Alex Lifeson e a fúria criativa de 2112

Ainda em clima de celebração pelo aniversário de Alex Lifeson, revisitamos suas memórias sobre os dias turbulentos que deram origem a 2112; entre paixão, raiva e resistência, nasceu o disco que salvou o Rush e transformou sua história para sempre

Embalados pela celebração do aniversário de Alex Lifeson, abrimos as portas da memória para revisitar um dos capítulos mais intensos da história do Rush. É como se a chama da guitarra de Alex voltasse a iluminar o passado com a mesma energia que transformou dias de dúvida em um futuro de grandeza. Reencontramos suas memórias sobre os anos 1970 em uma entrevista à Guitar World de novembro de 1996, resgatadas agora na versão online da revista, onde ele recorda o peso dos dias sombrios após Caress of Steel e a explosão emocional que deu vida ao épico 2112.

Um relato nostálgico, carregado de paixão e resistência, que mostra como a música pode nascer do aperto e se tornar eternidade.

O pano de fundo era sombrio. Lançado em 1975, Caress of Steel havia sido recebido com frieza pela crítica e com desânimo pelo mercado. As vendas ficaram muito abaixo do esperado, e o trio enfrentava um momento de incerteza.

Neil Peart, Geddy Lee e Alex Lifeson estavam orgulhosos do disco, especialmente por sua ousadia em mergulhar em narrativas longas e conceituais, mas a indústria não queria saber de experimentações. O que se esperava era algo radiofônico, acessível e rentável.

Alex em ação: flagrante nos anos 1970 de Donald Gadziola

Alex lembra desse período com sinceridade quase dolorida: “Aquele foi um período difícil para o Rush porque Caress of Steel não foi bem comercialmente, mesmo que estivéssemos muito felizes com ele. Queríamos desenvolver aquele estilo.”

Mas a gravadora não via as coisas da mesma forma. A Mercury Records, que distribuía a banda internacionalmente, já cogitava cortá-los do catálogo. Ao mesmo tempo, os empresários estavam inquietos, imaginando que os dias do Rush estavam contados. Foi nesse ambiente carregado de tensão que nasceu 2112.

A chama começou a arder nos palcos, nos hotéis e nas longas viagens de ônibus. O embrião da faixa-título de 2112, que ocuparia todo o lado A do disco, surgiu em meio ao cotidiano intenso da estrada.

“Começamos a escrever aquela música em turnê”, recorda Alex. “Naquela época, escrevíamos bastante na estrada. The Fountain of Lamneth, em Caress of Steel, foi nossa primeira canção totalmente conceitual, e 2112 foi uma extensão disso.” A lembrança é nostálgica e mostra o quanto o Rush se alimentava da vida em movimento. Cada cidade, cada público, cada madrugada servia como combustível para ampliar ideias, testar arranjos e imaginar futuros possíveis.

O resultado seria um épico de 20 minutos, dividido em sete partes, que se tornaria não apenas o maior desafio criativo da banda até então, mas também seu grito de independência.

O que moveu os três jovens canadenses naquela época foi algo mais visceral do que ambição. Foi um misto de paixão e raiva. Paixão pela música, pela liberdade de criar sem concessões. Raiva da pressão externa, das negativas da gravadora, do olhar cético da crítica.

“Havia tanta energia negativa da gravadora, e nosso management estava preocupado, que voltamos com força total em 2112”, disse Alex. “Havia muita paixão e raiva naquele disco. Era sobre uma pessoa se levantando contra todos os outros.”

Essa metáfora ganhou corpo na narrativa futurista da música, em que um protagonista descobre uma guitarra em um mundo dominado por um governo autoritário que havia banido a individualidade e a expressão artística.

A história trazia à tona os sentimentos da própria banda. Marginalizada pela indústria, mas disposta a resistir com arte e convicção.

Energia no palco: Alex, Geddy e Neil quebrando tudo

Além da concepção lírica e conceitual, havia também a sonoridade, moldada com poucos recursos e muita inventividade. Alex Lifeson, sempre sincero ao falar de seu ofício, revelou que não havia grandes segredos ou tecnologias de ponta à disposição: “Usei novamente a ES-335 e uma Strat, que peguei emprestada para a gravação. Não podia comprar uma naquela época. Também usei um Marshall de 50 watts e um Fender Twin.”

Ele acrescenta, com humor e nostalgia. “Talvez eu tivesse um Hiwatt no estúdio naquela época, mas acho que isso veio um pouco depois. Meus efeitos eram um phase-shifter Maestro e um bom e velho Echoplex. Naquele tempo havia um número limitado de efeitos disponíveis. O Echoplex e o wah-wah eram básicos nesses dias.”

O resultado, entretanto, foi tudo, menos limitado. Com esse arsenal enxuto, Lifeson construiu texturas densas, solos cortantes e atmosferas que sustentam a narrativa da música como se fosse uma trilha cinematográfica. O 2112 foi lançado em 1976. O impacto foi imediato. O álbum não apenas salvou a carreira da banda, como também inaugurou uma fase de grande prosperidade criativa e de reconhecimento internacional.

De repente, aquele trio que parecia fadado ao esquecimento estava no centro da cena do rock progressivo, reverenciado pela ousadia e autenticidade.

Muitos momentos dessa fase foram registradas pelo olhar excepcional do genial fotógrafo Donald Gadziola.

O “Starman” lançado junto com 2112: marca registrada da banda

Divisor da carreira– O disco se tornou um divisor de águas. Para os fãs, um manifesto de resistência. Para a banda, um renascimento. Para a história do rock, uma prova de que a integridade artística pode, sim, desafiar o mercado e vencer.

Hoje, aos 72 anos, Alex Lifeson segue sendo celebrado como um dos maiores guitarristas de sua geração. Ele ainda emociona ao revisitar suas memórias e recentemente voltou aos palcos em Toronto ao lado de Tom Morello, em uma participação surpresa que provou que sua guitarra continua sendo a alma de uma cidade inteira.

A cada relato, Alex nos lembra que a música é feita de carne, osso, suor e fé. Que álbuns como 2112 não surgem do nada, mas do choque entre a fragilidade humana e a força criativa. E que o Rush, mais do que uma banda, sempre foi um símbolo de resistência, de inconformismo e de busca pela grandeza.

E se 2112 é lembrado como o disco que salvou o Rush, é impossível não voltar o olhar para o seu predecessor, o sempre enigmático Caress of Steel. Foi nele que os primeiros esboços da ousadia surgiram, e foi também nele que a banda enfrentou a rejeição mais dura. Justamente por isso, ele permanece como peça fundamental do quebra-cabeça.

Por falar em Caress of Steel, no próximo mês de setembro o RushBrasil.com publicará uma série especial de matérias sobre esse álbum, explorando seus segredos, seus simbolismos e seu legado.

Será mais um mergulho nostálgico, um convite a revisitar um disco que, apesar de incompreendido em seu tempo, pavimentou a estrada para a eternidade de 2112.

Discografia Factuais

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