Às vésperas da nova turnê mundial, a gente resgata um documentário impressionante para rever Neil Peart por outro ângulo e entender como o instrumento ajudou a construir um dos maiores sons da história do rock
Tem momentos em que a melhor forma de entender o presente é dar alguns passos para trás, não por saudade, mas porque certas histórias só fazem sentido quando a gente enxerga o caminho completo. Agora, com o Rush se preparando para iniciar uma nova turnê que começa nos Estados Unidos em junho e depois vai rodar o mundo, passando inclusive pelo Brasil, a gente resolveu fazer exatamente isso e foi buscar nos arquivos um filme que merece ser revisitado com calma.
Estamos falando de Masters of Resonance, um documentário lançado em 2018 que conta, com um nível de detalhe impressionante, toda a construção da bateria que Neil Peart usou na turnê R40. E quando a gente diz toda, é toda mesmo. O filme acompanha cada etapa do processo, inclusive algo que pouca gente imagina ver em um documentário musical, que é a própria retirada da árvore que deu origem à madeira usada no instrumento. É um daqueles registros que surpreendem justamente por mostrar o que normalmente fica completamente invisível para o público.
Esse ponto de partida já diz muito sobre o que vem pela frente, porque o documentário não começa no palco nem na performance, mas na matéria-prima, na origem de tudo aquilo que, mais tarde, vai virar música. A jornada passa pelas florestas, chega à fábrica da DW Drums e acompanha cada etapa com um cuidado que impressiona, deixando claro que não se trata de um processo industrial comum, mas de uma construção guiada por intenção, paciência e uma busca constante por significado.

Quando o filme entra na criação da bateria da turnê R40, essa sensação se aprofunda ainda mais, porque a escolha de um carvalho de pântano romeno com cerca de 1.500 anos não aparece como um detalhe curioso, mas como algo que muda completamente a forma de olhar para o instrumento. É como se o tempo estivesse presente dentro da própria madeira, como se cada batida carregasse uma memória anterior ao palco, transformando o som em algo que ultrapassa o momento e se conecta com uma ideia mais ampla de permanência.
É nesse ponto que a própria fala de Neil ajuda a traduzir o que está acontecendo ali na tela. “Bom, você viu a história até aqui, mas esse não é o fim da história”, diz Neil,durante o filme. Assim, ele leva o espectador para além da construção física do instrumento. “
Na verdade, esse é o começo, porque agora o que foi criado é um instrumento musical. A evolução da arte de construir uma caixa mudou de forma impressionante, mesmo nesses apenas 50 anos em que venho tocando, no que diz respeito ao que uma bateria pode fazer”, revela o Professor, conectando tradição, inovação e experiência pessoal em uma mesma linha de raciocínio.
Essa lógica dialoga diretamente com a trajetória do Rush, que ao longo de décadas nunca seguiu o caminho mais fácil nem se acomodou em fórmulas prontas, mantendo sempre uma inquietação criativa que se traduz na busca por profundidade, consistência e verdade em tudo o que faz. Essa postura não aparece apenas nas composições ou nos arranjos, mas também nas escolhas mais discretas, como a construção de um instrumento que precisa estar à altura daquilo que a banda representa.

O documentário também revela uma dimensão muitas vezes invisível para o público, que é a relação entre quem constrói e quem toca, uma conexão que vai além da técnica e se aproxima de um entendimento quase intuitivo. Quando essa sintonia acontece, o instrumento deixa de ser apenas um objeto e passa a ser uma extensão da expressão do músico, algo que responde, reage e participa ativamente da criação do som.
Essa transformação fica ainda mais clara quando Neil relembra como era lidar com as limitações de outras épocas. “Durante muito tempo, havia muitos compromissos a serem feitos, e até mesmo no estúdio de gravação, por exemplo, eu podia ter seis caixas diferentes alinhadas para músicas distintas, algumas com mais ataque, outras com mais delicadeza, outras com um impacto mais forte no tempo principal da música”, diz, mostrando como a evolução do instrumento também muda a forma de pensar e de tocar.
Revisitar Masters of Resonance agora, às vésperas de uma nova turnê, deixa de ser apenas um resgate e passa a ser uma forma de entender o que sustenta o som que ainda vai ecoar nos próximos meses. Antes das luzes, antes da primeira nota e antes do reencontro com o público, existe um processo invisível feito de escolhas, de cuidado e de intenção.
É justamente esse processo que continua mantendo o Rush vivo de um jeito tão particular, já que no fim das contas nunca foi apenas sobre a música, mas sobre tudo aquilo que existe por trás dela.