O Novo Retrato do Rush

A matéria especial do The New York Times mostra Geddy Lee, Alex Lifeson, Anika Nilles e Loren Gold juntos pela primeira vez como quarteto, prontos para a nova turnê. Mais do que uma foto, é o registro de uma banda tentando voltar ao palco sem apagar a ausência de Neil Peart

Para quem acompanha o Rush há tantos anos, certas imagens não chegam apenas como notícia. Elas provocam um pequeno abalo na memória, porque a gente olha, reconhece Geddy Lee e Alex Lifeson, sente imediatamente a ausência de Neil Peart e, ao mesmo tempo, percebe algo novo tentando aparecer. Foi essa a força da matéria especial publicada pelo The New York Times, assinada por Hank Shteamer, com fotos de Nathan Cyprys, ao mostrar pela primeira vez a nova fase da banda como um quarteto, reunindo Geddy, Alex, Anika Nilles e, agora, Loren Gold na mesma imagem.

A banda está pronta para voltar à estrada

A foto é importante porque torna real uma mudança que ainda parecia distante. Já se falava da volta aos palcos, da presença de Anika na bateria, dos ensaios em Toronto e da turnê Fifty Something, mas ver os quatro juntos faz a conversa ganhar outro tamanho. O Rush sempre foi, para seus fãs, uma imagem de três pessoas. Geddy, Alex e Neil formavam uma amizade musical de três pontas, dessas que pareciam impossíveis de redesenhar. Agora, a nova imagem mostra que a história entrou em outra fase.

O texto de Hank Shteamer acerta porque não trata esse retorno como uma simples notícia de agenda. A reportagem entra no ambiente dos ensaios, acompanha a banda em Toronto e mostra Geddy e Alex tentando reencontrar o caminho para o palco depois de 11 anos longe da estrada. Há concentração, humor, dúvida, trabalho e saudade. Neil não aparece, mas a falta dele acompanha tudo.

Mesmo assim, o clima descrito pelo The New York Times não é pesado o tempo inteiro. Tem vida ali. Há cachorro uivando junto com aquecimento vocal. Há riso. Há brincadeira. Depois de mostrar à equipe um vídeo de sua cadelinha Dottie acompanhando sua voz, Geddy se diverte com a surpresa. “Ela nunca tinha feito isso antes”, disse ele à reportagem. O detalhe parece pequeno, mas ajuda a mostrar que o Rush não está voltando preso a uma cerimônia triste. Está voltando no meio da vida real, com afeto, ensaio, erro, piada e memória.

Esse humor aparece na troca entre Geddy e Alex durante os ensaios. Depois de uma execução, Geddy brinca. “Essa música tem palavras demais”, disse. Alex devolve no mesmo espírito. “Essa guitarra tem cordas demais”, respondeu. A cena diz muito sobre os dois. Eles estão com uma das tarefas mais difíceis de suas vidas como músicos, mas continuam se comunicando como velhos amigos que aprenderam a atravessar o peso das coisas sem perder a graça.

Geddy resume esse modo de funcionar numa frase que explica muito do Rush. “A forma como trabalhamos melhor é sendo intensos e prestando atenção aos detalhes”, disse ao The New York Times, antes de completar que, assim que a música termina, eles tentam ficar o mais ridículos possível. A banda sempre teve essas diferenças. Na música, precisão, entrega e cuidado. Fora dela, piada rápida e sagaz, amizade antiga e a capacidade de não se levar tão a sério o tempo inteiro.

(Se você observar o vídeo onde Alex, Geddy e Anika anunciam a nova parte da turnê, incluindo a América do Sul, pode notar que a baterista já entrou no clima dos caras).

O ponto mais emocionante da entrevista aparece quando Geddy fala sobre Neil. “No fundo da minha mente e no fundo do meu coração, parecia uma história inacabada”, disse o baixista. A frase carrega o peso e a lembrança de uma vida inteira de amizade, palco e criação. Não se trata de fingir que nada aconteceu. O que fica claro é a sensação de que ainda havia algo a ser feito, como se ele e Alex devessem ao amigo um agradecimento e uma celebração.

Essa diferença é fundamental. “Não uma coisa mórbida, fúnebre”, disse Geddy, ao explicar o tipo de homenagem que a banda não quer fazer. Em seguida,  aponta o caminho dessa volta. “Queremos celebrar a música maravilhosa que nós três passamos quase 50 anos escrevendo juntos”, afirmou. Essa fala dá o tom certo e o rumo da turnê. Há saudade, claro. Há uma ferida que não desaparece. Mas existe, acima de tudo, o desejo de permitir que aquelas canções respirem de novo.

