Na primeira noite da Fifty Something Tour no México, o público cantou YYZ em coro e reacendeu uma tradição que nasceu com os brasileiros em 2002, no Rush in Rio. O que começou no Maracanã agora ecoa pelo mundo.
O México cantou YYZ. E quem conhece essa história sabe que isso não é apenas mais um belíssimo detalhe de show. É quase um recado atravessando o tempo. Na noite desta quinta-feira (18), no Palacio de los Deportes, o Rush viveu a primeira apresentação mexicana da Fifty Something Tour e encontrou uma plateia pronta para transformar um instrumental em canto coletivo. Depois de 24 anos sem pisar no México, a noite foi uma catarse. Sem letra, sem refrão, sem voz principal. Só coração, memória e aquela melodia que o público brasileiro, lá em 2002, ensinou o mundo a cantar.
Foi assim no Maracanã, durante a turnê de Vapor Trails, quando Geddy Lee, Alex Lifeson e Neil Peart olharam para aquela multidão brasileira e perceberam que havia algo novo acontecendo. YYZ, uma música nascida de código, precisão e virtuosismo, tinha ganhado voz. O público não estava apenas vibrando. Estava cantando as notas, as viradas, as divisões, como se aquela peça instrumental sempre tivesse esperado por uma arquibancada sul americana para revelar sua letra invisível.
Vinte e quatro anos depois, o México pegou essa senha e respondeu à altura.
A entrada de YYZ no segundo set veio em um momento perfeito. O Rush já havia mergulhado de cabeça em Moving Pictures, depois de Tom Sawyer e Red Barchetta, com a plateia em ponto de ebulição. Quando os primeiros compassos surgiram, o Palacio de los Deportes não tratou a música como intervalo instrumental. Tratou como hino. E aí veio o coro, aquele canto de estádio, aquela força latina que não pede licença para participar da música. O público mexicano cantou YYZ como quem sabe exatamente de onde vem essa tradição.
Nas redes sociais e nos fóruns dedicados à banda, o comentário apareceu quase naturalmente. O que os brasileiros inauguraram em 2002, o México provou agora que aprendeu muito bem. E talvez essa seja uma das coisas mais bonitas da volta do Rush aos palcos. A turnê não está apenas mostrando que Geddy Lee e Alex Lifeson ainda têm força para carregar esse repertório. Ela está mostrando que algumas marcas deixadas pelos fãs também sobreviveram ao tempo.
Houve até uma pequena curiosidade nas primeiras horas depois do show. Enquanto os fãs dos Estados Unidos encheram a internet de vídeos dos shows de Los Angeles, muita gente estranhou a falta inicial de registros mais completos da noite mexicana. Em um tópico no Reddit, um fã brincou que talvez todos estivessem ocupados demais cantando alto todas as músicas, incluindo os instrumentais. Outro resumiu o espírito da coisa dizendo que, se você não canta junto com YYZ, você não está vivendo de verdade. Brincadeira de fã, claro. Mas também uma boa definição do que aconteceu.
E no centro dessa catarse estava Anika Nilles.
Para ela, YYZ não é apenas uma música difícil. É uma montanha. É uma das assinaturas mais reconhecidas de Neil Peart, com viradas que os fãs conhecem de ouvido, de memória, de corpo inteiro. Em Los Angeles, a pressão da estreia ainda parecia pairar sobre tudo. No México, a energia foi outra. A plateia não ficou apenas avaliando a nova baterista do Rush. A plateia entrou junto. Cantou as partes, respondeu às viradas, abraçou a música e transformou aquele momento em uma espécie de batismo latino para Anika.
A noite ganha um peso maior neste momento. Porque o Rush de 2026 não está tentando apagar a ausência de Neil. Isso seria impossível. O que a banda parece buscar é outra coisa. É seguir adiante com respeito, com emoção e com a consciência de que a história não pertence apenas ao palco. Pertence também a quem ficou todos esses anos esperando, ouvindo, lembrando e cantando.
Geddy e Alex conhecem esse som. Eles ouviram isso no Brasil. Eles sabem que existe uma comoção muito particular quando o público latino decide entrar na música. Não é aplauso educado. Não é simples nostalgia. É presença. É entrega. É o fã dizendo que aquela canção também mora nele.
Por isso, a primeira noite no México foi mais do que uma data internacional da Fifty Something Tour. Foi a confirmação de que YYZ deixou de ser apenas o grande momento inesperado do Rush in Rio. Virou patrimônio afetivo dos fãs do Rush. Nasceu no Canadá, explodiu no Brasil e agora ecoou no México com a força de uma tradição que atravessa fronteiras.
O Rush voltou. E, junto com ele, voltou também esse detalhe maravilhoso que só os fãs conseguem criar. Uma música sem palavras. Uma multidão cantando.
E o mundo inteiro entendendo.
Setlist do Rush no México
Palacio de los Deportes
Cidade do México
18 de junho de 2026
Fifty Something Tour
Set 1
Vídeo de abertura
Xanadu
Dreamline
Subdivisions
Headlong Flight
Bravado
com vídeo em homenagem a Neil Peart
Red Sector A
La Villa Strangiato
Anthem
New World Man
The Spirit of Radio
Intervalo
Set 2
Tom Sawyer
Red Barchetta
YYZ
Limelight
The Camera Eye
Witch Hunt
Vital Signs
Time Stand Still
com vídeo em homenagem a Neil Peart
Closer to the Heart
2112
Part I Overture
Part II The Temples of Syrinx
Part VII Grand Finale
Bis
Finding My Way
Working Man
Vídeo de encerramento