Novo álbum do Rush? A pergunta que ninguém consegue responder

Neste artigo, depois de uma provocação do RushBrasil.com,  jornalista Sérgio Montenegro Filho faz uma análise sobre possível nova obra do Rush. Entre a genialidade de Geddy Lee e Alex Lifeson, e a ausência insubstituível de Neil Peart, fica no ar a dúvida que mexe com qualquer fã: dá pra existir um novo Rush sem as letras que sempre deram alma à banda?

Por Sérgio Montenegro Filho
Jornalista, articulista político e fã do Rush desde os anos 1980

Se existem ao menos dois cidadãos quase “idosos” no Recife absolutamente loucos pelo Rush, eles atendem pelos nomes de João Carvalho, o nosso Papoula, e Sérgio Montenegro Filho, ou simplesmente Serginho. Já se vão mais de três décadas de paixão, admiração, idolatria, curtição, ou chamem lá como quiserem. Mas eis que então me vem Papoula pedir uma opinião das mais difíceis que já imaginei: se houvesse alguma possibilidade de ser lançado um novo álbum da banda nos dias atuais, com Anika Nilles na bateria, qual seria a linha desse disco?

Perdão, amigo velho, mas me considero incapaz neste momento de cravar uma posição. Ao menos sem antes assistir ao show em janeiro próximo, ou aos vídeos que certamente virão antes pela internet. Porém, posso me arriscar a te dar uma posição muito, muitíssimo, particular. Ao menos por enquanto, com um questionamento.

E as letras?????

Com o perdão dos demais leitores deste puta site, vou avocar minha experiência da “velha guarda” para jogar de volta uma outra questão. Geddy Lee e Alex Lifeson são (e não aceito opiniões contrárias) dois grandes músicos. Imensos. Gigantes! São criativos, virtuosos, didáticos e geniais. Todavia, para quem ouve absolutamente TUDO do Rush que é colocado no mercado, temos discos solos de ambos para provar que esse virtualismo permanece e se comprova nas harmonias, na criação das melodias, arranjos, etc., mas as composições das letras não chegam perto daquelas escritas pelo professor Neil Peart.

Para quem não conhece bem a “divisão de tarefas” da banda, cabia a Neil compor as letras, entregar aos dois colegas e aguardar os arranjos melódicos. Só então, ele colocava a bateria em cada uma das composições. Aí, pergunto: e agora?

Tenho assistido a tudo que encontro na internet sobre Anika Nilles, e não tenho dúvidas sobre a competência dela em substituir o Professor nos próximos shows da turnê Fifty Something. Mas são músicas já existentes, sejam elas sucessos, clássicos ou mesmo “lados B”. E indo ainda mais longe, sou capaz de apostar que a moça vai dar show em todos os shows.

Mas quanto a produzir um novo álbum, isso vai demandar, acima de tudo, a composição das novas letras. E ficará a cargo de quem? Alex e Geddy? Será que dão conta? Não estou brincando quando digo que sei, de cor, todas as letras do Rush, de todos os álbuns. Claro, a memória, aos 57 anos de idade, às vezes me trai. Normal. Mas Peart jamais deixou de me emocionar com suas composições. Não posso ouvir The Garden uma única vez sem chorar.

O Professor: um letrista extraordinário

Neil era um cara que lia sem parar, e não apenas livros (inclusive os grandes clássicos), mas também jornais, revistas, noticiários. Absorvia o passado e o cotidiano e construía suas opiniões, transformando-as em letras absurdamente lindas, fortes, contundentes. Algumas – conforme depoimentos dos outros dois colegas de banda – chegavam a dar um trabalho danado para serem adaptadas aos arranjos musicais.

Não quero aqui, de forma alguma, diminuir o mérito de Geddy com seu excelente My Favourite Headache, ou de Alex com seu Victor. Já sobre a nova banda pop do nosso grande guitarrista, a Envy of None, prefiro não comentar, porque apesar de interessante, não faz meu estilo. Mas uma escuta atenta, acompanhando as letras dos álbuns solo, deixará claro para qualquer rushmaníaco mais ligado a superioridade das composições de Peart.

Ao mesmo tempo, nenhum demérito a Anika, que naquela breve pré-estreia no Juno Festival do Canadá, tocando Finding My Way, mostrou a que veio. Em outro texto, pretendo explicar com mais detalhes como ela precisou adaptar sua formação e estilo, bem mais jazzísticos de tocar, aos métodos de Neil (incluindo as “famigeradas” sete oitavas). Mas até onde sei, Nilles não é letrista. Ao menos, não no nível do Professor.

Recomendo, inclusive, a leitura de um artigo publicado recentemente aqui neste site, pela jornalista e linguista Karina Ferreira, sobre a composição do último álbum Clockwork Angels”, analisando como Neil Peart explorou ao extremo temas como a alquimia, os seres elementais e as energias ocultas do planeta Terra nas suas letras.

Mas enfim, respondendo ao querido amigo Papoula , que inclusive estará mais uma vez ao meu lado no show de janeiro, (e já assistimos a quatro deles juntos, salvo engano) não alimento muitas esperanças na criação de um novo álbum. Acho que essa turnê será muito mais um tributo – merecidíssimo – ao Professor e, principalmente, aos fãs que seguiram fiéis mesmo depois da sua passagem.

Bom, por outro lado, admito que eu também já havia perdido as esperanças de assistir a mais um show do Rush ao vivo.

E, eis que de repente, lá vamos nós de novo.

RUSH ON!

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Respostas de 2

  1. Sem discordar do ótimo e apaixonado texto, mas apenas lembrando que o Geddy é bom também nas palavras. Sem considerar suas boas ainda que ingênuas letras do primeiro album (todo escrito aos 20 anos e de última hora…), foi ele o autor de Tears e Different Strings, ambas lindas e profundas. Ao Fantástico, respondendo sobre a possibilidade de novas músicas, Lee desconversou.Disse que tem escrito poemas…Meu coração diz que se rolar uma quimica criativa com Anika (e Loren Gold?!…) creio que logo teremos o vigéssimo album de estúdio do Rush. Eu sou um fã ateu, mas pra isso rezo até novena.

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