Anika Nilles entra justamente nesse momento delicado. A reportagem não a apresenta como substituta de Neil, e isso é importante. Ninguém ocuparia esse lugar. A própria baterista entende o tamanho da memória que está tocando. Ao falar sobre o que Neil representava para Geddy e Alex como músico e como amigo, Anika foi direta. “Não dá para substituir isso, sabe?”, disse ela ao The New York Times. É uma frase simples, mas muito importante para compreender a postura dela.

Anika parece saber que sua missão não é apagar a ausência de Neil. Ela está ali para ajudar Geddy e Alex a recolocar essa música no palco com respeito, força e personalidade. A própria baterista explicou isso sem rodeio. “Basicamente, estou aqui para ajudá-los a colocar a música deles de volta no palco e fazer com que isso pareça certo para eles e para os fãs”, disse Anika. A frase mostra uma consciência rara do papel que ela passa a ocupar nessa nova fase.

A descoberta de Anika aparece na entrevista como um capítulo curioso. Geddy conta que viu vídeos dela depois da recomendação de Skully, seu técnico de baixo, que percebeu algo especial. “Esse é um talento profundo”, lembrou o baixista. Mas a pergunta continuava no ar. “Ela consegue tocar Rush? Nós não tínhamos ideia”, disse ele. Essa dúvida era natural. Tocar Rush não é apenas vencer uma prova técnica. É entender uma linguagem cheia de acentos, viradas, pequenas armadilhas e detalhes que os fãs conhecem de cor.

Primeiros contatos- A história de Anika ganha leveza quando ela lembra o primeiro contato com os dois. Ela estava em turnê na Alemanha, hospedada num hotel (ruim), quando entrou numa chamada de vídeo com Geddy e Alex. “Estou numa chamada com os dois caras mais icônicos dentro de um quarto realmente horroroso”, contou Nilles, rindo, à reportagem. O contraste é ótimo porque tira a história do pedestal e mostra como esses momentos enormes da vida às vezes acontecem em cenários bem comuns.

Nos primeiros testes em Toronto, ainda havia cautela. Geddy contou que, depois do quarto dia, existia “uma pontinha de dúvida”. Alex explicou melhor o tipo de desafio que estava em jogo ao falar sobre “as coisas entre todos aqueles grandes rufos”, numa referência aos detalhes do estilo de Neil. Mas algo mudou no último dia. “Algo clicou com ela”, disse Lifeson. Para Alex, quando eles ensaiaram no quinto dia, Anika “simplesmente acertou em cheio”.

A reação dela no voo de volta mostra o tamanho do que estava acontecendo. “Eu tomei um gole de vinho no avião”, disse Anika ao lembrar o retorno para casa. Depois, olhando Toronto pela janela, veio a ficha. “Voei sobre Toronto e vi o skyline e tudo aquilo. Pensei, que loucura”, contou. A fala é simples, mas carrega o espanto de alguém que percebeu, de uma vez só, que entraria numa das histórias mais queridas do rock.

Há uma cena muito reveladora no ensaio. Geddy toca e canta dentro de uma cabine, mas mantém Anika no campo de visão. Os dois trocam olhares, atravessam juntos as partes mais complicadas das músicas e parecem encontrar uma nova sintonia. Em certo momento, ele diz a ela, com carinho, “eu não consigo acompanhar você”. A frase mostra um entusiasmo que parecia improvável depois de tantos anos de silêncio.

Geddy vai além e admite que a química com Anika já virou parte do prazer de tocar novamente. “Vou ficar um pouco triste quando subirmos ao palco e eu estiver virado para a plateia e não para ela”, disse Lee à reportagem. O motivo vem em seguida. Ele afirma que está se divertindo muito tocando junto com a baterista. Essa fala é forte porque mostra que a volta não está sendo movida apenas pela obrigação de homenagear Neil, mas pela redescoberta real da alegria musical.

Nesse novo desenho, Loren Gold ocupa uma função importante. Ele assume parte das texturas de teclado que Geddy antes acionava com os pés, permitindo que o baixista se concentre mais em cantar, tocar e se movimentar. “Quero passar isso para outra pessoa para poder me concentrar apenas em tocar baixo, cantar e depois sair do meu microfone”, disse Geddy. Alex entra na brincadeira e completa. “Vamos dançar um pouco”, disse Lifeson, provocando risadas. A fala é leve, mas revela uma vontade enorme de reencontro.

Outro dado importante da matéria é a voz de Geddy. O vocalista atribui a melhora recente ao trabalho com um preparador vocal. “Ele trouxe de volta parte da minha extensão vocal que eu achava que tinha ido embora”, disse Lee. Para quem conhece a história do Rush, essa frase tem peso. A voz de Geddy sempre foi um dos elementos mais marcantes e exigentes da banda. Saber que ele se sente mais seguro nesse ponto ajuda a entender a confiança para encarar uma turnê desse tamanho.

