A Rush Cover PB está de volta com sua formação original, com Zé Filho novamente na guitarra. Um retorno que reacende a história de um dos tributos ao Rush mais antigos do Brasil. Chegou a hora de celebrar a força de uma banda paraibana que atravessou décadas mantendo viva, no Nordeste, a música de Geddy Lee, Alex Lifeson e Neil Peart
Tem banda cover que nasce para uma noite. Toca um repertório bonito, mata a saudade do público e depois fica na lembrança de quem estava ali. Mas existem outras que acabam virando parte da história de uma cena. Atravessam décadas, formam público, criam amizades, carregam memória e ajudam a manter viva a obra de uma banda que, no caso do Rush, nunca foi exatamente fácil de tocar. A Rush Cover PB pertence a esse segundo grupo. Sediada em João Pessoa, na Paraíba, possivelmente um dos tributos ao Rush mais antigos do Brasil, a banda está voltando com sua formação original. E a grande novidade desse retorno tem nome e sobrenome. Zé Filho, guitarrista original do grupo, está de volta.
A presença de Zé Filho dá a esse retorno um sabor especial. Ele passou um tempo fora da banda, período em que a guitarra foi assumida por Walter Guimarães, músico que também marcou sua passagem pela história do grupo. Agora, com Zé novamente ao lado de Waldir Dinoá, na voz, baixo, teclados e sintetizadores, e Edu Montenegro, na bateria, percussão e efeitos, a Rush Cover PB reencontra uma formação que carrega um peso afetivo enorme para quem acompanha essa caminhada desde os anos 90. Os caras estrearam no palco no dia 07 de fevereiro de 1991.

A volta não é apenas uma novidade de agenda ou mais uma reunião entre músicos. É um reencontro com uma fase importante da própria banda. Para quem viu a Rush Cover PB nascer e crescer, Zé Filho representa um tempo em que tocar Rush no Nordeste era quase uma aventura para poucos corajosos. Era preciso tirar música no ouvido, correr atrás de timbre, improvisar solução técnica e, acima de tudo, ter uma paixão danada por Geddy Lee, Alex Lifeson e Neil Peart.
Porque tocar Rush nunca foi uma escolha confortável. Não é aquele repertório que a banda pega para facilitar a vida no fim de semana. Tem mudança de andamento, tem entrada no susto, tem teclado aparecendo no meio da confusão, tem baixo que parece guitarra, guitarra que vira paisagem, bateria que parece arquitetura e vocal lá em cima, exigindo fôlego, ouvido e coragem. Quem decide tocar Rush já começa aceitando um desafio daqueles.
A banda tributo paraibana aceitou esse desafio há muito tempo. Nasceu em João Pessoa, longe dos grandes centros onde normalmente se concentra boa parte da cena roqueira nacional, e foi construindo uma trajetória respeitada justamente por levar essa missão a sério. Não era só chegar ao palco e tocar umas músicas conhecidas para agradar os fãs. A ideia sempre foi tentar chegar perto daquela engrenagem sonora criada pelo trio canadense, com o máximo de fidelidade possível, mas também com o jeito próprio de quem faz tudo acontecer na raça.
Vejam bem. Hoje, qualquer músico encontra vídeo, partitura, tutorial, entrevista, equipamento, pedal, timbre pronto e um mundo de informação na internet. Nos anos 90, a conversa era outra. Muita coisa precisava ser descoberta ouvindo o disco de novo, voltando a fita, prestando atenção, errando, tentando mais uma vez e perguntando para outro amigo músico se aquilo fazia algum sentido. Era um tempo em que aprender uma música do Rush parecia quase uma investigação.
Por isso, a volta de Zé Filho na guitarra mexe com uma memória muito específica. Não é apenas o retorno de um músico ao seu posto. É a volta de um som, de uma fase, de uma convivência, de um jeito de tocar e de uma época em que cada música aprendida parecia uma pequena conquista. Quem viveu esse período sabe que não era simples colocar no palco uma faixa como “Tom Sawyer”, “YYZ”, “Xanadu”, “Subdivisions”, “Natural Science” ou “La Villa Strangiato”. Cada uma delas trazia uma armadilha diferente.
A banda sempre teve esse charme de encarar o impossível com naturalidade. Quem olha de fora pode até pensar que se trata apenas de mais um tributo. Quem conhece o Rush sabe que a história é bem diferente. Para tocar esse repertório direito, é preciso entender como as músicas respiram. Não basta saber onde entram as notas. É preciso perceber o clima, o peso, as pausas, as viradas, os pequenos detalhes que fazem uma música do Rush soar como Rush.
