Gravada já durante a fase de ensaios e divulgada somente após a estreia da turnê, a entrevista de Anika Nilles a Rick Beato revela como a baterista precisou entrar fundo no mundo do Rush, aprender músicas que conhecia pouco e compreender, na prática, o tamanho de uma banda marcada por técnica, emoção, memória e legado.
Há um momento, nessa volta do Rush, em que a história deixa de ser apenas sobre Geddy Lee e Alex Lifeson retornando aos palcos. Claro que é impossível separar esse reencontro da emoção de ver dois nomes fundamentais da banda novamente diante do público. Mas existe uma outra camada nessa história. A chegada de Anika Nilles não é apenas a entrada de uma nova baterista. É o encontro de uma musicista brilhante com um universo que ela mesma precisou descobrir quase do zero. E está aí uma das partes mais interessantes dessa nova fase. Tudo isso ficou claro na entrevista que ela concedeu a Rick Beato, que já havia feito longas entrevistas com Alex e Geddy.
Nesta entrevista , Anika deixa claro que não chegou ao Rush como alguém que já carregava cada detalhe da banda no sangue, como tantos fãs carregam. Ela conhecia algumas músicas, mas não em profundidade. E isso muda tudo. Porque entrar no Rush não é simplesmente aprender um repertório. É atravessar uma obra inteira, cheia de camadas, viradas, climas, mudanças de tempo, melodias escondidas na bateria e uma relação quase sagrada entre banda e público. Para quem está de fora, pode parecer apenas uma lista de músicas difíceis. Para quem entende o tamanho do Rush, é como entrar numa cidade desconhecida, antiga, imensa, cheia de ruas que os fãs já sabem de cor.
A baterista contou que, depois do primeiro contato sobre a possibilidade de tocar com Geddy e Alex, mergulhou diretamente no universo da banda. “Depois da ligação com Skully, eu mergulhei diretamente no universo Rush e comecei a ouvir tudo o que conseguia encontrar, músicas, vídeos, entrevistas, shows ao vivo, basicamente tudo que se pode encontrar online, para entrar naquele mundo e conhecer melhor as músicas”, disse ela. A palavra mergulho, aqui, não é exagero. Ela não precisava apenas decorar partes de bateria. Precisava compreender uma linguagem. O Rush não é uma banda que se aprende apenas pela técnica. A técnica é necessária, evidente, mas ela sozinha não basta. Existe um jeito de respirar dentro das músicas, uma arquitetura própria, uma forma de tensão e liberdade que foi construída durante décadas por três músicos muito específicos.
É por isso que o relato dela chama tanta atenção. Anika diz que recebeu seis ou sete músicas para o primeiro ensaio e decidiu focar nelas. Parece pouco, mas quando se trata de Rush, cada música pode ser um pequeno mundo. Não é como entrar numa banda em que os caminhos são previsíveis. O detalhe está em tudo. Nas viradas que o público conhece de ouvido, nas pausas, nos acentos, nas mudanças de clima, nas melodias que Neil Peart desenhava na bateria como se o instrumento também fosse uma voz narrativa. E Anika entendeu rapidamente que seu método habitual de estudo não daria conta daquele desafio.
Normalmente, ela escuta uma música, faz um mapa rápido e toca lendo suas anotações. Com o Rush, percebeu que isso não funcionava do mesmo modo. “Às vezes você não consegue realmente escrever tudo, porque muita coisa também é uma questão de sensação. Tecnicamente, até dá para escrever, mas eu teria passado tempo demais só escrevendo. E eu pensei que não tinha esse tempo. Então, precisei apenas ouvir, dividir em blocos e aprender passo a passo”, explicou. Essa talvez seja uma das frases mais importantes da entrevista. “Memorizar todas as partes é uma coisa. Aprender a sensação é outra.”
