Depois de uma abertura arrebatadora em Los Angeles, Geddy Lee e Alex Lifeson levam a Fifty Something Tour ao Palacio de los Deportes para duas noites que prometem celebrar o passado, sacudir o presente e manter a lenda do Rush em pleno movimento.
O México já pode aumentar o volume. Depois de abrir a Fifty Something Tour em Los Angeles sob uma avalanche de emoção, nostalgia e reverência, o Rush chega agora à Cidade do México para duas noites que prometem ir muito além de um reencontro com clássicos. Nos dias 18 e 20 de junho, o Palacio de los Deportes será palco de um momento raro, Geddy Lee e Alex Lifeson novamente diante de uma multidão, conduzindo a obra de uma das bandas mais cultuadas do rock com o peso da história nas costas. Com os olhos bem abertos para o presente.
Não se trata de uma volta qualquer. Onze anos depois da última turnê, o Rush retorna sem Neil Peart, presença impossível de substituir, mas impossível também de apagar. A Fifty Something Tour nasce justamente desse equilíbrio delicado, celebrar sem congelar, homenagear sem imitar, seguir em frente sem diminuir a lenda. Com Anika Nilles na bateria e Loren Gold nos teclados, a banda encontrou uma nova arquitetura ao vivo para fazer essas músicas respirarem outra vez.
Tudo isso determina que a passagem pelo México seja tão especial. Depois de setlists mutantes, suítes completas, raridades ressuscitadas e noites descritas como uma mistura de catarse e celebração, a pergunta que move os fãs agora é simples: como o Rush vai aparecer no Palacio de los Deportes? O clássico, o imprevisível, o emocional, o técnico? Provavelmente todos ao mesmo tempo. Porque, em 2026, o Rush não volta apenas para tocar o passado. Volta para lembrar por que esse passado ainda soa gigantesco.
A turnê começou em 7 de junho com uma residência de quatro noites no Kia Forum, em Inglewood, na Califórnia, justamente o mesmo lugar que recebeu o último show da R40 Tour, em 2015. A coincidência, ou escolha simbólica, deu ao retorno um peso ainda maior. Era como se a banda tivesse voltado ao ponto exato onde a história havia sido pausada para, enfim, abrir uma nova página.
A nova página veio carregada de emoção. Veículos americanos descreveram os primeiros shows como uma combinação de celebração, luto, nostalgia e alegria pura. No centro de tudo, claro, está Neil Peart. Sua ausência atravessa a apresentação, mas não como sombra paralisante. Ela aparece como homenagem viva, em vídeos, na reverência dos músicos e no modo como cada música parece carregar uma camada extra de memória.
Ao lado de Geddy Lee e Alex Lifeson, Anika Nilles assumiu uma das missões mais delicadas do rock, ocupar o posto de bateria em um repertório moldado por um dos maiores nomes da história do instrumento. A alemã, porém, não entrou em cena para imitar Neil. Seu papel é outro, honrar aquelas linhas monumentais com precisão, técnica e personalidade. E, até aqui, a resposta tem sido forte. Fãs, críticos e músicos vêm destacando o respeito com que ela trata os arranjos originais, sem transformar a apresentação em uma tentativa impossível de reprodução.
Loren Gold também tem papel decisivo nessa nova dinâmica. Responsável por sintetizadores, pianos e camadas de apoio, o músico ajuda a preencher a sonoridade ao vivo e dá mais liberdade para que Geddy e Alex comandem o palco sem sacrificar a complexidade dos arranjos. O Rush de 2026 aparece, assim, como uma banda expandida, fiel à própria identidade, mas sem medo de reorganizar sua força para o presente.
A formação em quarteto também marca uma mudança histórica. Pela primeira vez desde os primórdios da banda, o Rush percorre a estrada com quatro músicos ( em janeiro de 1969, o Rush subiu ao palco do Coff-In como um quarteto- leia a matéria abaixo). A decisão não soa como capricho, mas como solução artística e emocional. Em vez de tentar encaixar o passado à força em um molde antigo, Lee e Lifeson parecem ter entendido que a melhor maneira de preservar a grandeza do Rush era permitir que ela encontrasse uma nova forma no palco.
Outro grande combustível da expectativa está no repertório. A Fifty Something Tour vem sendo tratada quase como uma loteria de luxo para os fãs. Os shows são divididos em dois longos sets e podem chegar a cerca de 35 músicas por noite, com alterações significativas de uma apresentação para outra. Ou seja, ninguém sabe exatamente o que vai ouvir. E, para uma banda com um catálogo desse tamanho, isso transforma cada noite em acontecimento único.