Banda estudada pela academia– Esse cuidado acabou dando à Rush Cover PB um reconhecimento raro. A banda virou tema de estudo acadêmico na dissertação de mestrado “Rush Cover PB: tecnologia MIDI e performance”, defendida por José Andrade de Melo Júnior na Universidade Federal da Paraíba. O trabalho analisou justamente o uso de tecnologia MIDI, samplers e recursos eletrônicos pelo grupo para reproduzir ao vivo as camadas sonoras do Rush. Ou seja, a banda chamou atenção não apenas pela paixão, mas também pelo método.
Isso diz muito sobre o tamanho do desafio. O Rush original fazia no palco algo que parecia simples para quem assistia, mas era extremamente complexo por dentro. Geddy Lee cantava, tocava baixo, teclados e acionava pedais. Alex Lifeson preenchia espaços com uma guitarra que podia ser pesada, delicada e cheia de texturas. Neil Peart transformava a bateria em uma espécie de mapa rítmico cheio de caminhos, curvas e surpresas. Reproduzir esse universo ao vivo é trabalho grande. Fazer isso tentando manter o espírito de trio é trabalho maior ainda.
A Rush Cover PB entendeu isso cedo. O grupo não tratou a obra do Rush como repertório de bar ou simples exercício de nostalgia. Havia ali uma vontade de estudar, de compreender os arranjos, de buscar timbres, de descobrir soluções e de fazer a coisa funcionar ao vivo. E, quando a gente fala em Rush, fazer funcionar ao vivo já é uma vitória e tanto.
Também existe um valor simbólico nessa história por ela ter sido construída no Nordeste. João Pessoa, Recife e outras cidades da região sempre tiveram músicos apaixonados, públicos fiéis e cenas muito fortes, mesmo sem a mesma visibilidade dos grandes centros. A Rush Cover PB é parte dessa memória. Uma banda paraibana que olhou para uma das obras mais sofisticadas do rock e disse, com aquele espírito de quem não foge da briga, que dava para fazer.
Deu. Deu tão certo que a banda atravessou o tempo, virou referência entre fãs e músicos, entrou em estudo universitário e agora volta a chamar atenção com esse retorno tão simbólico. Não é apenas a volta da Rush Cover PB. É a volta da banda com Zé Filho novamente na guitarra, retomando o lugar que ocupou na formação original, depois de um período em que Walter Guimarães segurou essa função e também fez parte dessa história.
É claro que existe nostalgia nessa volta. Seria estranho se não existisse. Mas não é uma nostalgia parada, daquelas que ficam presas ao passado. É uma saudade em movimento. Uma vontade de reencontrar velhos sons, rever amigos, lembrar histórias e, principalmente, tocar de novo.
Para o fã do Rush, esse tipo de notícia tem um gosto especial. Porque quem gosta do Rush normalmente não gosta de qualquer jeito. Gosta conversando, pesquisando, comparando fases, lembrando discos, discutindo setlists, defendendo músicas injustiçadas e se emocionando com detalhes que outras pessoas talvez nem percebam. A Rush Cover PB nasceu dentro desse espírito. É uma banda feita por músicos que entenderam que o Rush não era apenas uma coleção de canções difíceis, mas um universo inteiro.
A volta com Zé Filho na guitarra, Waldir Dinoá na voz, baixo, teclados e sintetizadores, e Edu Montenegro na bateria, percussão e efeitos, portanto, não é só uma notícia para a agenda cultural. É um pequeno acontecimento para quem acompanha essa história de perto. É como ver uma peça antiga voltar para o lugar, não para repetir exatamente o que já foi feito, mas para continuar uma caminhada que nunca deixou de fazer sentido.
No fim das contas, todo tributo verdadeiro nasce de uma mistura simples. Admiração e trabalho. A Rush Cover PB sempre teve as duas coisas. A admiração aparece na escolha do repertório, no respeito aos arranjos e no carinho com a obra de Geddy, Alex e Neil. O trabalho aparece nos ensaios, nos equipamentos, nas soluções técnicas e naquela insistência boa de quem passa horas tentando acertar um detalhe que talvez só outro fã perceba.
Agora, com Zé Filho de volta, a banda reacende essa chama e lembra aos fãs que algumas histórias podem até dar uma pausa, mas continuam tocando por dentro. A Rush Cover PB está voltando. E, para quem ama o Rush, isso já é motivo suficiente para prestar atenção, aumentar o som e celebrar mais um capítulo dessa velha guarda, uma aventura nordestina em torno da música do trio canadense.