Para os fãs, essa frase tem peso. Porque qualquer pessoa que ama Rush sabe que a bateria de Neil Peart não é apenas uma sequência de notas bem executadas. Ela faz parte da identidade emocional das canções. Tem gente que nunca sentou numa bateria, mas sabe exatamente quando vem uma virada em “Tom Sawyer”, “YYZ”, “Subdivisions” ou “La Villa Strangiato”. Rick Beato lembra isso na conversa, dizendo que até quem não é baterista faz air drum junto. Anika sabe. Ela sorri diante dessa responsabilidade e reconhece que agora também conhece essas viradas. “Eu também as conheço agora. Mas se elas vão sair exatamente assim ou não, vamos ver quando chegar a hora”, afirmou.
Essa consciência torna a presença dela ainda mais interessante. Anika não tenta ocupar o lugar de Neil Peart como se isso fosse possível. Também não parece querer fugir do peso desse legado. Ela entra nesse espaço sabendo que existe uma memória coletiva ali. Uma memória que não pertence apenas à banda, mas também aos fãs. E isso exige cuidado. Exige respeito. Exige coragem. Porque tocar Rush, neste momento, não é apenas tocar Rush. É tocar depois do silêncio. É tocar depois do luto. É tocar diante de pessoas que nunca imaginaram ver esse nome de volta ao palco.
Formação- A formação de Anika ajuda a entender como ela chegou pronta para um desafio desse tamanho. Filha de um baterista amador dedicado e de uma mãe que tocava violão por diversão, ela cresceu cercada por música. “Meu pai era baterista no tempo livre. Minha mãe tocava violão também, por diversão. Mas meu pai era realmente um músico amador muito dedicado. Ele tocava em uma banda, e eles ensaiavam no nosso porão com bastante frequência”, contou. Primeiro, ela se interessou por vários instrumentos, especialmente os teclados. Mas foi a bateria que a puxou. Vieram os grooves ensinados pelo pai, depois a escola de música e, mais tarde, uma formação que passou também por orquestras tradicionais de metais na Baviera.

O caminho, porém, não foi direto. Anika não começou estudando música profissionalmente. Os pais queriam algo mais estável, e ela foi para a educação social. Trabalhou, ganhou dinheiro, comprou equipamentos, continuou tocando e ensinando. Até perceber que não conseguiria passar a vida longe da bateria. “Ficou claro para mim que eu não conseguiria fazer aquilo pelo resto da vida. Eu era apaixonada demais por bateria e por música. Nunca parei de tocar e também de ensinar. Então, decidi fazer a virada, estudar música e seguir por esse caminho”, lembrou. Esse detalhe diz muito. Ela não foi empurrada pela música. Ela voltou para a música. Escolheu a música depois de tentar outro caminho.
A conexão com Geddy Lee e Alex Lifeson veio de uma forma quase inesperada. Anika havia tocado com Jeff Beck, e quem fez a ponte foi Skully, técnico de baixo de Geddy, que antes havia trabalhado como técnico de guitarra de Jeff. Ele falou dela para Geddy, e essa lembrança ficou guardada. Um dia, a mensagem chegou. Skully disse que precisava ligar com urgência. Anika ficou preocupada, achando que algo ruim pudesse ter acontecido com alguém da equipe. Mas era outra coisa. “Ele disse que tinha conversado com Geddy e Al, que talvez eles quisessem fazer alguma coisa de novo e que tinham pensado em mim. Perguntou se eu toparia conversar com eles. Eu tentei bancar a tranquila do outro lado do telefone”, contou.
A cena parece simples, mas carrega o peso de uma virada histórica. Do outro lado da ligação, Anika tentou manter a calma. Depois, quando viu Geddy e Alex na tela durante uma reunião por vídeo, a ficha caiu de outro jeito. “Foi ainda mais louco quando vi aqueles dois rostos na tela, quando fizemos uma reunião por Zoom. Foi a primeira vez que falei de verdade com Geddy e Alex. Irreal. Surreal, eu diria”, disse. E é fácil entender. Para qualquer músico, receber um convite desses já seria enorme. Para uma baterista, aceitar tocar com Rush é entrar numa conversa direta com um dos maiores legados da história do instrumento.
