Músico diz que alguns bateristas tentaram se oferecer ao Rush enquanto a banda ainda estava de luto. O caso foi revisto no site da Bass Player e deve ganhar espaço também na nova edição da Guitar World, que chega às bancas em julho.
A volta do Rush aos palcos parecia, durante anos, uma ideia quase impossível, daquelas que os fãs alimentam mais por saudade do que por esperança real. Depois da morte de Neil Peart, em 2020, não era apenas um baterista que havia saído de cena. Era uma parte essencial da alma da banda. Peart não ocupava simplesmente o banco atrás da bateria. Ele ajudava a moldar o som, a ambição e o imaginário do trio canadense, com uma técnica que virou referência e letras que deram profundidade filosófica, literária e emocional à obra do grupo. Sem ele, qualquer tentativa de retomada carregaria inevitavelmente uma pergunta incômoda.
Como seguir adiante sem transformar a ausência de Neil em uma substituição impossível?
Foi justamente nesse contexto delicado que Geddy Lee revelou o incômodo causado por alguns músicos logo após a morte de Peart. Em entrevista recente, o baixista e vocalista contou que vários bateristas entraram em contato com ele naquele período, aparentemente interessados em se colocar como possíveis substitutos.
O assunto foi revisto no site da Bass Player e deve ganhar espaço também na nova edição da Guitar World, que chega às bancas em julho, com o Rush em destaque. A publicação traz Geddy Lee e Alex Lifeson falando sobre o difícil processo de imaginar a banda sem Neil Peart e sobre como a escolha de uma nova baterista exigiu tempo, respeito e sensibilidade.
“Muitos bateristas entraram em contato comigo depois da morte do Neil tentando se promover, e aquilo me pareceu de extremo mau gosto”, afirmou Lee. “Foi um momento completamente inadequado.”
De acordo com o músico, a postura contrastava com a de amigos próximos da banda, incluindo bateristas bem-sucedidos, que jamais teriam insinuado algo parecido naquele momento. Para Geddy, quem realmente compreendia a dimensão da perda sabia que o assunto não poderia ser tratado como uma simples vaga em aberto.
“Pessoas próximas da gente, bons amigos que são bateristas bem-sucedidos, jamais fariam uma insinuação dessas, porque têm respeito demais, não apenas pelo Neil, mas pela situação”, disse. “Eles também estavam sofrendo.”
O Rush havia se despedido dos palcos em 2015, depois da turnê R40, em grande parte por causa das condições de saúde de Neil Peart. Depois da morte do Professor, parecia ser o ponto final definitivo da banda. Durante muito tempo, Geddy e Alex também trataram a ideia de um retorno com extrema cautela.
A percepção começou a mudar em 2022, quando a dupla participou do show em homenagem a Taylor Hawkins, baterista do Foo Fighters. Na ocasião, os dois tocaram músicas do Rush ao lado de Dave Grohl, em uma apresentação que reacendeu a memória afetiva dos fãs e mostrou que ainda havia espaço para celebrar aquele repertório ao vivo.
Dois anos depois, a dupla voltou a tocar em um tributo a Gordon Lightfoot, outro nome fundamental da música canadense. A partir daí, os rumores sobre uma possível retomada ganharam força, especialmente depois que Lifeson admitiu que ele e Geddy vinham tocando juntos novamente.
Ainda assim, a grande questão permanecia. Quem poderia sentar na cadeira de Neil Peart?
A resposta acabou vindo com Anika Nilles, baterista alemã conhecida por seu trabalho solo, por sua linguagem moderna e por sua passagem pela banda de Jeff Beck. Segundo Geddy Lee, ela foi indicada por um técnico que havia trabalhado na turnê de Beck em 2022. O baixista pesquisou sobre ela, gostou de sua abordagem e viu ali uma possibilidade real.
“Nós realmente não sabíamos por onde começar a procurar”, explicou Lee. “Começamos pela Anika porque ela havia sido recomendada para mim, e eu tinha pesquisado sobre ela. Gostei muito da energia dela e do estilo diverso.”
Lee também destacou que a escolha não partiu de uma lista extensa de candidatos. O nome de Anika já estava em sua cabeça quando ele e Lifeson começaram a tratar a ideia com mais seriedade.
“Nós ligamos para ela, ela veio, e nos demos muito bem”, contou. “Ela trouxe muita coisa para a mesa. Mais do que técnica, mais do que coragem e disposição para ocupar aquele lugar tão complicado, ela trouxe inteligência e uma história.”
A presença de Anika Nilles marca uma nova etapa para o Rush, mas também reforça o tamanho simbólico da ausência de Neil Peart. Para os fãs, a ideia de ver a banda novamente nos palcos sem o “Professor” ainda carrega um misto de expectativa, emoção e estranhamento. Para Geddy Lee e Alex Lifeson, porém, a retomada parece ter sido construída justamente sobre esse cuidado. Não substituir Neil, mas encontrar alguém capaz de honrar sua memória sem tentar imitá-lo.
O retorno oficial está previsto para acontecer no Kia Forum, em Los Angeles, no dia 7 de junho, mesmo local onde o Rush fez seu último show com Peart, há 11 anos. Antes disso, a banda fez uma aparição discreta no fim de março, durante o Juno Awards, em uma espécie de prévia pública dessa nova fase.
A declaração de Geddy Lee chama atenção não apenas pelo incômodo causado pelas abordagens de alguns bateristas, mas pelo que revela sobre o peso emocional por trás de uma reunião desse porte. Para o Rush, voltar aos palcos nunca foi apenas uma questão de agenda, repertório ou oportunidade comercial. Era preciso encontrar o momento certo, a pessoa certa e, sobretudo, uma forma respeitosa de seguir adiante sem apagar a importância de Neil Peart.
A nova edição da Guitar World deve aprofundar esse processo, trazendo o Rush como destaque de capa e ampliando a conversa sobre o retorno da banda, a escolha de Anika Nilles e o legado de um dos bateristas mais reverenciados da história do rock.
Respostas de 2
Esses eventos de bateristas se oferecendo pra vaga de Peart foram sinistros.
Os caras de luto, sofrendo pela perda do irmão e parceiro e os urubus já em cima. PutZ! 😞
Esse oportunismo carneiçeiro explicou em parte o fato de Geddy e Alex terem feito uma escolha não óbvia. Além de toda justa celebração, não esqueçamos que a tragetória da Anika faz jus às letras do próprio Neil, cheias de coragem, determinação e honestidade. Rush on!