Toronto Star relembra “Caress of Steel”

Meio século após dividir crítica e público, Caress of Steel volta aos holofotes pelas páginas do Toronto Star, um dos jornais mais importantes do mundo e da cidade natal do Rush; disco foi revisitado com humor e nostalgia por Geddy Lee e Alex Lifeson no palco do histórico Massey Hall, em uma conversa que revela bastidores, riscos e a resiliência que moldaria para sempre o destino da banda

Há discos que chegam como cartas de amor. Outros, como bilhetes de despedida. Caress of Steel, lançado em setembro de 1975, não foi nem uma coisa nem outra. Foi mais como uma charada inesperada, com a promessa de que faria sentido no futuro. Na época, confundiu críticos, assustou a gravadora e deixou o trio canadense à beira de um precipício criativo. Cinquenta anos depois, o Toronto Star, um dos jornais mais importantes do mundo e da própria cidade natal da banda, Toronto, Canadá, revisita essa obra estranha e fascinante, agora ouvida como uma ambiciosa “quas-obra-prima” (pra nós, ela É uma obra-prima).

A matéria, assinada por Hayden Godfrey, abre lembrando um encontro no suntuoso e histórico Massey Hall, em dezembro de 2023. Sob as luzes quentes do teatro, Geddy Lee se recosta na poltrona, cruza a perna e lança a pergunta que arranca risos cúmplices: “Você se lembra de fazer Caress of Steel?”. Alex Lifeson levanta a sobrancelha, como quem prepara a réplica: “Quando você diz ‘lembrar’…?”. Lee afina o foco: “Você se lembra de quanto óleo de haxixe a gente fumou fazendo o álbum?”. Lifeson sorri, sem disfarçar a ironia. “É… era o que rolava na época”. E assim, no rastro de uma piada, os dois abrem a porta para um capítulo da história que foi tão tenso quanto decisivo.

Disco foi uma aposta alta do  canadense. Foto: Steve Russell/Toronto Star

Caress of Steel nasceu apressado, apenas sete meses depois de Fly by Night, o disco que deu ao Rush seu primeiro sopro de reconhecimento nas paradas americanas. Mas onde o anterior era direto, o novo mergulhava em narrativas fantásticas, suítes longas e atmosferas quase teatrais. “The Fountain of Lamneth”, com seus 20 minutos e múltiplos movimentos, e “The Necromancer”, com ecos de Tolkien, exibiam uma ambição rara. Havia os vocais cortantes de Lee em “Bastille Day”, os riffs certeiros do trecho “Bacchus Plateau” e a bateria meticulosamente dramática de Neil Peart.

O problema é que o público e a crítica não estavam prontos para essa mistura. As resenhas foram duras, algumas cruéis. Um jornal chegou a chamar o álbum de “suplício para os ouvidos” e, para completar, errou o nome das músicas. Entre os próprios integrantes, cresceu o temor de que a banda estivesse com os dias contados. A turnê que se seguiu, com casas menores e datas divididas com bandas sem o mesmo brilho, ganhou o apelido interno de “Down the Tubes Tour”, ou, na versão mais sarcástica, “Corrosive Steel Tour”.

O Toronto Star recupera ainda a história da capa. Hugh Syme, estreando sua longa parceria visual com o Rush, criou inicialmente um desenho elegante a lápis, inspirado nas letras de Peart e nas ilusões de M.C. Escher. A gravadora achou “bom demais” e pediu algo mais “sujo”. Veio então o mago com sua serpente, em tons terrosos, que com o tempo se tornaria um ícone da identidade da banda.

Para Terry Brown, produtor que acompanhou o grupo até Signals (1982), o disco não foi um fracasso, mas um rito de passagem. “Ele definitivamente preparou o terreno para 2112”, disse ao jornal. E é aí que mora a reviravolta. Em vez de recuar e entregar um trabalho mais comercial, o Rush apostou ainda mais alto. 2112, lançado no ano seguinte, não apenas salvou a carreira, como colocou o trio no mapa do rock progressivo para sempre.

Pertencimento– O que poderia ter sido o fim se transformou em alicerce. Entre os fãs mais fiéis, Caress of Steel virou senha de pertencimento. Não é o disco que todo mundo conhece — e é justamente por isso que, para alguns, ele é especial. É a prova de que ousar vale a pena, mesmo que o mundo torça o nariz.

No encerramento da conversa no Massey Hall, Geddy Lee não falou de críticas ou vendas. Falou de memória, daquelas que só quem esteve lá pode guardar: “Sou tão feliz por termos esse volume de memórias compartilhadas. Somos muito sortudos”.

Cinquenta anos depois, é impossível ouvir Caress of Steel sem pensar no que veio depois. Ele é a curva perigosa na estrada que levou o Rush ao auge. O álbum que poderia ter sido um epitáfio acabou virando prólogo. E enquanto houver alguém que coloque “The Fountain of Lamneth” para tocar e feche os olhos para atravessar seus movimentos como quem atravessa uma vida inteira, o Rush seguirá vivo. Porque certas chamas, quando acesas, nunca se apagam.

 

*O RushBrasil.com está preparando uma série de matérias sobre os 50 anos do disco Caress of Steel, que será publicada em setembro. Desvendamos fatos inéditos e traremos análises detalhadas sobre a obra. O trabalho do trio, naquele momento, foi muito mais intenso e denso do que se possa imaginar.

Discografia Factuais

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