Logo na abertura, o Rush já quebrou protocolos ao escolher “Xanadu” para iniciar os trabalhos. A faixa, longa, ambiciosa e profundamente associada ao lado mais épico da banda, funciona como cartão de visitas perfeito para esta fase, nada de entrada tímida, nada de aquecimento burocrático. O recado é claro desde o primeiro minuto, se é para voltar, que seja em escala monumental.
Em Los Angeles, a banda foi ainda mais longe. Em uma das noites, executou a suíte “2112” completa. Em outra, tocou Moving Pictures na íntegra, revisitando o álbum que levou sua precisão técnica e ambição artística a um patamar definitivo. Para os fãs, são escolhas que vão além da nostalgia. São declarações de força. É o Rush dizendo que seu repertório não precisa ser suavizado, reduzido ou simplificado para caber em 2026.
As surpresas também têm vindo dos resgates profundos. Canções como “The Pass”, “The Anarchist”, “Leave That Thing Alone”, “Bravado” e “A Farewell to Kings” voltaram ao jogo, reacendendo discussões entre fãs e criando aquela expectativa deliciosa antes de cada show, qual raridade pode aparecer agora? Em tempos de turnês cada vez mais previsíveis, o Rush aposta no risco e o risco, para uma banda desse calibre, vira espetáculo.
Houve ainda um momento especialmente tocante com a participação surpresa de Aimee Mann em “Time Stand Still”, uma das canções mais emocionais do catálogo da banda. A aparição reforçou o tom da turnê, não se trata apenas de tocar músicas difíceis com perfeição, mas de reconectar essas músicas às pessoas, às lembranças e ao tempo que passou.
Agora, esse clima chega ao México com força total. A primeira data no Palacio de los Deportes se esgotou rapidamente, levando à adição de uma segunda apresentação. A resposta do público confirma o tamanho da espera. Mais de uma década sem ver o Rush no país criou uma expectativa acumulada, daquelas que não cabem apenas no ingresso. Cabem nas camisetas antigas, nos fóruns de fãs, nas promessas de homenagens durante o show e na ansiedade coletiva por descobrir qual será o setlist mexicano.
A imprensa local também captou esse espírito. A Revista Kuadro destacou a vigência técnica da obra do Rush e apontou a apresentação como uma espécie de versão evoluída da banda. A leitura faz sentido, o que chega ao México não é uma tentativa de recriar o Rush de 1976, 1981 ou 2012. É uma nova encarnação ao vivo de uma obra que continua exigente, emocional e poderosa.
Para o público mexicano, há ainda um elemento de celebração comunitária. O Rush sempre foi uma banda de devoção intensa, quase artesanal. Seus fãs não apenas escutam, estudam, debatem, comparam versões, defendem fases, decoram viradas, discutem letras e reconhecem passagens instrumentais como quem reencontra velhos amigos. Em uma cidade acostumada a transformar grandes shows em rituais de massa, esse encontro tem tudo para ser explosivo.
Geddy Lee, aos 71 anos, segue como a figura central dessa engrenagem. Baixo, voz, teclados, presença e comando. Ao seu lado, Alex Lifeson mantém aquela mistura de elegância, peso e estranheza melódica que sempre deu ao Rush uma assinatura própria. Juntos, eles carregam mais de meio século de história, mas não parecem interessados em simplesmente desfilar troféus. A Fifty Something Tour funciona porque há algo em jogo. Há tensão, há memória, há risco e há vontade.
Depois do México, a turnê retorna aos Estados Unidos para compromissos em cidades como Fort Worth, Chicago e Nova York, com agenda prevista até dezembro. Entrevistas recentes de Geddy e Alex já apontam para a possibilidade de expansão para a Europa e a América do Sul em 2027, o que só aumenta a sensação de que esse retorno pode ser maior do que se imaginava inicialmente.
Mas, por enquanto, todos os olhos se voltam para a Cidade do México. Nos dias 18 e 20 de junho, o Palacio de los Deportes receberá não apenas uma banda lendária, mas um capítulo sensível de sua reconstrução ao vivo. O Rush chega carregando saudade, sim. Mas também chega com músculo, repertório, coragem e uma formação pronta para provar que a chama continua acesa.
No fim, essa talvez seja a grande força da Fifty Something Tour, ela não tenta apagar o que falta. Ela ilumina. Neil Peart segue presente na arquitetura das músicas, na memória dos fãs e na reverência de cada execução. Geddy Lee e Alex Lifeson, por sua vez, conduzem esse legado sem transformá-lo em peça de museu. O Rush está de volta ao palco, e agora é a vez do México sentir de perto esse reencontro.
Uma coisa já parece certa. Não será apenas um show. Será uma celebração de tudo o que o Rush foi, de tudo o que ainda representa e daquilo que, contra qualquer previsão, ainda pode vir a ser.