Rush: “Tocando melhor do que em anos”

Engenheiro de iluminação do Rush há mais de cinco décadas, Howard Ungerleider abriu o jogo em entrevista e revisitou os bastidores de uma história que começa junto com a primeira turnê; memórias da estrada, frio extremo no Canadá e noites improvisando ao lado de Neil Peart, ele também revelou o que vem pela frente na nova turnê e foi direto ao ponto ao falar do presente da banda: “estão tocando melhor do que em muitos anos”

Antes das arenas lotadas, dos efeitos monumentais e da precisão quase cirúrgica que virou marca registrada do Rush, existia apenas uma banda tentando sobreviver na estrada e um jovem técnico que ainda nem imaginava que passaria a vida inteira ali. Em entrevista ao podcast Gig Gab, Howard Ungerleider revisitou essa trajetória com a naturalidade de quem não está contando uma história distante, mas algo que continua acontecendo, ele que é o engenheiro de iluminação da banda desde 1974, presente desde os primeiros passos e antes mesmo da entrada de Neil Peart.

 

A trajetória começa longe dos palcos. Um emprego simples, ganhando 75 dólares por semana na sala de correspondência da American Talent International, correndo de um lado pro outro, tentando entender como aquela engrenagem funcionava. No meio disso, ainda encontrou espaço para um lance improvável, quando conseguiu viabilizar um booking do Fleetwood Mac antes mesmo de ser agente. Era ousadia pura, dessas que parecem pequenas na hora, mas mudam tudo depois.

Foi esse caminho que o levou até Toronto, para trabalhar com o que ele mesmo descreve como uma banda de clube chamada Rush. Ele conta isso sem qualquer romantização. “Meu trabalho era gerenciar a turnê e ensinar a eles como era a vida na estrada”, lembra, como quem fala de algo simples, mas que, olhando hoje, soa histórico.

A realidade era dura. Sem dinheiro, sem estrutura, sem luxo algum. Ele dormia no chão da casa do empresário, ao lado de um São Bernardo, tentando organizar uma rotina que ainda não existia direito. Em uma dessas viagens, no meio do inverno em Cochrane, Ontario, veio uma daquelas histórias que parecem exagero, mas não são. Ao encostar na porta do carro, a mão grudou no metal congelado. “Minha mão ficou presa na maçaneta”, conta, rindo da própria desgraça. Era esse o nível da aventura.

Tudo isso aconteceu antes da chegada de Neil Peart. Quando Neil entrou, ainda era o novato, o cara diferente, o sujeito que falava de coisas que ninguém ali falava. Howard viu isso de perto. “Ele era o cara novo e, por muito tempo, continuou sendo tratado assim”, diz, lembrando da brincadeira interna que atravessou anos.

A relação entre eles rapidamente deixou de ser apenas profissional. “Eu levava o Neil para casa e acabava ficando por lá. A gente tocava junto, baixo e bateria, improvisando em cima de discos do Genesis e do Supertramp”, conta. Não era ensaio formal, era conexão mesmo, aquela que nasce sem esforço.

A rotina era pesada. Mais de duzentas cidades por ano, viagens intermináveis, convivência total. “Você aprende tudo sobre as pessoas muito rápido”, diz. “A gente vivia junto o tempo inteiro.” Era exaustivo, mas também formador. Ali, o Rush começou a virar o que viria a ser.

Quando 2112 explode, o cenário muda completamente. Os clubes ficam para trás, os teatros crescem, as arenas chegam, e Howard encontra o terreno ideal para transformar iluminação em linguagem. “Era como ir para a Disneylândia”, diz. “De repente, você tinha orçamento e liberdade para criar.” A partir dali, surgem sistemas próprios, soluções que ninguém mais tinha e uma identidade visual que virou assinatura.

“Quando você ia a um show do Rush, sabia que veria algo diferente. Não era só um monte de luz piscando. Era um espetáculo”, resume.

Essa filosofia atravessa décadas e chega intacta ao presente, agora com um novo capítulo sendo escrito. A turnê Rush Fifty Something, que começa em junho, traz a banda em formato de quarteto, com Anika Nilles na bateria e Loren Gold nos teclados, liberando Geddy Lee para focar no baixo e nos vocais.

Nesse ponto, Howard surpreende ao falar com uma convicção que não deixa margem para dúvida. “Isso é um rejuvenescimento do Rush”, afirma. Em seguida, ele vai além. “Eles estão tocando melhor do que eu ouvi em muitos anos. Eu diria até que melhor do que na última turnê.”

A frase pesa porque vem de quem viu tudo de dentro.

Sobre Anika, a leitura é direta e respeitosa com o legado. “Ela é única. Tem o próprio estilo. E o Neil aprovaria.” Não existe comparação forçada, existe continuidade. Uma nova forma de manter a essência viva.

Ao falar do momento atual, ele deixa claro que não se trata de nostalgia. “É uma celebração. É um renascimento”, diz. “Não é sobre substituir o passado, é sobre continuar a história.”

No meio disso tudo, ainda existe espaço para detalhes que mostram o quanto o espírito da banda permanece. Howard continua operando a luz como um instrumento, em tempo real, com dois consoles e milhares de comandos. Não é automático, não é frio. É performance, reação direta à música.

A tecnologia mudou, claro. Ele fala dos refletores robóticos, das novas possibilidades e dessa evolução silenciosa. Também comenta momentos curiosos, como a troca de equipamentos com Chris Kuroda, do Phish, no Madison Square Garden. Nada disso, porém, tira o foco do essencial.

Um dos momentos mais simbólicos da conversa surge quando ele lembra de um encontro com Paul McCartney, no camarim do tributo a Taylor Hawkins. Uma frase simples, quase casual, sobre estar sempre se apresentando, ficou marcada. Aquilo parece ter sido uma pequena faísca dentro de um processo maior.

Quando fala do que vem pela frente, ele não tenta convencer ninguém. Apenas coloca do jeito que sente. “Estamos aqui para criar positividade, nos divertir e nada mais.” E fecha com uma imagem que atravessa tudo que foi dito. “Neil está lá, de alguma forma. Todas as noites.”

No fim, ouvindo Howard, fica claro que o Rush nunca foi só uma banda. Era, e ainda é, um estado de espírito. Pelo jeito, continua mais vivo do que muita gente imaginava.

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