Rush e o vídeo raro que resgata a turnê de 2112

Recuperado pela Speedy’s Films a partir de rolos originais em 8mm, o registro mostra Geddy Lee, Alex Lifeson e Neil Peart em 18 de junho de 1976, durante a turnê de 2112, no momento em que o Rush começava a transformar ambição, peso e estrada em história do rock; assista!

Antes das arenas gigantes, dos palcos monumentais e de o Rush virar sinônimo de espetáculo grandioso no rock, havia três músicos canadenses tentando provar, noite após noite, que aquele som estranho, pesado, técnico e ambicioso podia conquistar o mundo. Em 1976, Geddy Lee, Alex Lifeson e Neil Peart ainda estavam no meio da travessia. Não eram mais uma promessa de clube pequeno, mas também ainda não tinham chegado ao tamanho que alcançariam nos anos seguintes.

É por isso que qualquer registro daquela fase tem um peso especial. Ele mostra o Rush no exato momento em que a banda começava a virar a chave. O álbum 2112 tinha acabado de colocar o trio em outro patamar, depois de um período difícil, de pressão da gravadora e de incertezas sobre o futuro. A resposta da banda foi dobrar a aposta. Em vez de recuar, fez um disco longo, conceitual, pesado e cheio de personalidade. E foi justamente esse risco que começou a transformar o Rush em uma força maior dentro do rock.

Cartaz do show em 1976

Agora, quase 50 anos depois, imagens raras daquele período voltam a circular graças ao trabalho da Speedy’s Films, estúdio dedicado à recuperação e preservação de filmagens históricas do rock. O vídeo, restaurado a partir dos rolos originais em 8mm, traz trechos do show realizado em 18 de junho de 1976, no Civic Recreation Complex, em Oshawa, no Canadá, durante a turnê de 2112.

A força desse material está justamente no que ele preserva. Não é o Rush das grandes superproduções que o mundo conheceria depois. É uma banda ainda suando para ampliar seu território, conquistando plateias e transformando cada apresentação em argumento vivo a favor da própria existência. Nas imagens, já aparecem a voz cortante de Geddy Lee, a guitarra inventiva de Alex Lifeson e a bateria poderosa de Neil Peart, todos em uma fase em que a ambição artística e a fome de palco pareciam andar juntas.

O recorte de uma publicação da época ajuda a entender melhor o contexto daquele show no Civic Recreation Complex. Segundo as informações registradas, a apresentação teve público de 2.600 pessoas, em um espaço com capacidade para 4.024. O jornal chegou a chamar a plateia de Oshawa de decepcionante, provavelmente por causa dos lugares vazios. Mas o próprio texto reconhecia a força da banda ao dizer que o Rush abriu caminho até o coração de 2.600 jovens fãs de rock.

Outro detalhe chama atenção. A matéria dizia que um grande grupo de fãs de Toronto acompanhou a banda até o auditório, muitos deles provavelmente vendo o Rush pela nona vez. Esse dado mostra algo importante. Mesmo antes da consagração mundial, o Rush já tinha um público fiel, daqueles que pegavam estrada, repetiam shows e ajudavam a espalhar a reputação da banda no boca a boca.

O texto da época também apontava para o crescimento que viria logo depois. De acordo com informações do mercado fonográfico citadas no recorte, o empresário do Rush planejava uma turnê americana em que pediria 20 mil dólares por apresentação. Para uma banda que ainda estava construindo seu espaço fora do Canadá, era um sinal claro de ambição e de confiança no próprio futuro.

Essa escalada foi lembrada por Vic Wilson, ex-sócio de Ray Danniels e que também foi empresário do Rush naquela época, ao comentar o crescimento das turnês naquele momento da carreira. “Eles não paravam de adicionar, aumentar, acrescentar coisas”, afirmou Vic. “Quero dizer, virou uma bola de neve que crescia cada vez mais. Os locais dos shows ficaram maiores, e as apresentações mais longas, a produção se tornou tremendamente espantosa, assim como o custo. E sabe o quê? Era assim que se vendiam ingressos. Eles tinham carta branca para fazer o que quisessem com som e iluminação nos palcos. Nunca os importunamos de forma alguma. Sequer questionamos se queriam trocar de empresa de som ou contratar uma empresa maior. Nunca insistimos. Pelo menos, eu não insisti. Tinham liberdade total com relação ao que queriam fazer.”

A fala de Wilson ajuda a colocar o vídeo em perspectiva. Aquelas imagens de 1976 mostram uma banda ainda longe das grandes arenas e das superproduções que marcariam os anos seguintes, mas já tomada por uma mentalidade de crescimento. O Rush queria soar maior, tocar melhor, ampliar o espetáculo e transformar cada apresentação em uma experiência mais intensa. Essa liberdade dada a Geddy Lee, Alex Lifeson e Neil Peart para mexer em som, luz, estrutura e duração dos shows foi uma das marcas da trajetória do grupo.

Leia também: Vinil raro revela o Rush na virada de 1976

Por isso, esse vídeo recuperado pela Speedy’s Films tem tanto valor. Não se trata apenas de uma curiosidade para colecionadores ou de mais uma raridade de arquivo. É um documento histórico de uma banda no exato momento em que começava a deixar de ser uma promessa canadense para se tornar uma das forças mais originais do rock.

Nas imagens, vemos o Rush antes da consagração definitiva, antes das grandes turnês mundiais e antes de virar referência absoluta para gerações de músicos e fãs. Mas a essência já estava ali. A voz aguda e cortante de Geddy Lee, a guitarra inventiva de Alex Lifeson e a bateria poderosa de Neil Peart já apontavam para o que a banda se tornaria nos anos seguintes.

Às vésperas de completar 50 anos, esse registro ganha ainda mais importância. Ele preserva um instante em que tudo parecia estar em movimento. A banda, o público, a turnê, o crescimento no mercado americano e a construção de uma identidade que atravessaria décadas.

Ver esse filmes hoje é voltar ao ponto em que o Rush ainda estava abrindo caminho, mas já tocava como quem sabia que tinha algo grande nas mãos. É rock ao vivo em estado bruto, com Geddy Lee, Alex Lifeson e Neil Peart em plena ebulição, empurrando o som para frente e deixando claro por que aquela banda nunca seria apenas mais uma. Aumente o volume, entre nessa viagem e veja o Rush incendiando 1976.

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