Os tributos a Taylor Hawkins aparecem na reportagem como um ponto de virada. Ao tocar novamente diante de grandes plateias, com bateristas convidados como Dave Grohl e Danny Carey, Geddy e Alex sentiram que algo ainda estava vivo. Stewart Copeland, amigo de Neil, percebeu o carinho que cercava os dois nos bastidores. “Acho que aquilo lembrou a eles o que estavam perdendo”, disse Copeland. A observação ajuda a explicar por que aqueles shows mexeram tanto com Geddy e Alex.

O incentivo de Paul McCartney entra na história como uma espécie de empurrão decisivo. Depois que o ex-Beatle incentivou os dois a voltarem para a estrada, Alex resumiu tudo com uma frase perfeita. “Nunca discuta com um Beatle”, brincou Lifeson. A fala tem graça, mas aponta para algo profundo. Às vezes, alguém de fora precisa dizer aquilo que a dor ainda não deixa a gente aceitar por completo. Geddy e Alex talvez precisassem ouvir que voltar ao palco não seria uma traição à memória de Neil. Poderia ser uma forma de honrá-la, desde que feita com cuidado, verdade e consciência do tamanho da ausência.

A frase mais forte de Geddy surge quando ele reflete sobre o que os tributos ensinaram. “Uma banda pode acabar, mas a música continua viva”, disse Lee à reportagem. Essa é a chave de todo o novo capítulo do Rush. A banda como trio clássico acabou de forma irreparável, e qualquer fã sabe disso. Mas as canções não acabaram. Elas continuaram nos discos, nas lembranças, nos vídeos, nos fones de ouvido, nas conversas entre fãs e, agora, voltam a procurar o palco.

O apoio da família de Neil dá a essa nova fase uma delicadeza importante. Carrie Nuttall-Peart e Olivia aparecem na reportagem reconhecendo a complexidade desse momento. Carrie lembra que Neil já estava pronto para se aposentar, enquanto Geddy e Alex ainda não estavam. “Ele era quem já estava pronto para se aposentar, de todo modo, e eles realmente não estavam”, disse Carrie ao The New York Times. Essa fala ajuda a tirar a discussão de um lugar simplista. Cada um viveu o fim da estrada de uma maneira diferente.

Outro ponto sensível aparece quando Carrie cita “Limelight” como a música que melhor traduzia Neil. “‘Limelight’, Olivia e eu sempre dissemos, é a música-tema do papai”, disse ela. A explicação vem da relação difícil de Neil com a fama e com a exposição pública. Esse trecho humaniza Neil mais uma vez, porque mostra o homem reservado por trás do gigante da bateria.

Carrie imagina, inclusive, como Neil poderia reagir à volta dos amigos à estrada. Ela diz que talvez ele perguntasse “por quê?” ou brincasse que eles eram “malucos”, mas de um jeito amoroso. A fala é tocante porque devolve Neil ao campo da intimidade. Não é apenas o ídolo distante que aparece ali. É a lembrança familiar de um homem que conhecia profundamente Geddy e Alex, e que talvez olhasse para essa decisão com espanto, afeto e uma certa ironia.

Por isso, a primeira foto como quarteto precisa ser vista com calma. Ela pode causar estranhamento, e isso é natural. O fã olha para a imagem e sente falta da formação que aprendeu a amar. Ao mesmo tempo, percebe que Geddy e Alex não estão tentando apagar essa lembrança. Eles estão tentando encontrar uma forma possível de continuar tocando músicas que pertencem a eles, sem fingir que Neil pode ser substituído e sem transformar a saudade em silêncio para sempre.

A matéria do The New York Times registra esse instante de passagem com sensibilidade. Hank Shteamer mostra o retorno pelo lado humano, não apenas pelo espetáculo. Nathan Cyprys entrega ao público uma imagem que já entra para a história visual da banda. O Rush, agora visto como quarteto de turnê, aparece diante de nós não como negação do passado, mas como uma forma de lidar com o tempo que passou.

No fim, o que essa reportagem revela é menos uma volta triunfal e mais uma tentativa honesta de reencontro. Geddy diz que, por um tempo, eles colocaram o Rush numa caixa e guardaram essa caixa no armário. Depois dos tributos a Taylor Hawkins, foi como se tivessem tirado a caixa de lá e aberto novamente. “E sabe de uma coisa? Estava tudo bem”, concluiu Lee. Essa frase não significa que a dor desapareceu. Significa que a saudade encontrou um jeito de seguir junto com a vida.

O Rush não volta igual, porque isso seria impossível. Volta possível, maduro, marcado pela ausência e ainda movido por aquilo que sempre sustentou sua história. A vontade de tocar, de criar pontes com o público e de lembrar que, mesmo quando uma banda muda de forma, a música pode continuar dizendo quem ela é.

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