Rush, o início entre versões e controvérsias

No porão de uma igreja em Toronto, três garotos subiram ao Coff-In para tocar sob o nome Rush pela primeira vez; mas há controvérsias: teria sido num 18 de setembro, num dia como hoje, ou dias antes? 

Era 18 de setembro de 1968, há 57 anos num dia como hoje. Em um porão de igreja em Toronto, três adolescentes canadenses montavam seus instrumentos sem palco, sem iluminação especial, apenas num canto de salão vazio. Alex Lifeson, John Rutsey e Jeff Jones não sabiam, mas naquela noite estavam inaugurando a história de uma das maiores bandas de rock de todos os tempos. Para o pesquisador Martin Popoff, autor de Anthem: Rush in the ’70s ( traduzido no Brasil como Rush, Através das Décadas) esse foi o primeiro show oficial do grupo, realizado no Coff-In, centro de convivência juvenil que funcionava no subsolo da Igreja Anglicana de St. Theodore’s of Canterbury.

Mas a história não é unânime.

O livro Wandering the Face of the Earth, de Skip Daly e Eric Hansen, aponta outra data, 6 de setembro de 1968, também no porão da mesma igreja, diante de adolescentes da vizinhança. A própria autobiografia de Geddy Lee, My Effin’ Life, reforça essa lembrança. Ele descreve o ambiente de forma vívida.

1968: Uma fileira de casas na Avenida Cactus, em Willowdale, seguida St. Theodore of Canterbury Anglican Church

“Montamos tudo no porão da Igreja St. Theodore of Canterbury, em Willowdale, que uma vez por semana servia de centro de convivência para adolescentes da vizinhança, chamado de Coff-In. Não havia palco, só um salão vazio com a gente numa das extremidades.” Para Geddy, essa teria sido a estreia do Rush diante de um público. A divergência entre o que lembra o baixista e o que defendem os pesquisadores ilustra bem a controvérsia em torno dessa data fundadora.

Muito antes dessas apresentações disputadas pela memória, Lifeson e Rutsey já haviam começado juntos em Willowdale, bairro residencial de Toronto onde viviam. Unidos pelas descobertas da adolescência e pela paixão pela música, montaram a The Projection, uma banda de garagem que tocava Yardbirds em festas de porão. Alex lembra dessa época em Rush: Através das Décadas.

“Costumávamos nos divertir muito, nos apaixonamos por música na mesma época, e ele meio que vivia grudado na bateria assim como eu não desgrudava da guitarra.” Eram ensaios barulhentos, com poucos recursos, mas que deixaram marcas profundas em sua formação.

Foi desse convívio que surgiu a primeira formação do Rush. Com Jeff Jones no baixo e vocais, a banda começou a se apresentar em clubes e centros comunitários. O nome veio de dentro de casa: foi o irmão mais velho de John Rutsey quem sugeriu a palavra Rush, sem imaginar que aquele detalhe se tornaria um dos nomes mais icônicos do rock.

Pouco depois, Jones deixaria a formação e Geddy Lee assumiria o posto, consolidando a tríade que guiaria o grupo nos anos seguintes. Geddy relembra esse momento em sua autobiografia: “Eu entrei no Rush oficialmente no dia 23 de setembro de 1968. Não demorou muito até que o grupo se tornasse parte inseparável da minha vida.”

A presença de John Rutsey foi central nesse início. Ele gravou o primeiro álbum e imprimiu ao Rush uma sonoridade crua e direta, mais próxima do rock básico que admirava. Seus ídolos eram bateristas como Simon Kirke, do Free, enquanto Alex e Geddy já se inclinavam para a sofisticação do rock progressivo de bandas como King Crimson. Essa diferença de rumos musicais, somada a questões de saúde e escolhas pessoais, acabaria afastando Rutsey pouco tempo depois. Ainda assim, sua contribuição foi decisiva: foi ele quem sustentou as baquetas na fase inicial, e foi sua família que deu à banda o nome que atravessaria gerações.

O Rush com John Rutsey na bateria

O que rolava- Toronto, no fim da década de 1960, oferecia o cenário ideal para o surgimento de bandas como o Rush. A cidade vivia uma efervescência cultural, com clubes, salões comunitários e porões de igrejas servindo de palco para jovens que sonhavam seguir os passos de grupos britânicos e americanos. A invasão britânica ainda ecoava com Beatles, Cream e Yardbirds, enquanto o blues elétrico americano ganhava espaço.

O Rush nasceu nesse ambiente de transição, em que a juventude canadense queria deixar sua marca, mas ainda se movia nos subterrâneos da cena local. O Coff-In, como lembrou Geddy, era apenas um salão vazio, mas foi ali que começou a tomar forma uma das carreiras mais duradouras do rock.

O breve período de Jeff Jones também faz parte dessa narrativa. Segundo relatos reunidos por Popoff, foi ele quem cantou no show do dia 18 de setembro, deixando a banda logo em seguida. Jones não desapareceu da música, mas foi Geddy quem levou adiante o projeto que cresceria para além das ruas de Willowdale. Essa troca mostra como o destino da banda poderia ter sido completamente diferente.

Independentemente de qual versão seja considerada correta, a de Popoff, que aponta o dia 18, ou a de Daly, Hansen e o próprio Geddy, que citam o dia 6, o que permanece inegável é que setembro de 1968 marca o nascimento do Rush. Em um porão de igreja em Willowdale, diante de adolescentes curiosos e amigos de bairro, três garotos transformaram ensaios improvisados em música real.

O que parecia apenas mais uma noite de diversão se tornou o primeiro capítulo de uma carreira que mudaria para sempre a história do rock.

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