Mas há outro detalhe forte nessa história. Geddy e Alex também estavam voltando a músicas que não tocavam havia quase dez anos. Anika percebeu que não estava entrando numa máquina já funcionando, onde todos sabiam tudo e ela seria apenas a novata correndo atrás. Como trio, eles também precisavam encontrar um caminho juntos. “Como eles também não tocavam essas canções havia quase dez anos, começamos um pouco juntos do zero. Quer dizer, eles não começaram realmente do zero, mas, como trio, tivemos que encontrar uma maneira de nos juntar”, explicou. Isso tirou um pouco da pressão de seus ombros. Não porque o desafio fosse menor, mas porque havia ali uma construção coletiva. Eles estavam reaprendendo a respirar como banda. E ela estava aprendendo a respirar Rush pela primeira vez.
As influências de Anika também ajudam a explicar sua abordagem. Ela cresceu ouvindo Toto e estudou muito Jeff Porcaro. Antes disso, colocava música para tocar e se divertia, sem prestar tanta atenção em quem estava na bateria. Com Toto, mudou. Passou a estudar as partes, os detalhes, o feel. “Com Toto foi diferente. Eu diria que essa é a minha influência mais forte”, afirmou. E essa palavra é essencial. Feel. Porque Anika tem técnica, muita técnica, mas o que chama atenção em sua fala é a busca por fluidez, resistência e musicalidade.
Ela conta que, ainda jovem, ouviu de alguém da indústria que começava forte no palco, mas perdia energia no fim do show. Aquilo ficou na cabeça. A partir daí, trabalhou técnica para sustentar a performance inteira. “Toda essa fluidez vem, na verdade, de praticar muita técnica, porque eu não tenho a força muscular dos homens. Meu corpo é diferente. Então, preciso compensar muito com técnica”, explicou. Esse preparo aparece também na forma como ela encara a turnê. Uma apresentação do Rush exige potência física, concentração e resistência. Ainda mais em grandes palcos, com viagens, jet lag e a pressão emocional de uma plateia que não está apenas assistindo a um show. Está testemunhando um retorno.
Anika fala também sobre a necessidade de mudar o horário dos ensaios, empurrando tudo para mais tarde, até que o corpo se acostume ao horário real do show. “Não existe mais hora de dormir às nove da noite”, brincou. Depois, explicou a importância desse ajuste. “Você precisa estar energizado e manter a força justamente no horário em que talvez esteja se sentindo cansado. Especialmente com jet lag durante uma turnê. Você pode ficar muito exausta.” Por isso, ela também mantém uma rotina de academia, como forma de compensar o desgaste físico da estrada.
Talvez seja por isso que essa entrevista funcione tão bem como retrato desse novo momento. Ela mostra uma musicista diante de uma montanha. Uma artista que chegou conhecendo parte da paisagem e, de repente, percebeu o tamanho da cordilheira. Anika não fala como quem domina tudo desde sempre. Fala como quem está entrando, aprendendo, respeitando, absorvendo. E isso aproxima o leitor. Porque, de certa forma, mesmo os fãs mais antigos também estão entrando em algo novo. O Rush voltou, mas não voltou igual. Não teria como.
A volta do Rush tem saudade, tem ausência, tem celebração e tem risco. Tem Geddy e Alex carregando uma história que parecia encerrada. Tem Neil presente de outro modo, na memória, nas músicas, nas viradas que todo mundo conhece, no espaço que ninguém ocupa completamente. E tem Anika, uma baterista que precisou mergulhar fundo em um universo que conhecia pouco para descobrir, na prática, o tamanho da banda que agora ajuda a levar de volta ao palco.
Talvez esse seja o ponto mais emocionante. O Rush sempre foi uma banda sobre movimento, travessia, descoberta e transformação. Agora, essa história ganha mais uma personagem atravessando seu próprio caminho. Anika Nilles entra nesse mundo não como quem fecha uma lacuna, mas como quem aceita caminhar dentro dela com respeito. E, para uma banda que sempre ensinou seus fãs a seguir em frente sem abandonar a memória, talvez não houvesse gesto mais coerente.