Rush e o encontro com Neil Peart

Foi com a bateria desmontada em latas de lixo, um carro emprestado e um talento avassalador que Neil Peart entrou para mudar a história; há 51 anos, o destino do Rush e do rock foram selados em uma sala de ensaios; esta é a história daquele dia eterno

28 de julho de 1974. Guarde essa data. Ela marca um dos momentos mais emblemáticos da história do rock. Foi neste dia, há exatos 51 anos, que um jovem baterista canadense chamado Neil Peart entrou numa sala de ensaio em Pickering, nos arredores de Toronto, para uma audição com o Rush. Sem saber, ele estava prestes a transformar não apenas o futuro da banda, mas também o curso da música moderna.

Geddy Lee e Alex Lifeson, os dois remanescentes do trio que então ensaiava seu primeiro voo internacional, buscavam um novo baterista após a saída de John Rutsey. Precisavam de alguém com técnica, presença e, acima de tudo, visão artística.

O próprio Geddy relembrou a urgência daquele momento em sua autobiografia, My Effin’ Life.  “John saiu da banda em julho, e aqui estávamos nós falando em começar uma turnê pelos EUA em 14 de agosto? Precisávamos de um baterista! Tínhamos trabalho a fazer! Cancelamos todos os shows pendentes no Canadá, chamamos bateristas para fazer testes e montamos todo o equipamento numa sala de ensaios em Pickering, a leste de Toronto.”

Neil Peart num momento de transe criativo

E foi assim que Neil chegou, dirigindo o Ford Pinto da mãe, com seus tambores cuidadosamente, ou melhor, improvisadamente, guardados em latas de lixo. A cena chamou a atenção de imediato. “Um Ford Pinto estacionou na área de carga e dele saiu um cara meio pateta e magricela, de cabelo curto e sem camisa, cuja bateria estava acondicionada em latas de lixo”, recorda Geddy. O kit? Um conjunto Rogers com dois bumbos de 18 polegadas, “os menores que eu já tinha visto”, completa.

Assista ao vídeo publicado pelo canal Collector’s Room, sobre a chegada de Neil ao Rush

Mas bastaram poucos minutos para que a impressão mudasse completamente. Assim que se posicionou atrás do instrumento, Neil “checou cuidadosamente o posicionamento dos bumbos, depois o resto do kit, então começou a tocar tercinas, que com aqueles bumbos pequenos produziam o som de uma metralhadora.”

O impacto foi imediato. “Ficamos de olhos arregalados! Um sorriso meu se abriu de uma orelha a outra, e, enquanto repassávamos algumas canções, aquele sorriso jamais deixou o meu rosto. Cara, ele era tão bom, tão poderoso”, lembrou Geddy.

Alex Lifeson também se impressionou com o som que saía daquele kit modesto. “Ele era muito bom. Neil batia naquela bateria com muita força. E era um kit bem pequeno: tom-tons pequenos, bumbo pequeno, mas barulhenta! E tocava forte. Tocava muito parecido com Keith Moon o tempo todo.”

Foto para a turnê do primeiro disco

A primeira conexão foi entre Neil e Geddy. Quando começaram a tocar juntos, a seção rítmica parecia pulsar com uma vida própria. Alex reconheceria mais tarde. “Quando ele começou a tocar, foi surpreendente. E nós tínhamos um interesse comum em música. Quando começamos a tocar, nós realmente nos alimentávamos um do outro, em especial Geddy e Neil. E foi ali que tudo começou, na seção rítmica. Eles se conectaram.”

De forma honesta, Lifeson admitiu. “Acho que, provavelmente, fui um pouco mais hesitante. Não sei se fiquei tão entusiasmado logo de cara. Mas sem dúvida acabei assimilando a ideia bem rápido.”

Do lado de Neil, a percepção foi quase mágica. Anos depois, ele escreveria sobre aquele momento decisivo.  “Enquanto Geddy, Alex e eu tocávamos juntos, pareceu que correspondíamos às ‘energias’ um do outro imediatamente, e também depois quando nós nos sentamos no show conversando sobre Monty Python’s Flying Circus, O Senhor dos Anéis e as bandas de que gostávamos.”

O teste teve seu ápice quando Geddy propôs que improvisassem uma jam sobre uma música que John Rutsey não havia se interessado em tocar. “Ele arrasou. Quero dizer, arrasou mesmo. Nem precisei ouvir mais ninguém.”

A decisão foi praticamente instantânea. Naquela mesma noite, Geddy e Alex ligaram para Neil com a notícia. “Telefonamos para Neil à noite, e ele veio no dia seguinte para se juntar oficialmente à banda. Foi meu aniversário de 21 anos naquele dia. Que presente de aniversário”, recorda Lee.

Nascimento oficial– E assim nascia a formação clássica do Rush, com Lee, Lifeson e Peart. Um trio que redefiniria os limites do rock progressivo com discos como Fly by Night, 2112, Permanent Waves, Moving Pictures e tantos outros marcos que moldaram o som de uma geração.

Neil com o Rush no palco: show em Ohio, meses depois dele entrar na banda

Mais do que baterista, Neil se tornaria a alma lírica da banda. Suas letras filosóficas e visionárias levaram o rock para outros patamares de reflexão e profundidade. Inspirado por Ayn Rand, Carl Jung, Ernest Hemingway e pela própria estrada, ele escrevia com precisão literária sobre liberdade, existência, alienação e o espírito humano. E com isso, formava, com Geddy e Alex, um dos tríades mais respeitados, inovadores e cultuados da história da música.

O que aconteceu naquela sala de ensaio em 28 de julho de 1974 não foi apenas uma audição bem-sucedida. Foi o nascimento de uma era. Uma nova página começava a ser escrita,s com baquetas nas mãos e poesia na mente.

Hoje, meio século depois, esse momento permanece como um divisor de águas. Um ponto de partida para uma trajetória que ultrapassou fronteiras e se tornou parte da vida de milhões de fãs ao redor do mundo. Neil Peart não apenas completou o Rush — ele o elevou a uma outra dimensão.

E é por isso que celebramos este dia. Porque toda vez que ouvimos uma virada em “Tom Sawyer”, um compasso quebrado em “YYZ” ou uma reflexão em “Limelight”, sentimos o eco daquele instante em que tudo começou.

Lembrar, eternamente, Neil Peart.

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