No tourbook da turnê atual do Rush, Olivia Peart e Carrie Nuttall quebram o silêncio com textos profundamente emocionantes sobre Neil. Mais do que lembranças familiares, são testemunhos de amor, saudade, gratidão e respeito por um homem que marcou milhões de vidas sem jamais deixar de pertencer, antes de tudo, à sua própria família.
Há textos que não pedem análise imediata. Pedem silêncio. Pedem cuidado. Pedem que a gente leia devagar, quase com a mesma reverência com que se escuta uma música que atravessou a vida inteira. No tourbook da atual turnê do Rush, duas vozes aparecem com uma força rara e delicada. Olivia Peart, filha de Neil, e Carrie Nuttall, sua esposa, escrevem sobre o homem que o mundo conheceu como lenda, baterista, letrista, pensador e professor, mas que para elas foi, antes de qualquer coisa, pai e marido.
As palavras das duas não falam apenas da perda. Falam do amor que permanece. Olivia recorda o pai presente nos gestos simples, nas leituras, nos passeios, nos jantares, na decisão de deixar a estrada para viver mais perto dela e de Carrie. Já Carrie escreve a partir da intimidade de quem conviveu com Neil para além do palco, além dos aplausos e além da imagem quase mítica construída pelos fãs. Ela mostra o vazio deixado por sua ausência, mas também reconhece o impacto profundo que suas letras e sua música tiveram na vida de tantas pessoas ao redor do mundo.
É impossível ler esses textos sem sentir que eles pertencem a um lugar muito especial dentro da história do Rush. Eles não são apenas uma homenagem. São uma ponte entre a família Peart e a comunidade de fãs que, por décadas, encontrou nas palavras de Neil algum tipo de abrigo, coragem, lucidez ou compreensão. Há ali dor, orgulho, saudade e uma generosidade imensa em dividir com o público um pedaço tão íntimo dessa memória.
Por isso, por respeito aos fãs, ao Rush e à família Peart, não vamos apenas fazer uma análise desses escritos. Vamos também publicar o texto na íntegra, para que cada leitor possa receber essas palavras do modo como elas merecem ser recebidas. Sem pressa. Sem ruído. Com o coração aberto.
IN MEMORIAM
OLIVIA
“Meu pai foi um artista muito amado, mas, acima de tudo, foi uma pessoa maravilhosa. Eu o amava muito e ainda amo, o que torna tudo tão doloroso. Olhando para trás, o tempo que passei com ele significou muito para mim, mas foi curto demais. Pelo menos sei que ele me amava e realmente se importava em ser meu pai. Isso aparecia no tempo que ele passava lendo para mim, me levando para passear, preparando o jantar para nós e se aposentando do trabalho que tanto valorizava para passar mais tempo comigo e com minha mãe. Todos nós sabemos como isso terminou.
Tenho muito orgulho de ser filha dele. Entre todos os rockstars do mundo, eu sou filha daquele que escreveu letras sobre ciência, magia, filosofia e literatura. Daquele que tinha tanta lealdade e integridade, e que sempre tratou as pessoas com respeito e gentileza. Meu pai entregou muito de si ao Rush ao longo dos anos e colocou seu coração e sua alma em sua escrita, em sua bateria e em suas apresentações. Ele tocou milhares de pessoas ao redor do mundo, e nós realmente agradecemos pela lealdade e pelo amor que vocês demonstraram por ele e pela banda durante tanto tempo.”
CARRIE
“Lenda, ícone, até mesmo “um deus”. Todas essas são palavras que as pessoas usaram para descrever Neil, mas, para nós, ele era um marido amado e um pai querido, que ainda é sentido e amado como se tivesse partido ontem. Não passa um dia sem que falemos sobre ele, seja para recordar belas lembranças, seja para reconhecer a profundidade da nossa perda. Os presentes que ele trouxe às nossas vidas são profundos demais para serem completamente descritos aqui, e as inúmeras maneiras como sua ausência afetou nossas vidas são realmente infinitas. Ele foi um ser humano único, que nos deixou permanentemente transformadas, algo que vocês talvez também sintam, ainda que de alguma forma pequena.
Eu sei o quanto sua música e suas palavras significaram para vocês, e isso teve para nossa família um valor que eu jamais conseguirei expressar plenamente. Ouvir alguns de vocês me dizerem que “ele salvou minha vida” sempre foi o comentário que mais significou para mim. Ele fez isso sem intenção, compondo letras que ressoaram profundamente naqueles que precisavam desesperadamente se sentir compreendidos. Para outros, suas palavras tocaram o coração e a vida de uma forma que permaneceu por anos. Mesmo nos estágios avançados do Alzheimer, meu pai, aos 85 anos, me dizia que havia tido “One Little Victory” naquele dia, e todos nós sabemos a que ele estava se referindo. A música e a escrita de Neil tocaram incontáveis vidas e continuarão emocionando pessoas por muitos anos.
Até recentemente, Olivia e eu permanecemos fora dos olhos do público, pois nunca nos sentimos confortáveis em estar sob a “Limelight”, ou, como chamamos, “a música-tema do papai”. Assim como Neil, preferimos nossa privacidade, mas também sabemos quando é hora de sair da nossa zona de conforto por algo que vale a pena, como compartilhar nossos pensamentos com vocês, fãs maravilhosos e leais. Obrigada pelos anos de amor, admiração e respeito que vocês demonstraram ao meu marido. Embora ele não expressasse isso com frequência, ele apreciava profundamente todos vocês.”
Respostas de 2
Tem Rock star que o ser humano não vale nada. Neil era um cara ímpar, deixou marcas… Que coisa linda de ler, escorreu umas lágrimas aqui.
Exato!