Baseado na entrevista para a Classic Rock Magazine, o RushBrasil.com resolveu fazer uma série de três matérias com todo o conteúdo publicado pela revista inglesa.
Nessa primeira matéria da série, vamos mostrar a volta do Rush e a preparação para a estrada, nas palavras de Geddy Lee e Alex Lifeson; o clima é “quero ser melhor do que eu era dez anos atrás”
Para entender o que está acontecendo agora, é preciso voltar para um momento que parecia definitivo. Agosto de 2015, Los Angeles, The Forum. O último show da turnê R40. O fim de uma história que atravessou décadas e moldou gerações inteiras. Naquele palco, pela primeira vez em quarenta anos, Neil Peart saiu de trás da bateria, caminhou até a frente e abraçou Geddy Lee e Alex Lifeson. “Foi um momento lindo”, lembraria Geddy mais tarde, ao revisitar aquele instante que ainda hoje ecoa entre fãs e na própria banda.

Alex Lifeson guarda aquela noite com uma precisão quase cinematográfica. Ele estava no palco observando o relógio gigante no fundo da arena, vendo os minutos passarem lentamente enquanto o show se aproximava do fim. “Eu lembro de estar ali e pensar quantas vezes tocamos no The Forum, quantas vezes tocamos Working Man ali”, contou. Ao mesmo tempo, havia uma sensação difícil de explicar. “Era estranho saber que aquela provavelmente seria a última vez que tocaríamos aquelas músicas juntos”. Ele tentou absorver tudo ao redor, cada detalhe, cada objeto, cada segundo daquele encerramento.
O que mais ficou marcado para ele foi o contraste entre o fim e a expressão de Neil. “Eu olhei para os meus companheiros e já senti saudade deles. E fiquei triste ao ver tanta alegria no rosto do Neil quando estávamos nos últimos momentos da última música”, disse Alex. Aquela alegria, naquele contexto, carregava um significado silencioso que só seria compreendido com o tempo.
Na plateia, o sentimento era coletivo e impossível de conter. Gente chorando abertamente, tentando registrar na memória um momento que parecia nunca mais se repetir. Geddy se despedia dizendo que ainda nos veria estrada adiante, algum dia, enquanto Neil acenava pela última vez antes de desaparecer nas sombras, o que fez com que a maioria tivesse a sensação de estar diante de um ponto final. Embora a história do Rush nunca tenha sido simples a ponto de se encerrar de forma definitiva.
Agora, o ano é 2026. Onze anos depois, o cenário é outro. Londres, uma manhã fria, cinzenta, com o vento batendo nas janelas de um hotel em Mayfair, região nobre da capital londrina. Geddy Lee e Alex Lifeson conversam sobre o passado e o presente com uma mistura de leveza e peso emocional. A última vez que tocaram no The Forum foi quatro anos antes, no tributo a Taylor Hawkins, e a experiência já tinha sido intensa. “Foi como voltar à cena do crime”, disse Geddy, sem esconder o impacto daquela volta.
E, ainda assim, é exatamente ali que tudo vai recomeçar. A nova turnê do Rush começa com quatro noites no mesmo Forum onde tudo terminou. A escolha, segundo os próprios músicos, está longe de ser racional. “É uma ideia extremamente idiota”, disse Geddy, rindo de si mesmo. “Vamos estar muito emocionados naquele primeiro show sem o Neil, e ainda por cima naquele lugar. O que eu estava pensando?”. Alex acompanha o raciocínio com a mesma ironia, deixando claro que a decisão é carregada de emoção tanto quanto de desafio.
O plano inicial era bem mais modesto. Algumas datas no verão, seis ou sete residências e nada além disso. Um retorno controlado, quase cauteloso. Mas a reação do público mudou tudo. Os ingressos desapareceram em questão de minutos e a resposta foi muito maior do que qualquer expectativa. A partir dali, a turnê começou a crescer de forma natural, impulsionada por uma demanda que simplesmente não parava.
Geddy reconhece que ninguém imaginava aquela proporção. “A gente só ia fazer aquelas datas de verão. Mas os ingressos sumiram imediatamente e isso foi crescendo, foi virando outra coisa”, explicou. Com a entrada de uma nova equipe de gestão, a ambição aumentou. Mais datas foram adicionadas, novos territórios entraram no roteiro, e o que era pontual virou uma jornada longa, atravessando América do Norte, América do Sul e Europa, com uma projeção que hoje se aproxima de dois anos na estrada e que exige da banda uma nova forma de encarar o próprio ritmo de trabalho.
