na minha cabeça. E, para completar, os solos de Alex estavam tão indescritíveis quanto a própria expressão estampada na cara dele, que parecia não acreditar na multidão diante do palco.

Ninguém estava apenas assistindo ao show. Estávamos fazendo parte da história.

Do Morumbi, partimos para um rápido cochilo no hotel e, de manhã cedo, pegamos o avião rumo ao Rio de Janeiro, para assistir ao segundo show.

O curioso é que não estávamos apenas nós quatro, fãs do Rush, naquele avião. Parecia mais uma peregrinação. Bastava observar as camisetas da banda envergadas por tantos passageiros.

No Maraca, haveria a gravação do DVD Rush in Rio, eternamente registrado. A própria banda destacaria depois a surpresa de escutar uma plateia inteira “cantando” nota por nota de “YYZ”. Afinal, tratava-se de uma música instrumental.

O episódio logo se repetiria com a também instrumental “La Villa Strangiato”, marcada ainda pelas palhaçadas de Alex. No meio da música, ele apresentou Peart como “Mr. Banana” e Geddy como “The Guy from Ipanema”.

Aí o baixista tascou o riff de “Garota de Ipanema”, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes.

Delírio total.

O rugido daquela multidão de aproximadamente 40 mil pessoas era impressionante. Um público menor que o do Morumbi, mas com uma energia tão intensa que acabou se tornando um dos registros mais marcantes da história da banda. Ao todo, os três shows brasileiros daquela turnê reuniram mais de 125 mil pessoas.

Tudo foi capturado para sempre em um dos melhores DVDs do Rush, na minha opinião. Afinal, era o Brasil “tirando um imenso atraso”, como escrevi na época, em uma matéria para o Jornal do Commercio, do Recife, onde trabalhava como jornalista.

Não se tratava apenas de um documento: era um testemunho. E nele, ali, meio invisível e muito imprensado na grade durante os poucos minutos que aguentei, testemunhei o Rush bem de perto.

Em outubro de 2010, viria o reencontro: novamente no Morumbi, em São Paulo, e depois na Praça da Apoteose, no Rio de Janeiro. Duas apresentações da Time Machine Tour.

Para mim, cada acorde trazia novas camadas de emoção. Neil, com sua precisão quase sobre-humana, parecia desafiar o tempo. Geddy e Alex, ainda dois meninos brincando no palco, tocavam como se estivessem nos bares do Canadá.

E eu, no meio da multidão, egoísta, sentia que cada nota era dirigida a mim — que, àquela altura, já tocava quase todo o repertório dos caras.

O jardim continua vivo

Mas então — e quem ia adivinhar? — viria Clockwork Angels, o último álbum de estúdio da banda, lançado em 2012.

Vista de hoje, a turnê que se seguiu parece mesmo carregar um tom de despedida. Mais tarde, depois do último show do trio, viria o diagnóstico da doença que levaria Neil Peart ao “outro lado”.

Na turnê de Clockwork Angels, porém, sua performance continuava impecável, com direito inclusive a um conjunto de cordas acompanhando a banda. Para quem assistiu àquele show em vídeo mais de mil vezes, já parecia existir certa solenidade em seus gestos, como se cada batida também pudesse ser um adeus.

“The Garden”, a canção que encerra o último álbum — uma das músicas mais lindas já escritas não apenas pelo Rush, mas pelo rock and roll em geral —, soava como um epílogo: aceitação, serenidade, transcendência.

Era uma serenidade parecida com aquela que Neil buscara como Ghost Rider, seguindo de motocicleta pela estrada, sozinho ou ao lado do fiel escudeiro Brutus. Não por acaso, “The Garden” encerrava o álbum e ocupava, no espetáculo, o lugar de um epílogo.

Claro que a passagem do Professor nos deixou todos órfãos do Rush. Por algum tempo, Alex e Geddy seguiram outros rumos, e nos restaram os álbuns e os vídeos do “polvo”.

Maaasss…

Para quase tudo sempre existe uma esperança. E você, que leu este artigo até aqui, saiba: é exatamente disso que se trata.

