Entrevista rara de Geddy Lee reaparece

Guardada por mais de três décadas, uma entrevista rara de Geddy Lee ressurge para mostrar o Rush em um de seus momentos mais intensos; às vésperas do lançamento de Counterparts, Geddy falou sobre a busca pelo álbum perfeito, a pressão interna que nunca desaparece, a volta ao estúdio com Peter Collins e a emoção de compor músicas como Nobody’s Hero

Um pedaço precioso da história do Rush voltou à tona. O canal Sunset Vinyl, dedicado a restaurar e aprimorar entrevistas musicais icônicas dos anos 80, 90 e 2000, publicou recentemente uma rara conversa com Geddy Lee, realizada em 1993, quando o Rush lançava Counterparts, seu 19º álbum de estúdio.

A gravação foi exibida originalmente no influente canal de televisão Music Box, que alcançava cerca de 60 milhões de espectadores em toda a Europa e Ásia. Por décadas, esse registro permaneceu fora do alcance do público, até ser recuperado e restaurado digitalmente pela Sunset Vinyl, que devolve aos fãs um momento crucial da trajetória da banda.

Na abertura do bate-papo,  Geddy reconhece o desafio de definir a obra após tantos lançamentos. “Descrever a si mesmo não é uma tarefa muito fácil. Toda vez é complicado. Mas acho que a maior diferença que as pessoas vão notar ao ouvir esse disco é, sonoramente, que é um desvio significativo.”

Disco foi a reinvenção do Rush no início dos anos 1990

Para ele, Counterparts tinha uma identidade clara. “É um som muito mais direto, na sua cara. Fomos de propósito para uma abordagem diferente: menos camadas, menos teclados. Trouxemos a guitarra de volta ao foco. E, do ponto de vista rítmico, o baixo e a bateria soam muito mais agressivos e profundos.”

Apesar dessa mudança, Geddy ressalta que o disco também se destacava em outros aspectos. “Acho que é mais forte melodicamente, mais direto. Liricamente, é um pouco mais pessoal. Os temas vão desde lutas internas até relações interpessoais, homem e mulher, o que também é uma novidade para nós. Mas a música, para mim, é mais agressiva e mais baseada no ritmo, e esse era o nosso objetivo principal.”

Quando perguntado se esse caminho já estava definido antes das gravações, ele admite que a banda raramente planejava tanto. “Nós nunca realmente sabemos o que vamos fazer até sentarmos e começarmos a escrever”, disse.

“Mas se houve uma decisão antecipada, foi a de que precisávamos mudar o som. Esse som mais agressivo, mais seco, mais direto, com menos camadas, foi um esforço consciente. Já vínhamos nos movendo nessa direção há alguns anos, e eu me sinto muito satisfeito com o resultado. O resto simplesmente aconteceu naturalmente.”

Ao falar sobre o processo criativo, o vocal do Rush detalha a natureza imprevisível da composição. “Às vezes as músicas simplesmente fluem, você pega uma sorte, está inspirado naquela manhã e tudo acontece: a letra sai certa, os deuses olham para você de forma favorável. Outras vezes é como martelar, martelar sem parar até conseguir encontrar a parte certa.” Ele conta que, neste álbum, a banda chegou a adotar uma nova prática.

Imagem de divulgação no press release para a imprensa

Lee explica que, com algumas músicas, se não estavão 100% satisfeitos, em vez de mexer demais nelas, simplesmente fingiam que não existiam e começávamos de novo. Isso acabou sendo muito satisfatório, porque no fim as canções não soavam forçadas, mas naturais.

Ainda assim, o prazer estava presente. “Compor é certamente a parte mais recompensadora de todo o processo. Então, sim, é divertido. Mas não significa que não haja pressão.” E completa: “Não acho que a pressão seja externa. Ela é interna. Sempre sentimos a necessidade de melhorar, de mudar, de acertar. Parece que estamos eternamente em busca do álbum perfeito, que talvez nunca venha. E, se vier, seremos os últimos a saber.”

Esse esforço constante marca toda a trajetória da banda. Para ele, os  álbuns do Rush cresciam de forma muito natural. Não havia mudanças bruscas, mas  sempre apareciam elementos de um disco anterior que levam ao seguinte.

“Todos me parecem experimentos, porque estamos sempre mexendo no nosso som essencial. Existe uma base que nunca desaparece. Minha voz soa única, e o jeito que tocamos é identificável como nós mesmos. O resto é apenas tentar aperfeiçoar o ofício. O estado psicológico de cada momento também influencia muito o resultado”, explica, no vídeo.

“Nossos discos sempre parecem cápsulas do tempo. Eles congelam um momento da nossa vida como músicos e como pessoas.”

Volta do produtor– A entrevista também mostra o reencontro do Rush com o produtor Peter Collins, após uma pausa de dois álbuns. “Peter é mais que um colaborador, é um amigo. Os dois discos que fizemos com ele foram muito interessantes, mas na época seguimos caminhos diferentes”, ressalta.

Peter queria explorar outros projetos e o trio também precisava trabalhar com outros produtores. Essa troca foi importante, porque eram três caras que nunca mudavam. “Ao menos deveríamos mudar de estúdio, engenheiro ou produtor, para não ficar estagnados. Quando você é tão insular como nós, é essencial ter novas contribuições”, confessa.

Sobre a decisão de voltar a trabalhar com Collins, Geddy explica.

“Conversamos com vários produtores mais jovens, principalmente americanos, que tinham ótimas ideias, mas sentimos que poderíamos intimidá-los com facilidade. Precisávamos de alguém capaz de se impor conosco. Peter, desde a última vez que trabalhou com a gente, se tornou um produtor mais experiente. Percebemos que poderia trazer muito mais ao projeto, e nós também. Então concluímos que seria divertido fazer mais um disco juntos. Foi assim que tudo se encaixou.”

Entre os momentos mais emocionantes da entrevista está a reflexão sobre “Nobody’s Hero”, uma das músicas mais marcantes de Counterparts.

Foto de divulgação do Rush: a volta forte do “baixo-bateria-guitarra”

“É uma música que pode ser facilmente mal interpretada, por causa das histórias nos versos. Mas é uma canção trágica, sobre perda. Sobre as pessoas comuns que cruzam nossas vidas e, por algum motivo, se vão. Elas não recebem homenagens grandiosas, mas sua ausência não é menos significativa do que a de alguém famoso ou de um político polêmico.”

Geddy desenvolve a ideia com uma clareza tocante, a história do herói. “É alguém que viveu ao seu lado, levou uma vida nobre sem alarde e, de repente, por uma tragédia, se foi. É disso que a música fala. Espero que, ao ouvirem, as pessoas percebam mais do que apenas os versos imediatos. É uma canção sobre perda e sobre quem realmente consideramos heróis.”

Graças à iniciativa da Sunset Vinyl, essa entrevista rara retorna agora em alta qualidade, devolvendo ao público não apenas a memória de uma época, mas também a chance de ouvir, na voz de Geddy Lee, as dúvidas, convicções e reflexões de um momento decisivo para o Rush.

Um registro que mostra, com frescor renovado, como a banda encarava os desafios criativos do início dos anos 1990, equilibrando pressão interna, desejo de mudança e a busca incansável pelo álbum perfeito.

Discografia Factuais

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