Preparação mente e corpo– Geddy e Alex falam abertamente sobre o impacto do tempo. Existe uma consciência clara de que o corpo responde de maneira diferente, de que a recuperação exige mais cuidado, de que o ritmo precisa ser administrado. Por isso, a preparação física e mental passou a ser parte essencial do processo. “Estamos fazendo um esforço real para nos manter em forma, mentalmente e fisicamente”, explicou Alex. “Você envelhece, desacelera, e isso torna tudo mais desafiador”, ao mesmo tempo em que deixam claro que existe um combustível que não mudou e que continua sendo o motor dessa volta, que é o próprio desafio de voltar a tocar em alto nível.
Geddy deixa isso evidente ao falar sobre o que os move neste momento. “Parte do fascínio é o desafio em si. A gente quer tocar tão bem quanto, ou até melhor do que já tocou”, afirmou. E isso não vem apenas de uma ambição pessoal. Vem também da resposta dos fãs, que nunca deixaram de acompanhar a banda. “Minha caixa de entrada está sempre cheia de mensagens, de amor, de pedidos. Então a gente disse, vamos fazer isso e vamos fazer o melhor possível”.
Esse compromisso aparece de forma concreta nos ensaios. A banda já está trabalhando com cerca de vinte e cinco músicas, retomando repertório, reconstruindo memória muscular e refinando detalhes. Alex resume o processo com humor. “Começamos reduzindo a partir de umas novecentas mil músicas”, brincou, revelando que por trás da leveza existe um trabalho minucioso de reorganização de um catálogo gigante e exigente.
E, mesmo diante dessa complexidade, eles decidiram ir além do esperado. Desta vez, o Rush não vai repetir o mesmo show todas as noites. A ideia é variar cerca de quarenta por cento do repertório, criando experiências diferentes a cada apresentação. Geddy explica a lógica por trás dessa escolha. “Se alguém volta na segunda noite, vai ouvir músicas que não ouviu na primeira. Se volta na terceira, vai ter outra combinação. É uma forma de expandir sem precisar colocar tudo em um único show”.
Essa decisão aumenta o grau de dificuldade, mas também renova a experiência tanto para o público quanto para a banda. E exige um nível de preparo ainda maior, porque cada variação precisa manter consistência e impacto, dentro de um contexto emocional inevitável que é a ausência de Neil Peart, sentida de forma mais intensa em determinadas músicas e momentos.
Geddy não tenta suavizar esse ponto. Pelo contrário, ele fala com honestidade sobre o que isso representa. “Há músicas em que isso bate forte. É estranho, é pesado, e é certo que seja assim”, disse. Para ele, ignorar esse sentimento seria um erro. “Se a gente simplesmente seguisse em frente sem sentir nada, isso seria absurdo”.
Por isso, a nova fase do Rush não tenta substituir o passado. Ela convive com ele. Haverá momentos nos shows dedicados a Neil, pensados com cuidado e respeito, como parte natural da história da banda.
Esse equilíbrio entre memória e movimento também aparece na relação entre Geddy e Alex. Existe uma cumplicidade que atravessa décadas e que se manifesta nos pequenos detalhes. Eles falam das risadas nos ensaios, das falhas, dos esquecimentos, das provocações. “Às vezes eu fico puto quando ele toca um solo de outra música”, contou Geddy, entre risos. Alex confirma que isso já aconteceu mais de uma vez, e essa leveza acaba sendo parte fundamental da reconstrução, criando um ambiente em que a banda vai encontrando um novo sentido para seguir em frente.
No fim, quando são questionados sobre o que realmente importa nessa volta, a resposta é direta e sem rodeios. Tocar. Estar no palco. Sentir a música de novo. “Eu só penso em estar ali, tocar, me perder na música e acertar cada nota”, disse Alex. Todo o resto perde importância diante disso.
Geddy complementa com um objetivo que resume bem o espírito dessa fase. “Quero ser melhor do que eu era dez anos atrás”, afirmou, deixando claro que essa volta não é apenas um retorno, mas uma continuação construída com consciência, memória e, acima de tudo, vontade de seguir.
Respostas de 2
Parabéns João! Excelente trabalho
Tudo para manter a chama acesa, mestre! A gente agradece!