A esperança tem nome: Anika Nilles.

Esta baterista muito foda, que pouco conhecia a obra do Rush antes do convite, foi escolhida pelos dois malucos do pedaço, Geddy e Alex, para a Fifty Something Tour. A turnê já está em andamento e chegará ao Brasil em janeiro de 2027, celebrando a música e a história do Rush e prestando uma homenagem à vida e à obra de Neil Peart.

A própria Anika já contou que receber aquela ligação virou seu mundo de cabeça para baixo.

Ela sabe que Neil é insubstituível. O que pode fazer é honrar sua obra. Em algumas músicas, toca exatamente como o Professor escreveu, mantendo a integridade das composições. Em outras, abre espaço para improvisar, embora sempre com reverência.

E agora o meu futuro já tem data: janeiro de 2027, em São Paulo.

O ingresso está na mão, e a ansiedade pulsa como se fosse o primeiro show. Sei que o Professor não estará lá fisicamente. Mas estará em espírito.

Anika não chega como substituta, porque Neil não tem substituto. Está ali para tocar sua obra com respeito, energia e humildade. E isso basta, porque o Rush não é apenas sobre quem está no palco, mas sobre quem está na alma.

Geddy e Alex, já na casa dos 70 anos, ainda parecem dois garotos. E essa juventude é a prova de que a música não envelhece.

Trago há anos várias tatuagens do Rush no corpo. Mas, na verdade, foram eles que me tatuaram na alma.

A bruxa de “Witch Hunt”, o relógio de Clockwork Angels, o Inukshuk de Test for Echo, as notas de abertura de “Subdivisions”, a bússola de Owen Hardy, entre outras coisinhas, estão gravadas na minha pele.

Cada marca é uma lembrança.

Ainda adolescente, nos anos 1980, tive a “bela” ideia de fundar um fã-clube daqueles movidos a cartas, a partir da antiga revista Som Três. Chamava-se “Rush Signals Club”.

Só que deu ruim.

Eu jamais esperava a quantidade imensa de correspondências que começou a chegar. Algumas, nem tive como responder. Não imaginava o tamanho da comunidade de fãs do Rush que já existia naquela época no Brasil.

E nem eles…

Aos 15 anos, larguei o violão para estudar contrabaixo. O motivo nem precisa ser explicado.

Até hoje, nas minhas bandas, tenho Geddy Lee como maior inspiração, mostrando que os graves são, sim, a alma de qualquer música. Tudo isso com meus respeitos ao Professor Neil Peart, para mim hors concours em qualquer lista dos maiores bateristas do mundo.

Já Alex continua sendo injustiçado nessas listas.

Mas quem liga para listas?

É um guitarrista foda, que mostrou a todos que o segredo de um power trio como esse é justamente não haver um simples músico de base. São três solistas que se sustentam mutuamente.

O Rush mexeu comigo não apenas pelo som, mas pela coragem de mudar o som de uma época. Pela coragem de ser diferente, de pensar além e de jamais abrir mão disso, nem nos momentos de maior pressão das gravadoras.

É por isso que, no próximo show — e graças também a Anika Nilles —, o mestre Neil Peart estará lá, escrevendo mais um capítulo dessa história que, ao menos na minha vida, jamais terminará.

“Enterrei minhas sementes, cultivei-as com meu otimismo e cuidei do meu jardim. Vou colher o que mereço, e tudo tem seu motivo. É um bom jardim.” Neil Peart, em Os Anjos do Tempo.

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Respostas de 2

  1. Que belíssimo texto e me pegou! Interessante que todo fã do Rush tem uma ligação tanto musical quanto eapiritual com a banda, quase que parecendo um alento em dias ruins que era somente se conectar ao trio de amigos que tudo parecia ficar bem e em dias bons eles também estavam ali comemorando junto, difícil explicar. Pra mim ainda é um vazio que não pude ir nos shows (por motivos específicos e particulares) que parece uma chaga, mas que vai curar dessa vez. Sem o professor fisicamente mas de alma!

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